Medo à Parte… uma perspectiva Maçónica

panico medo fobia

MM∴ QQ∴ II∴

Vivemos tempos estranhos!

Este jargão, sobejamente usado nos últimos tempos, nem sempre para justificar a realidade dos nossos dias, mas antes para justificar acções ou a falta delas, que em “outros tempos”, “tempos diferentes”, teriam, infelizmente, de qualquer forma, outra qualquer justificação, não deixa de ter um fundo de verdade.

O advento da pandemia global que vivemos deixou a porta escancarada para abusos e outros usos menos próprios da humanidade e dos princípios humanistas.

Nunca deixando de ter presente o que fui lendo sobre este tema, e concordando quando é dito que “O medo, é […] o maior e mais difundido veneno, a antítese do nosso processo intrínseco de evolução, que se encontra institucionalmente liberalizado e disseminado pela grande maioria da população mundial[1], e com as conclusões sobre a necessidade de não deixar que o medo nos tolha a acção, estamos hoje com desafios diferentes.

Se, por um lado, a situação pandémica nos revelou novos medos, também nos apresenta novos desafios e deveres acrescidos. Já cá voltamos.

A palavra medo é etimologicamente originária do Latim “metus”, que era usada à época para indicar temor, inquietação, ansiedade, e os Romanos divinizaram-no em Pallor e Pavor [2], e já os Gregos o tinham feito com Deimos e Phobos [3].

Há diferentes tipos de medos e com variados graus de intensidade.

A título de exemplo podemos vivenciar medos reais e medos irreais, e estes podem ir desde uma simples ansiedade temporária, um desconforto, até a um pavor total.

O medo pode alcançar níveis de tal forma elevados que origina patologias graves, podendo afectar desde aspectos físicos até aspectos sociais e psicológicos, ou todos eles.

Medo pode ter, entre outros, que poderão, fora deste âmbito, ser explorados, os seguintes significados:

“[…]

  1. Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários. = FOBIA, PAVOR, TERROR
  2. Ausência de coragem (ex.: medo de atravessar a ponte). = RECEIO, TEMOR ≠ DESTEMOR, INTREPIDEZ […]” [4]

Estes dois significados, que não se excluem mutuamente, antes pelo contrário, são os que orbitam a nossa vida nos tempos que correm.

A emoção “medo” é um instinto primitivo, vivenciado quer por seres humanos quer por animais, sendo um mecanismo de defesa natural e, há quem defenda até que, é mesmo um dos mecanismos fundamentais para a evolução, que nos permite enfrentar situações de risco ou perigo. Desta forma, se o nosso cérebro não identificasse o perigo estaríamos em uma situação de risco e a nossa sobrevivência em causa.

A emoção medo acompanha-nos desde o primeiro dia, e podemos entender essa ideia tal como Hobbes entendia quando nos deixa a frase: “No dia em que eu nasci, a minha mãe pariu dois gémeos: eu e o meu medo”.

Quando estamos com medo, invariavelmente estamos mais alerta ao que acontece à nossa volta e nesse estado de alerta, são activadas respostas fisiológicas que nos preparam para enfrentar um determinado perigo.

A adrenalina, a serotonina e o cortisol são os neurotransmissores que acompanham a sensação de medo. O corpo reage com um aumento da frequência cardíaca, assim como da frequência respiratória para fornecer mais oxigénio e com a dilatação das pupilas para facilitar a visão. Estes mecanismos corporais são extremamente úteis, pois servem para nos preparar para situações ameaçadoras.

Os graves problemas, nomeadamente a nível psicológico, mas não só, surgem quando o estado dito de alerta insiste em não dar tréguas e o nosso organismo não consegue equilibrar os períodos de alerta com períodos de repouso ou de relaxamento.

Voltando ao que ficou pendente, a situação pandémica revelou-nos novos medos que até há pouco não tínhamos ou sequer desconhecíamos.

