II Guerra Mundial – a actuação do Brasil e da Maçonaria

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II Guerra Mundial

21 de Abril de 1945, 11 horas da manhã:

Berlim é uma cidade em ruínas, envolta em nuvens de fumaça, pó e um constante nevoeiro. Pelas ruas, milhares de fugitivos, aterrorizados e perplexos, correm sem rumo, para tentar fugir do caos provocado pela sanguinária ofensiva russa, que prosseguia em direcção ao oeste.

Numa sala semidestruída, destinada às projecções explicativas feitas pelo Ministro da Educação e Propaganda do III Reich, na Hermann-Goering Strasse (rua Hermann Goering), cerca de vinte homens estão reunidos, à luz de velas, pois já não havia corrente eléctrica. Neste ambiente de fim de mundo, o doutor Josef Goebbels promovia a última reunião com os seus colaboradores imediatos e acusava o povo alemão de traição e covardia, porque este fugia, ou recebia o inimigo com bandeiras brancas. Falou do fracasso da política nacional-socialista e praticamente decretou o salve-se quem puder.

30 de Abril de 1945:

Hans Fritzche, chefe do Departamento da Rádio, o qual estivera presente à reunião, está disposto a dissolver o Departamento. Andando entre os escombros de Berlim, procura alguém que o ponha a par da verdadeira situação. Resolve ir à residência do doutor Goebbels, mas lá só encontra alguns oficiais da SS, desnorteados, e é informado pelo chefe de gabinete de que Goebbels partira para o bunker do Führer, completando: “Tudo acabou. Os russos estão na Alexanderplatz. Fritzche, disposto a permanecer em Berlim, ao invés de fugir, como os outros próceres do governo, tira o seu BMW da garagem e vai para a Alexanderplatz, para verificar a veracidade da informação do auxiliar de Goebbels. Não consegue ali chegar, devido ao intenso fogo da artilharia. O núcleo central da cidade ainda resiste, mas Fritzche, junto com o Secretário de Estado Werner Naumann, decide ir à Chancelaria do Reich propor que Berlim se renda, sem perda de tempo.

Neste mesmo dia, às 18 horas e 35 minutos, o almirante Karl Doenitz recebia, em Plon, um telegrama surpreendente, expedido pela chancelaria do Reich, em Berlim, comunicando que Hitler o tinha nomeado seu sucessor, em substituição ao até então Marechal do Reich Hermann Goering, que caíra em desgraça perante o Führer. Era o testamento político de Hitler, de 29 de Abril. Mas Doenitz, evidentemente, não alimentava nenhuma esperança sobre a situação, a não ser negociar a paz.

1 de Maio de 1945:

Às 22 horas, a Emissora Nacional de Hamburgo surpreendia a Alemanha e o mundo inteiro, ao divulgar o seguinte comunicado:

“Do Quartel-General do Führer, comunicam-nos que o nosso Führer, Adolf Hitler, morreu esta tarde no seu posto de comando, na Chancelaria do Reich, lutando até o último momento pela Alemanha e contra o bolchevismo. A 30 de Abril, o Führer nomeou seu sucessor o grande Almirante Doenitz.”

O comunicado procurava dar uma aura de heroísmo ao último acto de Hitler, com a capa do destemor na luta contra o inimigo. Na realidade, ele suicidou-se, no seu “bunker”, quando viu tudo perdido.

No jardim do “bunker”, entre muros enegrecidos, bujões de gasolina e documentos secretos queimados, o lugar-tenente de Hitler, Martim Bormann, reúne oficiais da SS e, na presença de Fritzche, que lhe fora propor que, ao menos, cessassem as represálias, anunciou a dissolução do “Werwolf” – o órgão repressor – ordenando a suspensão de todas as suas acções, bem como de todas as execuções.

Coube, então, a Fritzche – que depois seria absolvido pelo Tribunal de Guerra de Nuremberga – na sua qualidade de director ministerial e funcionário mais categorizado do Reich na capital alemã, enviar carta ao marechal Georgi Schukow, oferecendo a rendição de Berlim, já que, embora a ofensiva principal, do lado aliado, sempre tenha sido dos Estados Unidos e da Inglaterra, os russos, participando da arrancada final, foram os primeiros a chegar a Berlim.

