A Maçonaria Italiana ficou estimulada com a Encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti

Fratelli Tutti

Na sua última encíclica Frates Omnes, o Papa Francisco aborda o tema da Fraternidade e da amizade social numa dimensão nova e sem precedentes e não são poucas as semelhanças com os princípios e a visão Maçónica.

Na encíclica, publicada em 3 de Outubro de 2020, o Papa Francisco expressou apertis verbis, uma abordagem absolutamente nova para uma ideia de fraternidade universal, como um vínculo que une todos os seres humanos, independentemente da sua fé, ideologia, cor, pele, origem social, língua, cultura ou nação. É um pensamento próximo aos ideais que constituíram os próprios fundamentos da Maçonaria desde o início.

Por mais de 300 anos, o princípio da Fraternidade foi indelevelmente escrito no trinómio maçónico inscrito no Oriente dos templos junto com os da Liberdade e Igualdade. E, a realização de uma Fraternidade universal, é desde as origens a grande missão e o grande sonho da Maçonaria.

Alguns filósofos, jornalistas e até alguns altos prelados da Santa Igreja Romana sublinharam isso mesmo nos seus comentários, expressando-se sem reservas a respeito da mensagem que saiu da encíclica Bergogliana.

Abertura ao Islão

Um limite teológico que o Papa evidentemente decidiu superar, optando mais uma vez por inspirar-se em São Francisco de Assis, que “se sentia irmão do sol, do mar e do vento” e que “sabia que estava ainda mais unido àqueles que eram da sua própria carne”, que “semearam a paz por toda a parte” e que “caminharam ao lado dos pobres, dos abandonados, dos enfermos, dos rejeitados, dos últimos”. O Papa faz questão de recordar também um episódio da vida do santo “que nos mostra – explica – o seu coração sem fronteiras, capaz de ultrapassar as distâncias de origem, nacionalidade, cor ou religião”: a sua visita ao Sultão Malik-al-Kamil no Egipto. E isto não é tudo. Bergoglio, na encíclica não hesita em reconhecer que se sentiu estimulado de maneira especial pelas reflexões do Grande Imã da Mesquita Al Azhar Ahmad Al-Tayyeb, com quem em 2019 em Abu Dhabi assinou o Documento sobre a Fraternidade Universal que tinha como premissa – recordou -, que Deus “criou todos os seres humanos iguais em direitos, deveres e dignidade e chamou-os a viver juntos como irmãos, a povoar a terra e a difundir nela os valores do bem, da caridade e da paz”.

As palavras do Grão-Mestre

Nós nascemos e somos livres e iguais, mas ao mesmo tempo também somos diferentes. Somos diferentes uns dos outros em cultura, carácter, engenhosidade, predisposições e atitudes. Estas diferenças são a expressão mais clara da nossa igualdade que vive e se fortalece na diversidade. Portanto, na Igualdade devemos ir em busca de todos os valores, não apenas os partilhados, mas também encontrar uma convivência sábia e fecunda com aqueles que nos permitem estar juntos com todas as nossas mútuas e múltiplas diversidades. Somos iguais porque somos diferentes e podemos e devemos permanecer unidos para dar o nosso melhor e contribuir para uma sociedade e um mundo melhores. Devemos estar conscientes de que precisamos de nos alimentar da diversidade dos outros, para criar uma riqueza mútua que possa quebrar as desigualdades e construir pontes de coesão para caminharmos juntos pacificamente. Somos todos irmãos, estamos todos sob o mesmo céu”. “Todos os irmãos“, palavras por sua vez pronunciadas pelo Grão-Mestre Stefano Bisi no discurso proferido no dia 11 de Setembro em Rimini durante a Grande Loja do Grande Oriente da Itália no Palazzo Giustiniani.

