As origens da Instituição Maçónica – Parte I

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Considerações preliminares

Das três perguntas; “De onde viemos? Quem somos? e Aonde vamos?”, nas quais se pode subdividir e expressar-se o Grande Mistério da experiência, assim como, o princípio de todo o verdadeiro conhecimento e toda a sabedoria, a primeira delas é a que especialmente diz respeito ao Aprendiz.

Aplicada à nossa Instituição, para dar a conhecer a sua essência, esta pergunta suscita-nos em primeiro lugar o problema das suas origens, ou seja, aquelas instituições, sociedades, costumes e tradições, nas quais a Maçonaria tem a sua raiz, o seu princípio espiritual, ainda que sem nelas directamente ter origem. Deste ponto-de-vista é certo, conforme nos dizem os catecismos, que as suas origens se perderam “na noite dos tempos”, ou seja, naquelas remotas civilizações pré-históricas das quais se têm perdido os vestígios e a memória, e que remontam provavelmente a centenas de milhares de anos antes da era actual [1].

Os primeiros rituais baseados nas tradições bíblicas, uma vez que os seus redactores se apoiaram pela fé nestas tradições, contam que: “Adão foi iniciado na Ordem do Éden, pelo G. A. em todos os ritos da Maçonaria, isto significando, evidentemente, que as origens da Maçonaria devem remontar à primeira sociedade humana, da qual Adão é um símbolo, correspondendo à Era Saturniana ou Idade de Ouro da tradição greco-romana, e ao Satra Yoga dos hindus.

É certo, pois, que esse íntimo desejo de progresso, essa profunda aspiração em direcção à Verdade e à Virtude, esse desejo de trabalhar recta e sabiamente, de que a Maçonaria constitui, para os seus adeptos a encarnação nasceram, já na aurora da civilização (que todas as tradições concordam em considerar luminosa).

Mas, se o espírito maçónico existiu desde as primeiras épocas conhecidas e desconhecidas – da história, e não foi alheio ao primeiro homem esse mesmo espírito (se realmente tiver existido tiver se expressado naturalmente de uma forma adaptada e conveniente nas primeiras comunidades – íntimas e por tanto secretas – de homens que se isolavam dos demais pelo seu desejo de saber e penetrar o Mistério Profundo das coisas, é igualmente correcto que nem sempre se terá manifestado exactamente da forma em que hoje se conhece, se exerce e se pratica.

Entretanto, os princípios imutáveis sobre os quais foi estabelecido esta manifestação, e que constituem o seu espírito e a sua característica fundamental, não podem ter sofrido variações substanciais, e uma vez que foram estabelecidas em épocas de antiguidade incalculável, devem também ter permanecido basicamente os mesmos através de todas as suas metamorfoses ou encarnações exteriores.

Também devem remontar os sinais, símbolos e toques, a íntima essência da alegorias e o significado das palavras que correspondem aos diferentes graus, (pelo seu carácter e a sua transmissão ininterrupta) até a mais remota antiguidade. Ainda que as alterações das lendas – na sua forma exterior – possam ter sido notáveis, entretanto, face ao reduzido e eliminado meio social no qual foram disseminadas, pela própria aparência exterior e ainda, pelas provas e a fidelidade que eram solicitadas aos iniciados, essas alterações sempre se reduziram ao mínimo, sendo mais intencionais (isto é, causadas por necessárias adaptações) que causais.

Além disto, por terem tais alegorias girado ao redor de um mesmo tema ou Ideia Mãe Fundamental, estas alterações devem ter sido geralmente cíclicas, gravitando ao redor de um mesmo ponto, passando, em consequência, mais de uma vez pela mesma forma ou por formas análogas.

Apesar do segredo que deve ter caracterizado constantemente a actividade da Ordem, nas diferentes formas assumidas exteriormente, em diversos locais podemos encontrar alguns vestígios que confirmam esta asserção: nos Templos sagrados de todos os tempos e de todas as religiões, entre as estátuas, gravuras, baixos-relevos e pinturas; nos escritos que nos foram transmitidos, em representações simbólicas de origens diversas, nas próprias letras do alfabeto, podemos encontrar vários traços de uma intenção indubitavelmente iniciática ou maçónica (sendo os dois termos, até certo ponto, equivalentes); e eventualmente ocorre não aparecerem nestas representações os mesmos sinais de reconhecimento.

