As marchas (ou passos) dos três primeiros graus do REAA – Quando surgiram e do que se originaram

esquadro e compasso

Numa volta ao passado, buscamos encontrar pelo menos um facto registrado na história da nossa Ordem, que nos pudesse indo dando esclarecimentos sobre a partir de quando as três marchas acima passaram a integrar os respectivos rituais do REAA e quais foram as fontes que inspiraram o(s) seu(s) criador(es), bem como, o que cada uma delas significa para os maçons.

Quando surgiram, encontramos algumas fontes. Com base em que surgiram, não encontramos absolutamente nada. Para que surgiram, nada pesquisamos a esse respeito, pois a sua finalidade está descrita nos rituais actuais.

Foram alvo das nossas pesquisas e análises com o objectivo de encontrarmos em que ano surgiram os primeiros indícios das marchas: manuscritos e documentos diversos constantes dos anais do Museu Histórico da Inglaterra, sobre as antigas Guildas, as Associações Corporativas, os Sindicatos de Obreiros da Construção Civil, e sobre os registros relativos à transformação da Maçonaria, no ano de 1717, em  Londres, o que se deu, como é sabido, por iniciativa de quatro lojas maçónicas que já existiam por lá, por conta do que, a nova instituição passou a ser de carácter especulativo e não mais voltada ao corporativismo como vinha sendo até então.

Vale aqui ressaltar que o surgimento das primeiras corporações de ofício, ou associações corporativas, data de tempos tão remotos, bem distantes dos nossos dias, o que ocasionou uma ruptura na sua história, comprometendo o caminho sequencial dos factos e impedindo o acesso ao que mais nos interessa que é, por exemplo, sabermos quando foi elaborado e onde surgiu o primeiro documento nesse sentido. Porém uma coisa é certa: as organizações sociais foram uma conquista humana que se vem arrastando pelos séculos de maneira lenta e gradual, mas que continua em prática, acompanhando a evolução do mundo e em franco processo de ampliação. Podemos citar aqui alguns exemplos de associações corporativas de profissionais autónomos e liberais como a Ordem dos Advogados, os Conselhos dos Médicos, dos Engenheiros etc., e de “sindicatos”, como o dos trabalhadores na construção civil, no comércio, na indústria dentre tantos outros.

Voltemos, então, ao passado, até o século XI, nos anais do Museu Histórico de França, em Paris. Lá se encontra arquivado o documento mais antigo (talvez não seja o primeiro) sobre corporações de ofício em que são mencionados os alfaiates e os sapateiros como as primeiras categorias a se agruparem em defesa dos seus interesses. Isto deu-se no ano de 1100, mais precisamente.

Outros documentos foram minuciosamente examinados na elaboração desta matéria, entre eles, o manuscrito de Halliwell (ou Poema Regius), de 1757; o manuscrito de Matthew Cooke, datado de 1482; o manuscrito de Dowland, datado de l550.

Naqueles idos tempos, os documentos escritos que estabelecessem direitos e obrigações entre duas ou mais partes tais como: contratos, estatutos sociais, acordos, convenções, tratados etc., para terem validade, segundo as regras vigentes, deveriam ser mantidos sob custódia da Igreja Católica e dos governantes.

O momento é oportuno para fazermos alusão também a um manuscrito de muita valia que surgiu na Itália, no ano de 1248, com o título de “Carta de Bolonha”, contendo 61 artigos. Este documento foi escrito em latim e está citado por Guilherme Cândido, na sua obra “OLD CHARGES – A CARTA DE BOLONHA”. Referida carta nada mais retractava além da regulamentação das profissões de pedreiro e carpinteiro naquela cidade. O seu contexto que mais representava um guia da profissão disciplinava que as reuniões da associação deveriam iniciar com breve introdução, uma oração, juramento, normas de conduta, punição por desobediência, requisitos para admissão, saída espontânea e expulsões; regras de relacionamento entre os filiados, prestação de contas, eleições etc.. Enfim, continha preceitos que deveriam ser seguidos, mas nem de longe aquele documento se assemelhava a qualquer tipo de ritual. Ainda no texto escrito também foram citadas as palavras “Mestre”, “Oficial” e “Polier”, sendo essa última, do vernáculo alemão que, em Português, significa “capataz”, “encarregado” e as reuniões da organização instituída, denominada de “sindicato”, deveriam ser registradas em acta.

Assim, estamos convictos de que, quando se tratando de Maçonaria, as Constituições, Regulamentos e Rituais, tiveram origem a partir do ano de 1.717 com o surgimento de uma nova Ordem Maçónica conforme já dissemos, com forma definida e aprimorada através dos Regulamentos Gerais, de 1.721, incluídos na CONSTITUIÇÃO DOS MAÇONS LIVRES, OU CONSTITUIÇÃO DE ANDERSON, de 1.723. Vale também lembrar os irmãos que nem todos os ritos possuem rituais impressos como é o caso do REAA.

No período anterior a 1715, nada encontramos sobre rituais maçónicos.

O RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO – Os primeiros indícios do surgimento desse rito datam do ano de 1733, isto é, depois da transformação da Maçonaria em especulativa, em cujos registros constam os graus de “Mestres Escoceses”. Referidos registros são encontrados nos arquivos das secretarias das Lojas de Londres que funcionaram no local denominado de “Temple Bar”, onde se realizaram também as primeiras reuniões do REAA. Talvez, naquela época, tivessem alguns poucos maçons participando de reuniões antes da oficialização do rito pelas formas de registros até então existentes, por cuja razão o ambiente citado é considerado o do seu nascimento. As provas, no entanto, são escassas, mas apontam que no limiar da sua existência tinha os graus 1 e 2 como simbólicos e o 3 como filosófico. No entanto, foi em França que este rito ascendeu tomando forma e definição, embora funcionando sob a designação de “Rito de Heredom” e em cuja Constituição constava possuir 25 graus.