Para a maioria da humanidade apareceu o medo do contacto, directamente derivado do medo do contágio invisível.

Até há muito pouco tempo tínhamos prazer em tocar, abraçar, beijar, pegar, segurar…

Desenvolveram-se medos antigos com pouca expressão, que ganharam agora destaque científico e mediático.

Ouvimos agora falar com muita frequência do F.O.G.O. ou “Fear Of Going Out”, medo de sair de casa, e a forma de o ultrapassar nem sempre é fácil de conseguir. Quem sofre deste medo tem que em primeiro lugar encontrar um local ou uma actividade que lhe dê prazer, tentando fazer com que o F.O.G.O. fique secundarizado. Estes locais e/ou actividades são, infelizmente cada vez menos e menos seguras.

Aparecem medos novos: Agora temos medo até de nos aproximar.

Temos medo por nós e pelo nosso núcleo mais próximo, com o qual não podemos (e não queremos) deixar de estar, de tocar, de abraçar, de beijar!

Temos medo porque todos temos, em nós ou em alguém muito próximo, o risco acrescido de uma outra qualquer patologia que, juntamente com a infecção por SARS-CoV-2, pode resultar numa situação catastrófica.

Novos medos com os quais não sabemos ainda lidar.

No entanto, com aquilo que sabemos lidar, com aquilo que temos o dever de lidar e saber lidar, enquanto seres humanos, humanistas e maçons, é com os novos desafios que a situação pandémica nos apresenta.

Agora, mais do que nunca na nossa geração, as carências sociais vão… estão a crescer, exponencialmente mais do que cresce o medo na sociedade.

Não precisamos de dados estatísticos para saber que é assim, basta que o vejam os nossos olhos atentos e o sintam os nossos corações humildes.

Aqui, numa porta que já estava entreaberta para as nossas acções enquanto homens bons, estão agora escancaradas para acções ainda mais necessárias, da nossa parte e em conjunto com a sociedade civil em geral.

Chegou a altura de fazer acontecer e de dar as mãos a quem mais precisa.

E o medo? Perguntarão os MM∴ QQ∴ II∴

Pois é, e o medo?!

O medo não pode deixar de estar presente no seu sentido de nos deixar mais alerta, o que fará com que as nossas defesas psicofisiológicas estejam no seu expoente máximo e assim nos ajudem a manter a segurança necessária para conseguir realizar as tarefas que se impõem.

O medo na sua acepção de ausência de coragem é que tem que ser minimizado. Não podemos deixar que o medo nos impeça de agir, não podemos deixar que o medo, que tem que estar presente, nos impeça de cumprir o nosso desígnio de realizar. Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo, escreveu Mark Twain no seu romance Pudd’nhead Wilson.

Deixar de lado o medo que nos entra pela porta dentro com a disseminação de informação sem filtro, de informações excessivas, de informação imprecisa e confusa, que nos apresenta um inimigo invisível, pior do que ele é, ou não, deixando muito a cargo da nossa imaginação quer individual, quer colectiva. À conta desta actuação estão criadas as condições perfeitas para a implantação de um Terror Mundial, que vai (já está a…) gerar um efeito muito negativo na saúde mental, ao ponto de estar já a provocar ansiedade generalizada na população mundial.

Temos que estar muito atentos, pois tal como nos deixou escrito o filósofo Avicena, aquele que para muitos é o pai da medicina moderna, “A imaginação é a metade da doença, a tranquilidade é a metade do remédio e a paciência é o começo da cura”.

O medo não é só um, são vários e em várias intensidades. Temos que lidar com cada um deles da forma que melhor nos leva a alcançar o nosso objectivo de assistência permanente a quem mais necessita, especialmente em tempos onde a humanidade mais precisa da obra de homens bons.

Deixemos que o medo primordial nos inunde e nos proteja! Não podemos é deixar actuar em nós o medo da forma como, por exemplo, Heidegger o entendia, como o medo que convida a viver a vida sem sentido, a deixarmos que sejam os outros e as circunstâncias a controlar o próprio sentido da nossa vida.