Da mesma forma na mitologia, e nas lendas e tradições que constituem o folclore literário e popular, há muitos traços dos mistérios iniciáticos, daquela Palavra Perdida à qual se refere a nossa Instituição, com o seu ensinamento esotérico revelado de uma forma simbólica.

O aspecto esotérico da religião – conhecida exotericamente – deve ter conservado através dos tempos esta dupla característica, qualquer que tenha sido a forma exterior particular na qual tenha se manifestado nos diferentes povos e nas mais variadas épocas da história.

A doutrina interior

Todos os povos antigos conheceram, além do aspecto exterior ou formal da religião e das práticas sagradas, um ensinamento paralelo interior ou esotérico que era ministrado unicamente aos que moral e espiritualmente eram reputados dignos e maduros para recebê-la.

O aspecto esotérico da religião – conhecida exotericamente pelos profanos – era provido especialmente pelos chamados Mistérios (palavra derivada de “mysto“, termo que era aplicado aos neófitos, e que significava etimologicamente mudo ou secreto, referindo-se evidentemente a obrigação de segredo selado por juramento, que era pedido a todo iniciado), Mistérios dos quais a Maçonaria pode considerar-se herdeira e continuadora, por intermédio das corporações de construtores e demais agrupamentos místicos que nos transmitiram a sua Doutrina.

Esta Doutrina Interior – esotérica e oculta – é essencialmente iniciática, pois que somente será alcançada por intermédio da iniciação, isto é, pelo ingresso num particular estado de consciência (ou ponto-de-vista interior), pois somente mediante ele pode ser entendida, reconhecida e realizada.

A Doutrina Interior tem sido e continua sendo a mesma para todos os povos em todos os tempos. Por outras palavras, enquanto para os profanos (os que se encontram na frente ou fora do Templo, isto é sujeitos à aparência puramente exterior das coisas) tem havido e haverá sempre diferentes religiões e ensinamentos, em aparente contraste uns com os outros, para os iniciados não houve nem haverá mais do que uma só e única religião Universal da Verdade, que é Ciência e Filosofia, ao mesmo tempo que Religião.

Deste ensinamento iniciático, esotérico e universal comum a todos os povos, raças e épocas, as diferentes religiões e as diversas escolas tem constituído e constituem ainda hoje, um aspecto exterior mais ou menos imperfeito e incompleto. As lutas religiosas sempre caracterizaram aqueles períodos nos quais, pela imensa maioria dos seus dirigentes, foi perdida de vista aquela essência interior que constitui o Espírito da religião, compreendido unicamente o aspecto profano ou exterior. Pois o fanatismo sempre tem sido acompanhado da ignorância.

Os mistérios

Em todos os povos conhecidos da história, na era pré-cristã, houve instituição de mistérios: no Egipto como na Índia, na Pérsia, Caldeia, Síria, Grécia e em todas as nações mediterrâneas, entre os druidas, os godos, os escitas e os povos escandinavos na China e entre os povos indígenas da América.

Traços deles podem ser observados nas curiosas cerimónias e costumes das tribos da África e Austrália, e em todos os chamados povos primitivos, aos quais possivelmente, de forma mais justa, deveríamos considerar como originários da degeneração de raças e civilizações mais antigas.

Tiveram fama especialmente os Mistérios de Isis e de Osíris no Egipto; os de Orfeu e Dionísios e os Eleusinos na Grécia; os de Mitra, que da Pérsia se estenderam com as legiões romanas, por todos os países do império. Menos conhecidos e menos brilhantes, especialmente no seu período de decadência e degeneração, foram os de Greta e os da Samotrácia; os de Vénus em Chipre; os de Tammuz na Síria, e muitos outros.