2 de Maio de 1945:

Através das linhas de combate, a carta chegara ao Alto Comando russo e, nesse dia, aparecem os seus emissários, com a missão de conduzir Fritzche ao Marechal Schukow. No caminho, Fritzche, que já condenara muitas vezes as acções sanguinárias dos nazistas, espantava-se com os sanguinários russos, que pilhavam, matavam e estupravam, fazendo com que mães desesperadas se atirassem, com os seus filhos, pelas janelas para fugir a eles.

Conduzido ao edifício onde se instalara o comando russo, junto ao aeroporto de Tempelhof, Fritzche ficou sabendo que outro dos últimos comandantes de Berlim, o general Helmuth Weidling, tinha chegado e, pelo rádio, convidada os berlinenses a se renderem. A missão de Fritzche ficou superada por esta iniciativa, mas os russos queriam que ele fizesse um reconhecimento importante.

4 de Maio de 1945:

Os russos convidam Fritzche a acompanhá-los, num carro, a uma pequena povoação localizada entre Berlim e Bernau. Ali desceram até porões húmidos, onde Fritzche presenciou um espectáculo horroroso: um corpo de homem, quase nu, com o crânio queimado, mas o corpo conservado, só com a gola de uma farda, onde brilhava o emblema de ouro do partido nazista; ao seu lado, os cadáveres de cinco crianças, nas suas roupas de dormir; e, ainda, o cadáver de uma mulher. Emocionado, Fritzche, atendendo aos oficiais russos, fez a identificação: tratava-se do doutor Goebbels, dos seus cinco filhos e de Magda Goebbels, sua mulher. E mostrava-se aterrado diante da decisão do seu antigo chefe, que tão covardemente fugira às suas responsabilidades.

Depois disso, Fritzche recebia voz de prisão. Seria conduzido a Moscou, à prisão de Lubjanka, e dali para o banco dos réus, em Nuremberga. Começava a grande caçada humana aos principais líderes nazistas, como Goering, Himmler, Doenitz, Ribbentrop, Bormann, Rosenberg e outros.

5 de Maio de 1945:

Doenitz já começara a pensar na capitulação e pretendia encaminhar as negociações, com base num documento secreto que ele tinha em seu poder: a fotocópia de um mapa da Alemanha, que fora fotografado pelo Serviço de Informação e que apontava claramente a linha demarcatória entre o Leste e o Oeste, segundo o acordo feito na Conferência de Yalta, entre Roosevelt, Churchill e Stalin. Este mapa era a base da futura partilha da Alemanha e informava sobre quais as regiões que seriam definitivamente ocupadas pelas tropas soviéticas e quais pelas americanas, francesas e inglesas.

Doenitz, então, enviou o General Friedburg, o General Kinzel e o Contra-Almirante Wagner ao quartel-general do marechal-de-campo inglês Montgomery. Este aceitou a oferta de capitulação; e o acordo que von Friedburg assinou, ordenava o cessar fogo a partir das 8 horas do dia 5 de Maio de 1945.

7 e 8 de Maio de 1945:

Friedburg seguiu para a França e, em Reims, iniciou os entendimentos com o Estado-Maior do General Eisenhower, comandante-chefe das forças aliadas, pouco depois, chegava ao local o capitão-general Alfred Jodl, representando Doenitz.

E, na fria tarde de 7 de Maio de 1945, numa sala de aulas de um colégio de Reims, reuniam-se os representantes das partes em litígio, para colocar um ponto final naquela terrível conflagração, que já durava quase seis anos. Ao final dos entendimentos, então, era assinada a rendição incondicional da Alemanha, por Jodl e pelo tenente-general Walter Bedell Smith, representante de Eisenhower. Eram 2 horas e 41 minutos da madrugada do dia 8 de Maio. Acabara a guerra na Europa!

No Pacífico, todavia, prosseguia a luta contra o terceiro país do Eixo, ainda em guerra, o Japão, com as forças aliadas sob a chefia do General Douglas MacArthur.