Ao contrário do que muitos crêem, como se pode ver, este rito não surgiu na Escócia, e sim, podemos dizer que foi em França, mas a denominação de Rito Escocês Antigo e Aceito é obra dos maçons dos Estados Unidos.

AS MARCHAS DOS TRÊS PRIMEIROS GRAUS DO REAA – As marchas (ou Passos) são procedimentos através dos quais os maçons têm acesso ao interior do Templo Maçónico em situações definidas em Regulamento.  Textos antigos datados dos anos de 1724 a 1729, portanto, antes do REAA aparecer, relatam as marchas (ou passos), todavia, sem nenhuma descrição, mas indicando que se entrava em Loja com apenas três passos e assim, dando a entender que a regra era uma só para qualquer grau. Tempos depois, em 1745, os maçons de França e da Alemanha, movidos pela força da vaidade e sem justificarem a razão das suas atitudes, resolveram modificar a regra afirmando que, para realização das marchas (ou os passos), o Maçom deveria postar-se em pé, os pés com os calcanhares unidos e que cada passo teria que ser feito em esquadro.

Em 1748, nova mudança na forma de se realizar as Marchas ou Passos, desta vez, na França. O “L’Anti-Maçon” demonstra através de um diagrama como o acesso ao Templo deveria ser feito: três passos para cada uma das marchas, pés em esquadro, porém, claramente separados, numa linha recta para o aprendiz e em ziguezague para os outros dois graus. Outras alterações injustificadas se foram sucedendo, ora avançando, ora retrocedendo, até chegarmos aos dias actuais.

As explanações acima merecem algumas considerações da nossa parte, pelo menos, para que se possa entender a razão de mudanças sem justificativas convincentes, já que nos nossos rituais não há sequer um diminuto traço, um pontinho por menor que seja ali colocado, sem haver fundamento, seja este de origem bíblica, simbólica, moral ou baseado nas ciências, em lendas e alegorias.

Duas são as principais causas de tais alterações. A primeira delas é o “ANTAGONISMO” de duas correntes ideológicas que sempre existiram dentro da Ordem Maçónica desde l717.  Uma corrente é representada pelos “CONSERVADORES” que não são favoráveis à promoção de mudanças nos rituais. A outra, pelos “MODERNOS” que são a favor dessas mudanças, de acordo com as conveniências. E, por último, a segunda causa que é a “VAIDADE”, defeito que até mesmo muitos homens considerados de bons costumes, justos e perfeitos não se conseguem livrar dele. O vaidoso é sempre ambicioso, egoísta e não mede consequências para imortalizar o seu nome. Citemos Hitler como exemplo.

Em uma matéria que escrevemos sobre a vaidade, constatamos nas pesquisas realizadas que “Toda pessoa vaidosa quando age rumo às realizações o faz não só pelo desejo de se destacar realizando alguma coisa, mas, essencialmente para, afinal de contas, ufanar-se ante os elogios e por ver as atenções voltadas para si, pouco importando se o que fez teria que ser realmente feito, se havia necessidade ou não, daí se depreender que, o que leva o vaidoso a agir não é a acção imprescindível, a premência, mas a satisfação que lhe é cobrada pelo seu próprio ego.”

As mudanças não ocorrem por acaso, diz o ditado, mas na Maçonaria é diferente: as mudanças sempre ocorrem sem fundamentação, na maioria das vezes por mera vaidade, sem o devido respeito a quem tanto fez por merecê-lo, afectando a memória daqueles que já partiram para o Oriente Eterno e que, ao longo de séculos foram os responsáveis por tudo o que encontramos já construído correctamente, escrito e traçado em nome da nossa Sublime Ordem.

Finalmente, para fechar com brilho as nossas conclusões, houvemos por bem transcrever adiante um pequeno trecho do artigo intitulado “Significado da Marcha do Mestre no REAA, escrito pelo respeitável irmão Cleber Medeiros, da Loja Verdade e Justiça 16 (GLMPI), Oriente de Teresina-PI, em que ele diz o seguinte:

“Estudando sobre as Marchas de Aprendiz, Companheiro e Mestre, consegui os SIGNIFICADOS dos passos do Aprendiz que é: 1º LUTA, 2º PERSEVERANÇA, e o 3º, FRATERNIDADE. O de Companheiro: 1º IMAGINAÇÃO; 2º AFECTIVIDADE. Juntando o p. d. ao calc. esq. chegamos à RAZÃO. E o de Mestre, qual o significado? Ajude-nos!.”

Nós também não encontramos nada a esse respeito.

Anestor Porfírio da Silva – M:.I:. – ARLS Adelino Ferreira Machado – Hidrolândia-GO; Membro do Ilustre Conselho Estadual do GOB/GO

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One thought on “As marchas (ou passos) dos três primeiros graus do REAA – Quando surgiram e do que se originaram

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    Desde já agradecido e lisonjeado de poder ser mais um aprendiz neste verdadeiro berço de civilidade e evolução. Grato, Mikhail Freire Figueiredo.

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