Também a religião cristã teve no princípio os seus Mistérios, como deixam transparecer os indícios de natureza inequívoca que encontramos nos escritos dos primitivos Pais da Igreja, ensinando aos mais adiantados um aspecto mais profundo e interno da religião, à semelhança do que fazia Jesus, que instruía o povo por meio de parábolas, alegorias e preceitos morais, reservando ao pequeno círculo eleito dos discípulos – os que escutavam e punham em prática a Palavra os seus ensinamentos esotéricos. A essência dos Mistérios Cristãos tem-se conservado nas cerimónias que constituem actualmente os Sacramentos.

Igualmente a religião muçulmana, assim como o Budismo e a antiga religião brahmânica, tiveram e têm os seus Mistérios, que conservaram e em alguns casos conservam até hoje muitas práticas sem dúvida anteriores ao estabelecimento de ditas religiões, reminiscência daqueles que eram celebrados entre os antigos árabes, caldeus, aramaicos e fenícios, pelo que se refere à primeira, e entre os povos da Ásia Central e Meridional, pelos segundos.

Ainda que os nomes difiram e sejam parcialmente discordantes, a forma simbólica e as particularidades dos ensinamentos e as suas aplicações tem sido característica fundamental e originária de toda a transmissão de uma mesma Doutrina Esotérica, em graus diversos e sucessivos, conforme a maturidade moral e espiritual dos candidatos, os quais eram submetidos a provas (muitas vezes difíceis e espantosas) para reconhecê-la, subordinando-se a comunicação do ensino simbólico, e os instrumentos ou chaves para interpretá-la, à firmeza e fortaleza de ânimo demonstradas na superação destas provas.

A própria Doutrina nunca variou em si mesma, ainda que se tenha revestido de formas diferentes (mas quase sempre análogas ou muito semelhantes) e interpretada mais ou menos perfeita ou imperfeitamente e de uma maneira relativamente profunda ou superficial, por efeito da degeneração, à qual com o tempo sucumbiram os instrumentos ou meios humanos aos quais aquela tinha sido confiada. Esta unidade fundamental, assim como a analogia entre os meios, pode considerar-se como prova suficiente da unidade de origem de todos os Mistérios de um mesmo e único Manancial, do qual tem emanado, ou pelo qual foram inspiradas, as diferentes instruções e tradições religiosas, e a própria Maçonaria nas suas formas primitivas e recentes.

A unidade da doutrina

Esta Doutrina-Mãe Ecléctica que tem sido perpetuamente Fonte inesgotável dos ensinamentos mais elevados de todos os tempos (foco de luz inextinguível, conservado zelosa e fielmente no Mistério da Compreensão e do Amor, que nunca deixou de brilhar mesmo nas épocas mais obscuras da História, para os que tiveram “olhos para ver e ouvidos para ouvir”, é a própria

Doutrina Iniciática manifestada nos Mistérios Egípcios, Orientais, Gregos, Romanos, Gnósticos e Cristãos, e é a mesma Doutrina Maçónica revelada por meio do estudo e da interpretação dos símbolos e cerimónias que caracterizam a nossa Ordem.

É a Doutrina da Luz interior dos Mistérios Egípcios, que era desperta no candidato e tornava-se para sempre mais firme e activa na medida em que chegava a “osirificar-se”, ou seja conhecer a sua unidade e identidade com Osíris, o Primeiro e Único Princípio do Universo. É a mesma Doutrina da luz simbólica que os candidatos procuram nos nossos Templos, e que se realiza individualmente na medida em que cada um se afasta da influência profana ou exterior dos sentidos, e busca o secreto entendimento no íntimo do seu ser.

É a Doutrina da Vida Universal encerrada no simbólico grão de trigo de Elêusis, que deve morrer e ser sepultado nas entranhas da terra, para poder renascer como planta, à luz do dia, depois de abrir caminho através da escuridão em que germina. É a mesma doutrina pela qual o candidato, tendo passado por uma espécie de morte simbólica no quarto de Reflexões, renasce a uma nova vida como Maçom e progride por meio do esforço pessoal dirigido pelas aspirações verticais que o prumo simboliza.