14 de Maio de 1945:

Considerada como peça fundamental para o desfecho da guerra no front asiático, a ilha de Iwo Jima sofria, em Fevereiro, uma violenta ofensiva, comandada pelo almirante Nimitz, através de longo e sustentado bombardeio aéreo, para que a infantaria da Marinha desembarcasse na ilha. Com isso, a 14 de Março, os fuzileiros navais norte-americanos a ocuparam completamente, enquanto toda a guarnição japonesa era aniquilada.

21 de Junho de 1945:

Vencida a resistência em Iwo Jima, cumpria desfechar um ataque contra Okinawa, para que os aliados ficassem em condições de atacar o Japão. Assim, uma grande frota aliada ali desembarcara, com cerca de 1.400 embarcações, enfrentando recursos desesperados dos japoneses, como o dos “kamikases”, ou seja, aviões carregados de explosivos e manobrados por pilotos suicidas. Apesar de toda a resistência, a infantaria norte-americana, a 21 de Junho, rompia as linhas japonesas e tomava Okinawa.

Com a tomada de Iwo Jima e de Okinawa, os aliados estavam em condições de atacar directamente o território japonês. O Alto Comando aliado, todavia, sabia que este ataque final iria custar muito tempo e muito dinheiro, além de vidas humanas, pois, com a invasão marcada para dia 1o de Novembro, previa-se a morte de 25.000 dos 767.000 soldados que participariam da campanha; e, na segunda etapa, com o assalto à planície de Tóquio, previa-se a morte de 15.000 a 20.000 soldados americanos. Por isso, para não retardar o desfecho da guerra, tendo em vista a expansão soviética pela Coreia, decidiu-se utilizar urna nova e terrível arma, conseguida numa corrida contra a Alemanha – que também caminhava para a sua criação – e que fora testada em 16/07/1945, no campo de experiencias da Base Aérea de Alamogordo, num deserto do Estado de Novo México, nos Estados Unidos.

25 de Julho de 1945:

O presidente dos Estados Unidos é Harry Truman, que eleito vice-presidente na chapa de Roosevelt, quando este começava um terceiro mandato, em 1944, assumira a presidência, após a morte de Roosevelt, em Abril de 1945. E, nesse dia, Truman recebia, em Potsdam, um relatório do teste de Alamogordo e anotava no seu diário: uma cratera de 360 metros de diâmetro, urna torre destruída a 800 metros de distância, homens derrabados a 9,5 quilómetros de distância. E escrevia então: “Descobrimos a mais terrível bomba da história do planeta

Mas mesmo assim não se hesitou em despejar esta arma contra o Japão, para atingir cidades que não eram alvos militares, contra a vontade do general George Marshall, que receava “a ignomínia que resultaria do emprego desavisado de tal força”.

Os alvos inicialmente listados foram: a baía de Tóquio, Yokohama, Nagoya, Kawasaki, Osaka, Kobe, Kioto, Hiroshima, Kure, Yawata, Kokura, Shimonoseki, Fukuoka, Yamaguchi, Kumamoto, Nagasaki e Sasebo. Mas a comissão de alvos reduziria todos a apenas quatro: Kioto – a antiga capital imperial, com um milhão de habitantes, Hiroshima, Yokohama e Arsenal Kokura, ficando Niigata reservada como possível quinto objectivo. Na terceira reunião da comissão, a 28 de Maio, os objectivos já haviam sido depurados, reduzindo-se a três: Kioto, Hiroshima e Niigata. Aguardava-se, apenas, o teste e o momento apropriado. E os objectivos seriam mudados na última hora.

6 de Agosto de 1945, 8 horas da manhã:

Um bombardeiro norte-americano sobrevoa, à grande altura, a cidade japonesa de Hiroshima. O seu piloto sabe que transporta uma nova arma, que deverá explodir acima do solo, no ar. Mas ignora o poder desta arma.

Às 8 horas e 15 minutos, acciona o dispositivo que libera a bomba. E tudo lá em baixo transforma-se num inferno: uma bola de fogo, um estrondo medonho, um cogumelo de fumaça subindo para o céu; e, em consequência: uma cidade inteira arrasada, 78.000 civis mortos e 90.000 feridos! Fora lançada, pela primeira vez na História, uma bomba atómica contra seres humanos.

