Um cardeal que participou numa reunião “histórica” à porta fechada, na sexta-feira, entre os chefes das lojas maçónicas italianas e altos dirigentes da Igreja Católica, apelou à abertura de um diálogo “permanente” com a organização secreta, apesar de a Maçonaria ser há muito condenada pela Igreja.
Ao discursar no encontro de Milão sobre o tema A Igreja Católica e a Maçonaria, o Cardeal Francesco Coccopalmiero, 85 anos, terá dito que acreditava que tinha havido “uma evolução na compreensão mútua” entre a maçonaria e a Igreja nos últimos 50 anos.
Um documento de 1983 da Congregação para a Doutrina da Fé afirmava que os princípios maçónicos “sempre foram considerados irreconciliáveis com a doutrina da Igreja”. E, em Novembro último, o Dicastério para a Doutrina da Fé reafirmou essa posição, citando o documento de 1983, segundo o qual “a adesão activa à Maçonaria por parte de um fiel é proibida, devido à irreconciliabilidade entre a doutrina católica e a Maçonaria”.
“As coisas avançaram e espero que estas reuniões não fiquem por aqui”, disse o prelado italiano reformado, segundo o Il Messaggero, citando fontes presentes na reunião que foi fechada à imprensa.
O Cardeal Coccopalmiero, que serviu como bispo auxiliar em Milão sob o comando do Cardeal Carlo Maria Martini (1927-2012), disse que se perguntava “se não é possível pensar numa discussão permanente, mesmo a nível oficial, para que possamos lidar melhor uns com os outros”. O Cardeal Martini era conhecido por ser próximo dos maçons, que lhe prestaram uma calorosa homenagem como “homem de diálogo” aquando da sua morte.
Para além do Cardeal Coccopalmiero, a Igreja Católica esteve representada pelo Arcebispo de Milão, D. Mario Delpini, pelo teólogo franciscano, Pe. Zbigniew Suchecki, e por D. Antonio Staglianò, presidente da Academia Pontifícia de Teologia.
O Arcebispo Delpini, que chegou à reunião com 45 minutos de atraso, introduziu a conferência sublinhando que o diálogo com a sociedade secreta era importante porque “nem todos podem ter aprofundado o assunto sobre uma organização tão antiga e prestigiada, sempre rodeada por uma aura de mistério e suspeita”.
O bispo da maior diocese da Europa em termos de número de padres e leigos disse que os anfitriões da conferência, o Grupo de Pesquisa e Informação Sócio-Religiosa, uma associação privada aprovada pela Conferência Episcopal Italiana, tinha continuado “as conversas e o diálogo” com as lojas maçónicas, mas acrescentou que o objectivo não era a “absolvição”. Trata-se antes de “favorecer as conversas entre as pessoas para conhecer os pontos de vista de cada um, para registar as suas convergências ou distâncias”. Obviamente, acrescentou, “esta conferência não termina com nenhum documento final”.
Monsenhor Staglianò disse estar “interessado no acontecimento cristão, não na doutrina” e, repetindo os comentários que fez no mês passado no jornal da Conferência Episcopal Italiana, Avvenire, a propósito da declaração do Vaticano sobre as bênçãos para as pessoas em uniões irregulares, Fiducia Supplicans (Fé Suplicante), sublinhou que o Senhor “é amor, só e sempre amor”.
A sua misericórdia, disse, precede o pecado original e “chove sobre justos e injustos” – ou seja, sobre todos. “Quem sou eu para julgar que uma condição humana é tal que a chuva da misericórdia de Deus sobre os justos e os injustos nem sequer lhe toca com a sua humidade? Porque, por vezes, a humidade da água da misericórdia de Deus é suficiente para regenerar uma vida.”
Os três Grão-Mestres
Segundo fontes que falaram com La Nuova Bussola Quotidiana, os três grão-mestres das lojas italianas – Stefano Bisi, do Grande Oriente de Itália, Luciano Romoli, da Grande Loja de Itália, e Fabio Venzi, da Grande Loja Regular de Itália – discursaram na reunião. Dois deles tornaram públicos os seus discursos.
“Com diferentes matizes, todos defenderam a compatibilidade da Maçonaria com a fé católica”, relatou o chefe de redacção de La Nuova Bussola Quotidiana, Riccardo Cascioli, que falou com pessoas que participaram na reunião na Fundação Cultural Ambrosianeum.