É a Doutrina da redenção cristã, obtida por intermédio da fidelidade na palavra, com a qual o Cristo ou Verbo Divino (a nossa percepção interior ou reconhecimento espiritual da verdade) nasce ou se manifeste em nós e nos conduz, segundo a antiga expressão brahmânica “da ilusão à Realidade, das trevas à luz, da morte à Imortalidade”. É a mesma doutrina do Verbo ou Logos sobre a qual colocamos os nossos instrumentos simbólicos ao abrirmos a Loja, isto é, ao iniciar a manifestação do Logos.

É pois, sempre e onde quer que seja, um mesmo ensinamento que se revela por infinitas formas, adaptando-se à inteligência e à capacidade de compreensão dos ouvintes; uma Doutrina secreta ou hermética, revelada por meio de símbolos, palavras e alegorias que só podem entender e aplicar no seu real sentido os ouvidos da compreensão. É uma doutrina vital que deve fazer-se carne em nós, sangue e vida, para produzir o milagre da regeneração ou novo nascimento, que constitui o Télos ou “fim da iniciação”.

A hierarquia oculta

O reconhecimento da Identidade fundamental desta Doutrina nas suas múltiplas concessões e manifestações exteriores, da idêntica finalidade destas e da identidade dos meios universalmente empregados para ensiná-la, nas suas distintas adaptações às diferentes circunstâncias de tempo e lugar, como selo da sua origem comum, faz com que se torne patente a existência de uma Hierarquia Oculta, uma Fraternidade de Sábios de Mestres, que tem sido através das eras a sua íntima, secreta e fiel depositária, manifestando-a exteriormente em formas análogas ou diferentes, conforme a maturidade dos tempos e dos homens.

As origens desta Fraternidade Oculta de Mestres da Sabedoria, chamada também Grande Loja Branca (e, na Bíblia, Ordem de Melchisedeck), podem unir-se às primeiras civilizações humanas das quais esses Mestres, como Reis-Sacerdotes Iniciados (conforme é indicado pelo nome genérico Melchisedeck), foram Reveladores e Instrutores, pode-se dizer, desde a aparição do primeiro homem sobre a Terra. A sua existência tem sido e pode ser reconhecida por todos os discípulos adiantados, dos quais os Mestres tem-se servido e ainda se servem para a sua Obra no Mundo.

Devemos a esta Hierarquia Oculta, formada pelos genuínos Intérpretes, Depositários e Dispensadores da Doutrina Secreta, o primitivo estabelecimento de todos os Mistérios e todos os cultos, nas suas formas mais antigas, mais puras e originárias, assim como, o estabelecimento da Instituição Maçónica e todo o movimento progressista e libertador.

Elevar e libertar as consciências, conduzir os homens das trevas da ignorância e da ilusão, à luz da Verdade; desde o vício até à virtude; e da escravidão da matéria à liberdade do espírito, tem sido sempre e constantemente, a finalidade destes Seres superiores, destes verdadeiros Mestres Incógnitos nas suas actividades no mundo.

Todo Movimento elevador e libertador deve considerar-se, directa ou indirectamente, inspirado por esta Hierarquia, formada pelos que se elevaram e se libertaram por si mesmos, sobrepondo-se a todas as debilidades, limitações e correntes (que atam a maioria de nós e nos fazem escravos da fatalidade ou da necessidade em aparência, mas na realidade somos escravos dos nossos próprios erros e ilusões); realizando assim o verdadeiro Magistério.

Pelo contrário, todo movimento (político, social ou oculto) que tende a limitar, escravizar, entorpecer e adormecer a consciência dos homens tem uma oposta e diferente inspiração, sendo obra manifesta do Senhor da Ilusão, ou seja, do movimento de refluxo das ondas espirituais. A liberdade individual e o respeito pleno desta tem sido sempre e ainda o são, a característica da linha direita e esquerda da Evolução Ascendente, enquanto a escravidão e coerção assinalam o caminho esquerdo ou descendente.