9 de Agosto de 1945:

Nagasaki torna-se a segunda cidade japonesa a ser atingida por uma bomba atómica. No entendimento de muitos “experts” sobre este período histórico e sobre a confusa política da época, este ataque foi totalmente desnecessário e só se consumou porque a ordem inicial era para que a Força Aérea lançasse as bombas já preparadas.

10 de Agosto de 1945:

Quando o presidente Truman aquilatou a extensão do morticínio, declarou, ao seu grupo de ministros, que não queria continuar essa matança; e rejeitou todos os pedidos para que mais bombas atómicas fossem lançadas sobre o Japão. Mas aprovou os intensos bombardeiros convencionais, com napalm e bombas incendiárias, contra cidades japonesas, o que faz crer que, entre 10 e 14 de Agosto – último dia da guerra – tenha havido cerca de 20.000 japoneses mortos.

14 de Agosto e 2 de Setembro de 1945:

Diante da devastação do seu território, por duas bombas atómicas e por intenso bombardeio, e sob a perspectiva de ter o país riscado do mapa, o Japão anunciava, no dia 14 de Agosto, a sua rendição. E, a 2 de Setembro, a bordo do couraçado norte-americano Missouri, ancorado na baía de Tóquio, o general Yoslújiro Umezu, representando o governo japonês, assinava, na presença do general MacArthur, a rendição do seu país. Estava definitivamente encerrada a Segunda Guerra Mundial.

Ela deixou, todavia, marcas profundas na Humanidade. Iniciada em 1º de Setembro de 1939, quando as tropas nazistas invadiram a Polónia, ela se deveu ao expansionismo da Alemanha e, também, do Japão, ambos auxiliados pela Itália, que com os dois havia acertado, em 1936, um pacto anti-comunista, do qual resultou o Eixo Alemanha-Itália-Japão, estimulado pela Guerra Civil Espanhola, que animou os movimentos fascistas. Durante dois anos, os Estados Unidos permaneceram alheios ao conflito, que envolvia praticamente toda a Europa. Todavia, a 7 de Dezembro de 1941, as forças japonesas bombardearam a base naval de Pearl Harbor, destruindo vinte vasos de guerra e 250 aviões; e, poucas horas depois, o governo japonês enviava uma declaração de guerra a Washington. A 4 de Dezembro, o Congresso norte-americano reconhecia o estado de guerra com o Japão; e, no dia 11, apresentava as declarações de guerra para a Alemanha e a Itália. Com isto, o conflito tornava-se mundial, já que os países latino-americanos, na sua maioria, cerravam fileiras ao lado dos Estados Unidos.

E nele, a barbárie e as atrocidades campearam em todos os lados. Não se pode negar que os maiores crimes contra a humanidade foram praticados pelo Eixo, bastando lembrar, apenas, o extermínio de seis milhões de judeus, pelos nazistas, e a chacina perpetrada pelos japoneses em Nanquim, no território da China. Mas, numa guerra, todos têm o seu quinhão de crueldade, que, no caso das bombas atómicas, não foi dos menores. A bem da verdade, todavia, é preciso que se reconheça que qualquer dos países beligerantes que tivesse a bomba a teria usado, já que Inglaterra, França e União Soviética aprovaram o seu uso. A diferença é que os Estados Unidos a tinha.

No conflito, o Brasil foi envolvido, embora tardiamente, já que o ditador Getúlio Vargas, notoriamente, nutria simpatias pelo regime fascista, como já demonstrara, em 1935, usando, para combater o extremismo comunista, um extremismo de direita, com base nas classes conservadoras e chamado de “movimento integralista” – de “Estado Integral”, que era a sua grande meta – lançado e liderado pelo escritor Plínio Salgado.

O integralismo teria, durante certo tempo, as simpatias do governo de Vargas e de alguns círculos militares, dispostos a adoptar alguns pontos do seu programa, sem todavia dar participação no governo aos integralistas. A 10 de Novembro de 1937, com base num suposto plano de terrorismo comunista – o “Plano Cohen” – que, como se comprovou, não passava de um documento forjado por um oficial integralista do Estado Maior, era implantada a ditadura do chamado “Estado Novo”, com a dissolução do Congresso e dos partidos.