Nós, maçons, que temos como caminho a exaltação das virtudes, temos que aliar o medo, como estímulo, à coragem, como virtude.

Não é fácil MM∴ QQ∴ II∴, não o é de todo!

Napoleão Bonaparte, num comentário a O Príncipe de Maquiavel, quando este escreveu “[…] não deve crer nem agir levianamente, nem se deixar invadir pelo medo,[…]”, aquele comentou: “É fácil de dizer”, no entanto, no resto da passagem quando Maquiavel escreve “[…] mas, sim, proceder de modo moderado, com confiança e humanidade, para que o excesso de confiança não o torne imprudente e o excesso de desconfiança não o torne insuportável.”, Napoleão comenta. “Perfeito! Sublime![5]

VIRTUS NESCIT IGNAVUS METUS

(a virtude desconhece o medo covarde)

A virtude apenas desconhece o medo covarde!

Não nos esqueçamos de começar pelo nosso mais íntimo, pelo nosso interior, pelo nosso EU! Devemos ajudar sempre que possível, e tornar possível o que à primeira vista nos parece impossível, mas pedir ajuda sempre que necessário. Só estando bem conseguimos ajudar os outros a estar melhor.

Depois, temos que ir alargando o círculo.

Passar pelo nosso núcleo mais próximo, até chegarmos a toda a sociedade civil.

Estar atentos é imperioso, pois que, muitas vezes é nos mais próximos e onde menos se espera que está a nossa primeira campanha, onde está a nossa primeira tarefa. Tal como na praia devemos olhar sempre para o horizonte, nunca, porém, deixando de estar atentos à areia sobre a qual repousam os nossos pés.

MM∴ QQ∴ II∴, tenhamos medo, falemos de medo, preocupemo-nos com o medo, mas preocupemo-nos mais com a Acção, falemos mais de Acção, façamos mais!

Mãos à obra! É Agora!!!

Cada um como melhor conseguir, vamos ajudar a elevar as paredes deste Templo e a mantê-las de pé e assim conseguir nós próprios melhorar o nosso Templo interior, de dentro para fora!

Não é tempo de fazermos, como muitas vezes nos dizem, distanciamento social, muito pelo contrário!

Agora é tempo de, sempre que os nossos deveres como homens bons assim o permitam, fazer DISTANCIAMENTO FÍSICO, e impõe-se-nos que façamos APROXIMAÇÃO FRATERNAL e SOLIDARIEDADE SOCIAL.

MM∴ QQ∴ II∴, terminando, e porque achei que tudo tem que ver com o tema sobre o qual discorri hoje para vós, uma citação do nosso querido Fernando Pessoa:

A coragem que vence o medo tem mais elementos de grandeza que aquela que o não tem. Uma começa interiormente; outra é puramente exterior. A última faz frente ao perigo; a primeira faz frente, antes de tudo, ao próprio temor dentro da sua alma.”

Fernando Pessoa

Disse!

Rodolfo Vermelho – A∴ M∴ – R∴ L∴ D. Fernando II nº 118 – GLLP/GLRP

Notas

[1] O medo – a perspectiva de um Maçom”, artigo consultado em www.freemason.pt/o-medo-a-perspectiva-de-um-macon/

[2] Divindades Romanas, companheiros do Deus Marte, são a personificação do medo.

[3] Irmãos Gémeos, filho de Ares e Afrodite. Ambos acompanham o Pai na Guerra. Deimos é a personificação do pânico, fazendo as tropas guerreiras fugir em desarranjo. Phobos é a personificação do medo e inunda as tropas inimigas com cobardia.

[4] “medo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/medo.

[5] Maquiavel – O Príncipe comentado por Napoleão Bonaparte, Pág. 89 e 162, Publicações Europa-América Livros de bolso (24) – 4.ª edição, Julho de 2020

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