A visão da Maçonaria pela sociedade civil portuguesa na contemporaneidade

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pessoas caminhando, sociedade

“A Maçonaria é tão relevante quanto significativas são as acções dos Maçons”

Stevan Nikolic

Esta frase proferida por um autor obscuro e sem nenhuma obra de especial notoriedade é, contudo, absolutamente contundente na definição da orientação que deverá ser prosseguida pelos Maçons e pelas Obediências em que se inserem.

Foi precisamente com base nesta ideia que, ao longo dos dois últimos meses, cometi a enorme veleidade de tentar absorver da sociedade civil a visão que nela está enraizada respeitante à Maçonaria e aos Maçons de uma forma geral. Tenho plena consciência de que irei mergulhar de cabeça em águas escuras e revoltas, mas a necessidade que sinto em abordar esta temática sobre a qual tem recaído o que chamo de “atitude avestruz” foi mais forte do que a prudência.

Para tal, confrontei sobre esse tema várias pessoas pertencentes a vários grupos, nos quais também estou inserido, e que se dedicam à dissertação de várias temáticas que respeitam à sociedade portuguesa, neles tendo também incluindo algumas associações com papel activo e prático além de filosófico. Por uma questão de pudor e de sigilo éticos não identificarei esses grupos, garantindo, no entanto, que os seus nomes não seriam estranhos caso os revelasse.

A Maçonaria, em sinal dos tempos ou não, está conotada nos dias que correm como uma sociedade secreta com fins obscuros que passam essencialmente pelo domínio e ingerência nas altas esferas políticas e económicas da nação e pela protecção, em jeito de compadrio, dos membros que a integram ou que a constituem. Em resumo, a Maçonaria pretenderá, de acordo com esta visão, influenciar os principais centros de decisão nacionais na prossecução dos seus interesses hegemónicos. Quer se queira ou não, é esta a visão predominante que a sociedade portuguesa tem da Maçonaria. Mais incrivelmente ainda, estas palavras provêm de pessoas que poderemos categorizar como fazendo parte do “português comum” mas também daquelas de estratos considerados esclarecidos, tanto a nível cultural como académico.

A pergunta que se coloca é, assim e tão simplesmente, “Porquê?“.

A principal causa que está por base da desconfiança existente na sociedade face à Maçonaria prende-se com o alegado secretismo sob o qual se resguardam as obediências maçónicas, secretismo esse respeitante aos seus membros e também respeitante às actividades que são desenvolvidas nas suas Lojas.

Quando fui confrontado com este dilema, o esclarecimento que avancei (o qual submeto ao melhor entendimento por parte dos meus Irmãos), foi, em linhas gerais, o seguinte… a Maçonaria defende, promove e fomenta os mais amplos e enérgicos conceitos de liberdade e de fraternidade, conceitos esses que são susceptíveis de contínuo aperfeiçoamento numa sociedade livre, justa e democrática. No entanto, sempre que as sociedades regridem para um espectro de governação mais sombrio em que a liberdade e o livre arbítrio são asfixiados, os Maçons são, por norma histórica, alvos de perseguição e de silenciamento. Por esse motivo, há que garantir que os defensores dos mais altos valores da justiça possam permanecer activos em tempos conturbados com risco reduzido de serem rapidamente identificados e sujeitos a coacção. Contudo, esclareci que cada Maçom é livre de revelar a sua condição, assumindo com isso os condicionamentos que essa abertura lhe poderá provocar, estando, no entanto, proibidos de desvelar qualquer outro Irmão, em cautela face a situações porventura análogas à que atrás referenciei ou por motivo de outras questões mais quotidianas.

Surpreendentemente, e como curiosidade adicional, raros foram os casos em que os meus interlocutores revelaram ser conhecedores das perseguições das quais foram alvos os Maçons em Portugal durante o Estado Novo assim como da eliminação física de vários Maçons um pouco por toda a Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

No desenvolvimento deste assunto em concreto, foi levantada uma questão bastante pertinente… qual é, afinal, o conceito de sociedade da qual são os Maçons prossecutores e defensores? Por que sociedade em concreto lutarão os mesmos caso o despotismo volte a tomar as rédeas do país? Excelente pergunta, a qual devolvo à consideração e reflexão de cada um dos Irmãos.

Correndo o risco de parecer acutilante e instigador, acrescento que presenciei em redes sociais que nos são internas e exclusivas a argumentações de vários Irmãos sobre o mal-estar que sentem quando são elevados entre nós os valores, por exemplo, da República ou da Democracia Representativa, havendo mesmo quem comunique abertamente o claro desconforto que sente nos brindes ritualísticos e até quem coloque em questão o hino nacional e o que o mesmo representa a nível histórico. Será caso para perguntar se partilhamos alguma visão sociológica em comum (que não os fundamentos um tanto etéreos da lei moral) que estejamos preparados para defender caso a tal sejamos chamados. Se existem tais planos de contingência mas dos quais não tenha pessoalmente conhecimento por razões de grau e/ou de qualidade, então celebremos… caso não existam, então reflictamos urgentemente.