Este estado político interno acabou afectando a Maçonaria brasileira, cujas Lojas foram fechadas, com excepção das do Grande Oriente do Brasil no então Distrito Federal, onde o capachismo do Grão-Mestrado perante a ditadura, evitou a medida que atingiu Lojas de todo o país. Em 1941, as Lojas que haviam permanecido fechadas, procuravam voltar à normalidade, embora sob a mira dos beleguins da ditadura, infiltrados na Ordem e sob o peso de decretos maçónicos castradores da liberdade de manifestação do pensamento, como o 1179, de 2 de Junho de 1938, que previa eliminação dos Obreiros que professassem ideologia contrária ao regime político estabelecido com o golpe de 1937.

A situação de restrição total às liberdades democráticas já se manifestara na férrea censura à imprensa, a qual foi a mais implacável e mais dura de toda a história da imprensa no Brasil.

A par disso, o estado de guerra, que envolvia grande parte do mundo, preocupava a população e suscitava pronunciamento da sociedade e das Lojas, favoráveis à integração do Brasil às forças bélicas aliadas que combatiam o Eixo. O governo do Estado Novo brasileiro, todavia, demorou a tomar essa atitude, mesmo após os demais países da América entrarem na guerra, por força do que fora aprovado na Conferência de Havana, de 1940; nesta, foi acertado um dispositivo de segurança continental colectiva, de acordo com o qual o país americano que fosse agredido contaria, incondicionalmente, com o apoio de todos os demais do continente.

O ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, em Dezembro de 1941, foi uma evidente violação dos princípios aprovados em Havana, o que provocou a imediata reacção das demais nações americanas: Cuba, Panamá, República Dominicana, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras e Nicarágua declaravam guerra aos países do Eixo, enquanto que o México, a Venezuela, a Colômbia e o Equador rompiam relações diplomáticas com eles. O Chile, então, sugeriu que se organizasse uma conferência de chanceleres no Rio de Janeiro, em 1942; nesta, ficou acertada a ruptura de relações diplomáticas das nações americanas com o Eixo. Nesta ocasião é que o Brasil suspendeu as suas relações diplomáticas com os governos totalitários da Alemanha, da Itália e do Japão. Mas para que o governo ditatorial chegasse a isso, fora necessário a pressão popular e a grande influência do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, Maçom iniciado a 10 de Outubro de 1911, na Loja “Holland” n° 8, de Manhattan, e que sempre foi membro proeminente da Grande Loja de Nova York.

Com referência a esta Conferência de Chanceleres, o Grande Oriente do Brasil – então dirigido por Joaquim Rodrigues Neves, Grão-Mestre em exercício, desde 14 de Outubro de 1940, pelo Decreto n° 1242 – emitia dois decretos: o n° 1277, de 14 de Janeiro e o n° 1278, de 28 do mesmo mês.

O texto do Decreto n° 1277 é o seguinte:

“Considerando que em 15 do corrente mês se instalará, nesta Capital, a Conferência Interamericana de Chanceleres; considerando que este fato histórico na vida do Brasil é recebido pelos maçons como uma glória para a nossa pátria; considerando que o Grande Oriente, como instituição patriótica que é, trabalhará, sem cessar, pelos interesses do Brasil, estando sempre os seus componentes ao seu serviço nas horas de tristeza, como de alegria; considerando que a Conferência a se instalar, uma das mais notáveis do mundo, é motivo de justo orgulho para os maçons do brasil; considerando que a Assembleia Geral já aplaudiu, entusiasticamente o acto de S. Ex. o senhor Presidente da República, pela solidariedade com os Estados Unidos da América do Norte;
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Decreta: São considerados feriados maçónicos os dias 15, 16 e 17 do mês corrente, bem como o dia em que for encerrada a Conferência.”