Stefano Bisi, disse considerar o encontro “muito significativo”, atribuiu à Igreja o mérito da sua educação enquanto pessoa oriunda de um meio pobre, e explicou que a reconciliação entre a Maçonaria e a Igreja era um desejo antigo. Também fez questão de recordar com carinho o Cardeal Martini “que estava em casa aqui”.
Manifestou o seu apreço pela abertura do Cardeal Gianfranco Ravasi aos maçons feita numa carta aberta de 2016 intitulada “Caros Irmãos Maçons”, mas lamentou o ritmo do diálogo e da reconciliação e perguntou por que razão o Papa Francisco parece ter esquecido os maçons no seu abraço a todos. Criticou a recente recusa do Vaticano em conceder credenciais a um embaixador maçónico e destacou uma decisão do Vaticano de Novembro passado que reafirmava a proibição da Igreja de os católicos aderirem à Maçonaria.
O Papa, disse Bisi, “fez a famosa declaração ‘Quem sou eu para julgar?’ no início do seu pontificado, dirigida aos homossexuais” e depois “abriu as portas aos divorciados”, mas “esqueceu-se que, entre os maçons, há também muitos católicos que estão impedidos de receber a Comunhão”. Aos membros da Maçonaria sempre foi negada a Sagrada Comunhão e, até ao Código de Direito Canónico de 1983, estavam explícita e automaticamente excomungados.
“O céu estrelado é o mesmo para o budista, para o católico, para o valdense, para o muçulmano, para todos aqueles que acreditam num ser supremo“,
continuou, acrescentando:
“Deixamos os nossos irmãos livres para aderirem a qualquer religião e para a praticarem. As verdades absolutas e os muros da mente não nos pertencem e, para nós, devem ser derrubados“.
Bisi terminou com a esperança de que “um dia um papa e um grão-mestre possam encontrar-se e percorrer um pedaço do caminho juntos, à luz do sol”.
Fabio Venzi, da Grande Loja Regular de Itália, numa longa intervenção de 45 páginas, que pode ser lida AQUI, fez uma resenha das relações entre as duas instituições nas perspectivas históricas, doutrinárias e rituais. Terminou defendendo a especificidade do Rito de Emulação e dizendo que
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:“Em conclusão, deixando de lado a retórica, as recriminações por males sofridos, a vitimização e o sentimentalismo fácil, verifiquei, pela documentação que apresentei, que a questão é eminentemente doutrinária, e só poderá ser resolvida quando os responsáveis da Igreja Católica (a autoridade papal e a Congregação para a Doutrina da Fé) decidirem ter em conta a heterogeneidade do “fenómeno” maçónico e, consequentemente, dirigirem as condenações da Igreja Católica para os rituais…”
- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fontes

- Grande Oriente de Itália: palestra “A Maçonaria entre Ratzinger e Bergoglio”
- O cardeal Gianfranco Ravasi garante que a Igreja e a Maçonaria partilham valores em comum
- Tradução da carta escrita pelo Cardeal Gianfranco Ravasi sobre as relações entre a Igreja Católica e a Maçonaria
- Diálogo (I)
- Diálogo de dois Aprendizes à porta do templo fechado durante a pandemia de covid-19 em Julho de 6020


Ocorre que, as autoridades eclesiásticas católicas têm falado sobre convergência com a Maçonaria, mas não expressam nem um documento consistente nesse sentido. Sempre foram recebidas pelos Veneráveis Mestres, nas Lojas e pelos Grão-Mestres nas Confederações maçônicas, mas os Bispos, Arcebispos, Cardeais e o Papa nunca convidaram, formalmente, os dirigentes da instituição maçônica para um debate temático sobre suas divergências. Falta, no tratamento entre as duas instituições, o princípio da reciprocidade. Penso que “os apelos a um diálogo permanente” são retórica vazia, porquanto a Maçonaria não carece de “absolvição”, pois é uma organização laica, que promove o bem social, que procura tornar feliz a humanidade, não sendo passível de julgamento pela Igreja Católica, além do que os conceitos de dogma e razão (verdade absoluta), são diametralmente opostos.