As comunidades místicas

Ao lado das mais antigas instituições oficiais dos Mistérios – protegidas por reis e governos com leis e privilégios especiais, pela sua influência reconhecidamente benéfica e moralizadora e instintivamente veneradas pelos novos – existiram em todo o Oriente, e especialmente na Índia, Pérsia, Grécia e Egipto, muitas comunidades místicas que, se por um lado podem ser comparadas aos actuais conventos e ordens monásticas, por outro, algumas das suas características as relacionam intimamente com a moderna Maçonaria.

Estas comunidades – algumas das quais tiveram, embora outras não carácter decididamente religioso – nasceram, evidentemente, da necessidade espiritual de agrupar-se para levar, ao abrigo das condições contrárias do mundo exterior, uma vida comum mais de acordo com os ideais e íntimas aspirações dos seus componentes.

As características destas comunidades, que constituem um laço de união com a nossa Ordem, referem-se igualmente à sua dupla finalidade operativa e especulativa – enquanto se dedicavam igualmente a trabalhos e actividades materiais, assim como aos estudos filosóficos e contemplação – à iniciação como condição necessária para nelas serem admitidos, e aos meios de reconhecimento (sinais, palavras e toques que usavam entre si e por intermédio dos quais abriam as suas portas ao viajante iniciado que se fazia reconhecer como um deles, tratando-o como irmão, qualquer que fosse a sua procedência.

Destas místicas comunidades muito nos fala Filóstrato na sua Vida de Apolónio de Tiana, baseando-se nos apontamentos de Damis, discípulo do grande filósofo reformador do primeiro século da nossa Era (ou melhor dizendo, companheiro de viagem, pois por não ser um iniciado, quase sempre Damis era obrigado a ficar na porta dos Templos e Santuários que não possuíam segredos para o seu Mestre), Mestre que viajou constantemente de uma a outra comunidade, assim como de Templo em Templo nas mais diversas religiões, e onde sempre encontrou hospitalidade e acolhida fraternal, neles compartilhando o Pão da Sabedoria.

As mais conhecidas foram as comunidades dos Essénios entre os hebreus, dos Terapeutas do Alto Egipto e dos Gimnosofistas na Índia. Este último termo – que literalmente significa sábios despidos – parece muito bem aplicar-se aos iogues, no seu tríplice sentido moral, material e espiritual, quando se despojavam de toda a sua riqueza ou posse material e reduziam o seu traje ao que de mais simples havia, despindo-se espiritualmente com a prática da meditação que nos seus aspectos mais profundos é um despojo completo da mente (a “Criadora da Ilusão”) e das faculdades intelectuais, das quais está revestido o nosso Ego ou Alma para a sua actuação como “ser mental”.

As escolas filosóficas

Não podemos esquecer igualmente, nesta sintética enumeração das origens da Maçonaria, as grandes escolas filosóficas da antiguidade: a vedantina, na Índia, a pitagórica, a platónica e a ecléctica ou alexandrina no Ocidente, as quais, indistintamente, tiveram a sua origem e inspiração nos Mistérios.

Da primeira, diremos simplesmente que o seu propósito foi a interpretação dos livros sagrados dos Vedas (Vedanta significa etimologicamente fim dos Vedas), antigas escrituras brahmânicas inspiradas, obras dos Rishis, “videntes” ou “profetas” com propósito claramente esotérico, como é demonstrado pela sua característica primitivamente adavaita (“antidualista” ou unitária), com o reconhecimento de um único Princípio ou Realidade, operante nas infinitas manifestações da Divindade, consideradas estas como diferentes aspectos desta Realidade Única.

A escola estabelecida por Pitágoras, como comunidade filosófico educativa, em Crotona, na Itália meridional (chamada então Magna Grécia), tem uma íntima relação com a nossa instituição. Os discípulos eram inicialmente submetidas a um longo período de noviciado que pode comparar-se ao nosso grau de Aprendiz, onde eram admitidos como ouvintes, observando um silêncio absoluto, e outras práticas de purificação que os preparavam para o estado sucessivo de iluminação, no qual permitia-se que falassem, tendo uma evidente analogia como grau de Companheiro, enquanto o estado de perfeição relaciona-se evidentemente como o nosso grau de Mestre.