O do Decreto n° 1278 é mais encomiástico:

“Atendendo a que, na Conferência dos Chanceleres, que hoje se realiza, ficou firmada a união de todos os países americanos na defesa do hemisfério; atendendo a que esta resolução histórica, ímpar na vida dos povos, colocou o Brasil em posição de grande destaque; atendendo a que os Chanceleres ora reunidos nesta Capital acabam de prestar as maiores homenagens à nossa Pátria; atendendo a que foi concedido, ao Exmo. senhor Presidente da República, o título de Cidadão da América; atendendo a que devem ser homenageados os que contribuíram para esse resultado; atendendo a que a Maçonaria brasileira está ligada aos destinos do Brasil, tudo fazendo para o seu prestígio e destaque, pelo que é grato aos maçons o feliz êxito da Conferência;
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Decreta:
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Art. 1º – Além do feriado maçónico decretado em 14 do corrente (Decreto n° 1.277), são, também, declarados feriados maçónicos os dias 29, 30 e 31 deste mês.
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Art. 2o – Como consideração especial, é permitido à Gr:. Ben:. Loj:. Cap:. União e Tranquilidade, ao Oriente do Pod:. Centr:., realizar a sua reunião marcada para 29 do corrente, com a finalidade, por ela alegada, de prestar, com outras Oficinas, uma homenagem ao Respeitável Irmão Coronel Dr. Dilermando de Assis.
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Art. 3 o – Revogam-se as disposições em contrário.”

Pouco tempo depois, considerando que existia contra os maçons originários dos países do Eixo o mesmo tipo de animosidade já verificado por ocasião da Primeira Guerra Mundial, e considerando as medidas restritivas do governo brasileiro, contra os cidadãos e empresas originárias desses países – com empresas e clubes tendo até que mudar de nome – o Grande Oriente do Brasil, a 14 de Março de 1942, publicava o Decreto n° 1279, através do qual reeditava as medidas tomadas pelo Grão Mestre Nilo Peçanha, em 1717, através do Decreto n° 579:

“Atendendo aos recentes decretos-leis do Governo da República, relativamente aos súbditos dos países do Eixo, ora de relações cortadas com o Brasil; atendendo a que, embora os componentes da Maçonaria sejam contrários aos princípios abraçados pelos países que fazem parte do Eixo (Alemanha, Itália, Japão e Roménia), até este momento não houve qualquer providência legal estabelecendo excepções, nem acto de reconhecimento de alemães, italianos e japoneses – “livres “; atendendo a que o Grão-Mestrado da Ordem tem sido solicitado por maçons daquelas nacionalidades a dar-lhes a orientação a seguir no momento actual; atendendo a que as leis do país devem ser imediatamente cumpridas pelo Grande Oriente, tanto mais quando se trata da defesa da nossa Pátria; atendendo a que todos os maçons, sem distinção, estão ao lado do Brasil neste momento histórico de defesa da liberdade e do continente americano; atendendo a que, em 1917, por ocasião da Grande Guerra, o então Grão-Mestre, o grande brasileiro Dr. Nilo Peçanha, por Decreto n° 579, de 30 de Novembro daquele ano, achou inconveniente o comparecimento às sessões dos irmãos súbditos dos países em guerra; atendendo a que, embora não estando o Brasil em guerra, mas apenas de relações cortadas com os países do Eixo, foi por um deles praticado acto atentatório da soberania da nossa Pátria;

Resolve decretar, ‘ad referendum do Conselho Geral da Ordem:

Art. 1º – Fica revigorado e em plena execução o Decreto n° 579, de 30/11/1917, que determina:
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“A fim de se manterem os laços da fraternidade que unem os maçons, sem distinção de raças ou nacionalidades, de crenças políticas ou religiosas, e assegurar a concórdia dentro da Ordem – enquanto durar o estado de guerra em que se encontra o Brasil – é inconveniente que compareçam a quaisquer reuniões maçónicas, de qualquer Corpo da Federação, os Irmãos nascidos no império da Alemanha ou nos países seus aliados, pelo que os presidentes de Lojas e Corpos Maçónicos devem advertir nesse sentido os Irmãos visados nesta resolução, aconselhando-os a se absterem de comparecer a quaisquer reuniões maçónicas, enquanto o Brasil se conservar em estado de guerra”.
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Art. 2o – Durante este período, as Lojas da Federação não processarão os pedidos de Iniciação dos profanos súbditos do Eixo ou dos seus aliados, ficando sustados os que já se encontram em andamento, bem como as iniciações já deferidas.
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Art. 3o – Revogam-se as disposições em contrário.”