As sociedades a nível mundial funcionam em ciclos, e a liberdade e a democracia não deverão ser nunca tomadas por adquiridas… todos nós sabemos que destino teve a Primeira República em Portugal ou a República de Weimar na Alemanha. Se formos chamados à defesa dos valores que nos são tão caros num cenário em que o direito de associação esteja fortemente restringido, creio que deveremos saber como actuar de forma unissonante mesmo que forçadamente separados. Fica o desafio à ponderação.

Pese embora não tenha dado a conhecer este pressuposto corolário, comuniquei, contudo, uma ideia com grande veemência… a Maçonaria é simultaneamente fruto e árvore da liberdade, pois todas as democracias contam com a presença e a acção da Maçonaria, enquanto que em regimes opressores a Maçonaria é inexistente ou condicionada de uma forma que conspurca a verdadeira acepção da sua missão. Mas, por consequência desta minha intervenção, uma nova questão emergiu em várias das conversas tidas… será a Maçonaria parasitária da Democracia? Será que a Liberdade existe porque a Maçonaria a promove ou será que a Maçonaria prospera em Democracia porque a Liberdade a alimenta, sem que dela retire proveito? Esta espiral retórica foi, para mim, de muito difícil resolução, sendo que a melhor resposta que encontrei foi a que revela uma união simbiótica entre Liberdade e Maçonaria, coexistindo ambas numa profícua relação, crescendo e compensando-se mutuamente.

Outra questão por várias vezes levantada prende-se com o papel activo e quotidiano que a Maçonaria terá, ou alega ter, na sociedade. Qual é e em que moldes se expressa?

Nesta vertente, a Maçonaria divide-se em duas formas essenciais de actuação. A primeira defende que a própria obediência, constituída por homens livres e de bons costumes, deverá intervir directamente por via de acções filantrópicas e de esclarecimento. A segunda, por seu lado, promove que sejam os Maçons que a compõem a intervir directa e individualmente (ou em colectividades espontâneas) na sociedade, fazendo justiça aos ensinamentos e ao aperfeiçoamento pessoal e espiritual aos quais são sujeitos na obediência a que pertencem. Não obstante ambos os cenários, a percepção que existe é que essa alegada intervenção beneficente e altruísta é nula.

Face a tal percepção, pergunto se haverá primeiro que considerar qual das hipóteses de intervenção será a melhor. A resposta é… dificilmente se conseguirá determinar!

Na primeira, sabemos que a obediência, mesmo que intervindo directamente no panorama social, só o fará eficaz e eficientemente caso a soma qualitativa de todos os decisores que a compõem assim o permita. No entanto, a intervenção será mais facilmente motivada uma vez que existirá uma instituição a encobrir o indivíduo benfeitor, não o expondo publicamente na sua condição de Maçon.

Já na segunda, existe o risco de não haver uma preocupação ou percepção por parte da obediência sobre as acções construtivas eventualmente produzidas pelos seus membros, os quais também poderão não se sentir confortáveis se tiverem que ser expostos. Por contrário, permite uma desburocratização da acção social e uma autonomia bastante mais alargada.

Dado que existem, portanto, factores positivos assim como potencialmente negativos em ambas as abordagens, tudo se resumirá, assim, não à tipologia da intervenção mas sim aos resultados visíveis e perceptíveis da mesma.

Muitos dirão que muito se faz mas que, propositadamente, pouco ou nada se divulga ou se dá a conhecer, cumprindo com um desígnio de solidariedade e caridade que se quer modestissimamente altruísta. A incómoda pergunta que coloco é se, face ao momento e às contingências nacionais que atravessamos, não deveríamos dar a conhecer à sociedade o bem que fazemos e as benfeitorias que criamos. A sociedade de uma forma muito geral está enveredada numa procura muito emotiva e desenfreada de potenciais culpados pelas privações e carências a que está sujeita, e os Maçons estão na primeira linha dos principais acusados. Se temos obra e trabalho para contrapor esta percepção, porque deveremos ocultar a sua proveniência do conhecimento público? Muito pior seria caso não tivéssemos nada para demonstrar…

Resumindo em linhas gerais tudo o que foi exposto, a sociedade civil portuguesa contemporânea tem enraizada uma desconfiança face à Maçonaria que está a transformar-se rapidamente numa aversão, a qual não tardará a ser aproveitada para fins de capitalização política do descontentamento. Disso já tivemos vários ameaços. Face a esta realidade e às suas eminentes consequências, pergunto-me se não é (ainda) tempo para darmos a conhecer o impacto indiscutivelmente positivo que a Maçonaria tem na nação e nos seus cidadãos. O que agora seria visto como um franco esclarecimento mais tarde poderá, sob outras circunstâncias, ser interpretado como um pretexto oportunista.

Nas palavras iluminadas de um outro desconhecido (neste caso artista) de nome Luther Campbell,

Bondade e trabalho duro serão sempre recompensados com respeito“. Para recebermos o último há que revelar os primeiros.

Bruno S.

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