A escola de Pitágoras teve uma decidida influência, também nos séculos posteriores, e muitos movimentos e instituições sociais foram inspirados pelos ensinamentos do Mestre, que não nos deixou nada como obra directa sua, já que considerava os seus ensinamentos como vida e preferia, como ele mesmo o dizia, gravá-las (outro termo caracteristicamente maçónico) na mente e na vida dos seus discípulos, do que confiá-las como letra morta ao papel [2].

Em relação a Pitágoras cabe recordar aqui um curioso e antigo documento maçónico, [3] no qual se atribui ao Filósofo por excelência (foi quem primitivamente usou este termo, distinguindo-se como amigo da sabedoria dos sufis ou sufistas, que ostentavam, com orgulho inversamente proporcional ao mérito real, o título de sábios) o mérito de ter transportado as tradições maçónicas orientais ao mundo ocidental greco-romano.

Desta escola platónica e da sua conexão com os ensinamentos maçónicos, é suficiente que recordemos a inscrição que existia no átrio da Academia (palavra que significa etimologicamente “oriente”), onde eram celebradas as reuniões: “Ninguém deve aqui entrar se não conhecer a Geometria”; alusão evidente à natureza matemática dos Primeiros Princípios, assim como ao simbolismo geométrico ou construtor que nos revela a íntima natureza do Universo e do homem, bem como, da sua evolução.

A filiação destas escolas aos Mistérios é evidente pelo facto de que Platão, como Pitágoras e todos os grandes filósofos daqueles tempos, foram iniciados nos Mistérios do Egipto e da Grécia (ou em ambos), e todos deles nos falam com grande respeito, ainda que sempre superficialmente, por ser então toda violação do segredo castigada pelas leis civis até com a própria morte.

Da escola ecléctica ou neoplatónica de Alexandria, no Egipto, podemos estabelecer a dupla característica da sua origem e da sua finalidade, uma vez que nasceu da convergência de diferentes escolas e tradições filosóficas, iniciáticas e religiosas, como síntese e conciliação destas, do ponto de vista interior no qual se revela e torna patente a sua fundamental unidade.

Esta tentativa de unificação de escolas e tradições diferentes, por meio da compreensão da Unidade da Doutrina que nelas se encerra, foi renovada uns séculos depois por Ammonio Saccas, constituindo ainda um privilégio constante e universal característico dos verdadeiros iniciados em todos os tempos.

Eduardo Freitas

(Continua na Parte II)

Notas

[1] Falando em linguagem geológica, aquelas que remontam ao princípio da era quaternária ou talvez ao próprio período terciário.

[2] Confronte-se com o que foi dito por Jesus: “as Minhas palavras são espírito e vida”.

[3] O documento chama-se “Leyland-Loche Ms.” e a sua data remonta a de 1436, estando escrito em inglês arcaico daquela época. Referindo-se à Maçonaria, responde à seguinte pergunta: De onde veio? Informando que começou “com os primeiros homens do Leste, que foram antes dos primeiros do Oeste”, sendo transmitida ao Ocidente pelos venezianos. Depois do que, segue literalmente:

“How comede ytt Engelonde? “Peter Gower, a Grecian journeyed for kunnynge yn Egypte and yn Syria, and yn everyche lande whereat the Venetians hadde plauntede Maconrye, and wynnynge entrance yn al Lodge of Maçonnes, he learned muche, and worked yn Grecia Magna wachsynge and becommynge a myghitye wysacre and gratelyche renowned, and here heaframed a grate lodge at Groton, and maked many Maconnes, some whereoffe dyd journeye yn France, and maked many Maconnes wherefromme, yn process of tyme, the arte passed yn Engelonde.

É evidente que Peter Gower, Venetians e Groton, são alterações fonéticas, de Pitágoras, Fenícios (em inglês Phoenicians) e Grotónios. Assim é que conforme esta tradição, a Maçonaria, estabelecida primitivamente pelos Fenícios em todas as suas colónias – e isto concorda perfeitamente com a origem fenícia do arquitecto Hiram do Templo de Salomão – chegou por intermédio da Grécia à Itália, onde, no tempo das conquistas romanas, franqueou o seu caminho nos demais países da Europa Ocidental.

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