A 22 de Agosto de 1942, em vista da série de torpedeamentos dos navios mercantes brasileiros, por submarinos alemães, o Brasil, através de nota ministerial, reconheceu o estado de guerra com os países do Eixo, pensando-se, então, no envio à Europa de uma Força Expedicionária, como contribuição à causa dos aliados; a organização da Força, porém, só se daria a 9 de Agosto de 1943, quando, pela Portaria Ministerial n° 47-44, foi criada a Ia Divisão de Infantaria Expedicionária, que junto com o 1° Grupo de caça da Força Aérea Brasileira, combateu na Itália, em 1944/45, sob o comando do general Mascarenhas de Morais. E o soldado brasileiro deixou indeléveis traços da sua passagem pelo teatro de operações da Itália, em Camiore, Monte Prano, Monte Valimona, Barga, Galicano, S. Quirino, na primeira fase das operações; na tenaz defensiva de Inverno do Monte Belvedero, Monte Castelo, Vale de Maraño, Torre de Nerone, Soprasasso e Riola, na segunda fase; na conquista de Monte Castelo, La Serra, Marano, Soprasasso e Castelnuovo de Vegato, na terceira fase; e, por fim, nas jornadas de Montese, Zocca, Colecchio Fornovo de Taro, com a rendição da 148 a Divisão Alemã.

Agregados ao V Exército Americano, os soldados brasileiros tinham fartura de comida e de material. Mas, após a guerra, como bem acentuou o tenente Góis de Andrade, “muitos e muitos teriam de voltar às favelas, aos mocambos, às taperas de taipa, de sopapo, às casas de sapé por estas terras a fora, sem água, sem saneamento, sem luz eléctrica, sem estradas, sem transportes, no domínio das moscas e dos mosquitos, depois daquela abundância de tudo e até dos banhos quentes e frios dos acampamentos americanos…”. (1º Tenente da Reserva de Infantaria José X. de Góis Andrade, voluntário da FEB, in “Depoimento de Oficiais da Reserva sobre a FEB” – São Paulo, 1950).

Em todo o desenrolar da guerra, como havia acontecido durante o primeiro conflito mundial, havia intensa movimentação e comunicação maçónicas entre Obediências, levando-se em consideração principalmente que, além do presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, também era Maçom o primeiro-ministro inglês Winston Churchill, iniciado na Loja “United Studholme” N° 4591, a 24 de Maio de 1901. E estes agiam, inclusive, com o apoio da Maçonaria: o Chefe de Segurança da França ocupada apresentava, em 1941, um relatório onde apontava que a ida de um enviado especial do presidente Roosevelt ao papa tinha como objectivo um acordo secreto para a formação de uma frente democrático-católico-maçónica contra o nazismo. E Harry Truman também foi Maçom da Grande Loja do Missouri.

Na própria França ocupada, a Resistência contava com o apoio maçónico, recebendo auxílio financeiro de muitas Obediências, inclusive do Grande Oriente do Brasil, como ocorrera de 1914 a 1918, já que a Maçonaria francesa havia sido brutalmente estancada pelo governo nazista de ocupação. Uma Lei de 13 de Agosto de 1940, assinada pelo títere dos nazistas, marechal Pétain, proibia as associações secretas e determinava o sequestro dos seus bens; embora as Obediências Maçónicas francesas não fossem juridicamente sociedades secretas, sendo sujeitas, como outras associações, aos dispositivos de uma lei de 1901, elas também sofreram as consequências desse acto. Um decreto de 19 de Agosto de 1940, dissolvia o Grande Oriente e a Grande Loja da França, enquanto que a Grande Loja Nacional Francesa era dissolvida a 27 de Fevereiro de 1941. Uma lei de 11 de Agosto de 1941 ordenava a publicação no Jornal Oficial dos nomes dos dignitários maçónicos, ao mesmo tempo em que aplicava a eles o estatuto dos judeus, vedando-lhes o exercício de função pública. A dissolução das Obediências era apenas a ratificação do efectivo fechamento das Lojas, pelas tropas nazistas de ocupação. Estes factos levariam à criação do Serviço das Sociedades Secretas, dirigido por Bernard Fay, iniciando a acção da Resistência no território francês, seguida de repressões, torturas, deportações e execuções dos patriotas franceses. Os maçons faziam reuniões clandestinas em Paris, nas demais grandes cidades e mesmo em Vichy, sede do governo títere de Pétain, chegando até a criar uma Loja em território alemão, através dos maçons prisioneiros. Um dos primeiros maçons prisioneiros a ser executado como refém pelos alemães, em 01/08/1941, foi José Rouig.