As palavras do Papa

E são estas também as palavras que proferiu o Papa na Encíclica, que, tendo como pressuposto que nascemos e somos todos iguais perante Deus, apostou no valor da diversidade: “Há um modelo de globalização que ‘visa conscientemente a uniformidade unidimensional e busca eliminar todas as diferenças e tradições numa busca superficial pela unidade. […] Se uma globalização pretende igualar todos, como se fosse uma esfera, essa globalização destrói a peculiaridade de cada pessoa e de cada povo’. Este falso sonho universalista acaba privando o mundo da variedade das suas cores, da sua beleza e, em última análise, da sua humanidade. Porque “o futuro não é monocromático, mas, se tivermos coragem, é possível olhar para ele na variedade e na diversidade das contribuições que cada um pode dar. Quanto a nossa família humana precisa de aprender a conviver em harmonia e paz sem que todos nós tenhamos que ser iguais!”. E ainda: “Desejo muito que, neste tempo que nos foi dado viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos reavivar entre todos uma aspiração mundial à fraternidade. Entre todos: “Aqui está um lindo segredo para sonhar e fazer da nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida sozinho […]. Precisamos de uma comunidade que nos apoie, que nos ajude e na qual nos ajudemos uns aos outros a olhar para a frente. Como é importante sonhar juntos! […] sozinhos, corremos o risco de ter miragens, então vemos o que não existe; os sonhos são construídos juntos”. Sonhamos como uma só humanidade, como viajantes feitos da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos acolhe a todos, cada um com a riqueza da sua fé ou convicções, cada um com a sua voz, todos irmãos!

O Trinomio Maçónico

No seu discurso, o Grão-Mestre explicou que a fraternidade é um pré-requisito de liberdade e igualdade: “Além da família a que pertencemos, além da etnia, religião, orientação sexual e classe social, somos todos iguais com igual dignidade e igualdade de oportunidades. Sem distinção. E todos devem ter as mesmas oportunidades. A igualdade não olha para a cor da pele ou dos olhos. A raça humana é uma só. Há alguns anos, nós, no Grande Oriente de Itália, removemos a palavra raça de nossa Constituição; estamos à espera que a Itália e todos o façam. Estes são os princípios que a Maçonaria sempre perseguiu e preservou para a elevação da Humanidade. Igualdade, liberdade, são palavras de ordem, são convites para trabalhar para alcançar estes objectivos e é possível fazê-lo se houver fraternidade. E isto que faz com que o ser humano se sinta parte de uma comunidade que deseja liberdade e igualdade”.

O Trinomio de Bergoglio

Bergoglio afirmou na sua Carta: “A Fraternidade tem algo de positivo a oferecer à liberdade e à igualdade. O que acontece sem a fraternidade cultivada conscientemente, sem uma vontade política da fraternidade, traduzida na educação à fraternidade, ao diálogo, à descoberta da reciprocidade e do enriquecimento mútuo como valores? Acontece que a liberdade se encolhe, resultando antes numa condição de solidão, de pura autonomia para pertencer a alguém ou algo, ou simplesmente possuir e desfrutar. Isto em nada esgota a riqueza da liberdade, que se orienta sobretudo para o amor”.

Os medos dos nossos tempos

O Papa também falou sobre os medos dos nossos tempos, sobre a necessidade de “recuperar a paixão partilhada por uma comunidade de pertença e solidariedade”; no mundo digital, cujo funcionamento favorece circuitos fechados de pessoas afins e facilita a difusão de notícias falsas que fomentam o preconceito e o ódio; sobre os fanatismos que também existem entre os cristãos e nos círculos católicos; protesta também contar a pena de morte e a prisão perpétua, que ele define como uma “pena de morte oculta”. Abordou também a questão dos imigrantes, definindo-a como “uma bênção, uma riqueza e um novo dom que convida uma sociedade a crescer” e a questão da diversidade como um valor. Todos estes temas, são temas de reflexão diária dos Irmãos do Grande Oriente da Itália, entre as colunas do templo e fora dela. Para realizar o grande sonho de uma verdadeira fraternidade global.

Tradução de António Jorge

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