Em Abril de 1943, atendendo à solicitação do governo, o Grande Oriente recomendava às Lojas que adquirissem bónus de guerra, para auxiliar o esforço bélico dos países aliados. O mesmo fizeram as poucas Grandes Lojas Brasileiras existentes na época, embora em menor escala, já que elas ainda eram relativamente recentes, tendo sido criadas a partir de 1927, em decorrência de uma cisão no Grande Oriente do Brasil.

Devido ao conflito bélico, muitas Lojas já haviam sido afectadas, a partir de 1940, quando de uma decisão do Ministério da Justiça do Estado Novo, que desaconselhava a manutenção dos nomes originais de sociedades estrangeiras, principalmente alemãs e italianas, em função da guerra contra o Eixo. Uma das Oficinas afectadas, por exemplo, foi a “Roma II”, de Belo Horizonte, fundada em 1897, a qual adoptava, a 15 de Fevereiro de 1940, o título de “General Moreira Guimarães 1ª”.

Com o fim da guerra, em 1945 é que foi possível aquilatar o importante papel do Brasil no conflito, com perdas humanas e materiais significantes: 1.899 mortos e perda de 22 aviões, 31 navios da Marinha Mercante, 3 navios de guerra e equipamentos do Exército, perfazendo gastos de 21 bilhões de cruzeiros. A actuação brasileira foi importante para a vitória dos aliados, não só pela contribuição militar, como também pela cooperação económica. Graham Stuart, em “Latin America and the USA”, diz que o United States War Production Board, reconheceu que “sem a produção brasileira de materiais estratégicos e a ponte aérea, os Estados Unidos não teriam cumprido as suas metas “. Apesar das grandes perdas materiais, o Brasil não foi convidado a participar da Conferência que faria, em Paris, o rateio das quotas de reparações, enquanto que países com menos gastos de guerra eram premiados. A despeito da efectiva participação brasileira, o critério foi o de equiparar o Brasil aos demais países latino-americanos, que foram meros expectadores do conflito e que deveriam ser ressarcidos mediante incorporação dos bens alemães já penhorados para esse fim. Esta reparação, porém, foi ínfima, pois além das despesas, o Brasil teve danos consideráveis na sua economia, que foi desagregada.

Como corolário da terrível luta fratricida e da participação da Maçonaria na busca de uma convivência fraternal de todos os homens, o Grande Oriente do Brasil, em 1948, tomava parte na reunião das Jornadas de Amizade Maçónica de Paris, cujo objectivo era criar o organismo permanente de paz universal, no sentido de que a ameaça de outra guerra, com as proporções catastróficas da recém terminada, jamais voltasse a pairar sobre a Humanidade.

José Castellani

Referências primárias

  • Boletins do Grande Oriente do Brasil, de 1917, 1942 e 1944.
  • Noticiário dos correspondentes de guerra e das agências de informações, nos jornais “A Gazeta”, “A Folha da Manhã” e “O Estado de São Paulo”, de Maio a Setembro de 1944 e de Abril a Setembro de 1945.

Referências secundárias

  • ANDRADE MELO, Newton Tte. Cel. – Causas e consequências da participação do Brasil na II Grande Guerra. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1958.
  • CHURCHILL, Winston. História da II Guerra Mundial, edição nacional em 6 volumes. 1948 a 1953.
  • HEYDECKER, Joe I, e LEEB, O processo de Nuremberga, versão portuguesa de Jaime Mas e Leite de Melo, do original alemão “Der Nurenberger Prozess”, de 1958, e adaptação para a grafia brasileira para Editorial íbis, Rio de Janeiro, 1968.
  • MASCARENHAS DE MORAES, Marechal. Memórias. Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 1969.
  • DIVERSOS AUTORES. Depoimento de Oficiais da Reserva sobre a FEB. 2 a edição. São Paulo. 1950.

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