Noaquitas: Maçons e carpinteiros

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Noé e a construção da arca. Em 1845, os trabalhadores no Hall descobriram a pintura mural.
Noé e a construção da arca. Em 1845, os trabalhadores no Hall descobriram a pintura mural.

Nas Constituições de Anderson, edição de 1738, é introduzida uma alteração em relação a primeira versão, de 1723: “Um Maçom é obrigado a obedecer a lei moral…… como um verdadeiro Noaquita”

A temática principal deste artigo é fácil de expressar:

O argumento é que, ao tentar resolver algumas questões de longa data, relativos ao nosso Ofício, sempre nos encontramos limitados a buscar respostas orientadas ao material da construção em pedra.

Quando aceitamos que os carpinteiros e marceneiros, assim como outros artesãos, também eram considerados “verdadeiros maçons”, podemos vislumbrar novas soluções.

O principal segredo será resolvido quando descobrirmos por que se dizia que nós, os maçons, éramos “Noaquitas” ou “Filhos de Noé”.

Embora esta tese seja simples de expressar, pode não ser tão simples, desvendar e obter provas, isto porque devemos superar quatro obstáculos:

  1. Precisamos de uma redefinição de termos, como o de “Mestre” ou de “Maçom”, que adquiriram uma identidade que parece apenas com “trabalhador da pedra”.
  2. Temos que considerar alguns pontos de vista existentes, que podem ser vistos como fora do âmbito desta discussão, por exemplo, as tradições anteriores a 1717, que são irrelevantes.
  3. Temos que admitir alguns fatos novos, tais como pinturas murais de Tudor, que à primeira vista tem aparência interessante, mas podem ser inadequados ou desnecessários.
  4. Temos de desfazer erros que desafiam os esforços do estudioso mais paciente.

Enfrentando uma série de obstáculos, parece que o melhor caminho é recuar e aceitar a derrota, enquanto a escolha óbvia seria deixar tudo como está, excepto quando vale a pena verificar. Eu acho que esta é uma daquelas ocasiões.

O que buscamos é a solução para as seguintes perguntas:

  • Em que contribuiu o Manuscrito Graham, para a Maçonaria Inglesa?
  • Qual é a base provável da lenda de Hiram no terceiro grau?
  • O que James Anderson estava tentando dizer, ao chamar os maçons de Noaquitas?

No que se segue, vou adoptar uma linha de argumentação com base em evidências, afim de procurar responder às questões levantadas, e ainda, tentar demonstrar como elas estão interligadas.

Começamos com uma experiência baseada em relatos de uma visita em 1997, sobre arquitectura histórica, onde ocorreu uma série de palestras e actividades organizadas pelo chanceler da Catedral de York.

O objectivo era revelar ao público algumas das histórias e relatos relacionados com a construção da igreja. O item que mais atraiu a imaginação foi uma visita ao Capítulo da Catedral, incluindo o que é conhecido como a Câmara do Maçom, incluindo os andaimes de madeira que apoiam o telhado deste local de reunião.

Ao visitar estes lugares adquire-se uma impressão permanente – uma íntima conexão do ofício dos carpinteiros com o dos pedreiros.

A Câmara do Maçom era a sala onde os desenhos para o trabalho em pedra eram desenhados no chão pelo Mestre Arquitecto e vestígios de alguns desenhos ainda estão conservados lá. Pendurados no tecto, estão fileiras e mais fileiras de modelos de madeira que serviram de guia para os pedreiros na tarefa de preparar as costelas das abóbadas, janelas redondas, pedestais, cabeças dos pilares, picos e fachadas.

Todos estes itens da arte dos construtores da pedra, dependiam, para sua correcta execução, de projectos de madeira feitos pelos carpinteiros sob a direcção do Mestre Arquitecto.

Você pode imaginar que esta sala era uma colmeia em plena actividade. Agora, subindo uma escada em caracol, alcançava-se uma sala octogonal.

Acima da cabeça, tem-se um conjunto de grandes vigas de madeira, em forma cónica, arrumados para ajustar a marcação do ápice no telhado do Capítulo, chanfradas e revestidas de lâminas de chumbo para impermeabilizar e sobre a qual as camadas de telhas são colocadas.

Aqui numa das exposições mais complexas e impressionantes de carpintaria e montagem de toda a Europa, pode-se apreciar o verdadeiro esqueleto e fundação que permitia que o trabalho de pedra abaixo, permaneceria seguro, seco e estável.

E isto não é tudo. A partir do ápice do telhado desce uma coluna de madeira, como o mastro de um navio antigo, formado com três grandes pedaços de madeira, como se uma única não fosse possível cobrir tal comprimento.

Esta grande coluna funde-se com a base e a fundação do edifício, como uma enorme âncora. Compreendemos que há uma realidade interior deste edifício medieval, uma união inseparável de pelo menos dois ofícios, para produzir a maravilha da “Chapter House of York”: Pedreiros e carpinteiros trabalharam lado a lado.

Na maioria das vezes, esquecemos esta colaboração no período de funcionamento desses ofícios, mas com certeza os nossos antepassados não cometiam o mesmo erro.

Em um memorando de Dublin, datado de 1797, está registrado “… nós, a companhia de carpinteiros, pedreiros, construtores…” e “a verificação da altura de uma parede da Torre de Londres, foi realizada na presença de William Ransey, Mestre Pedreiro, e de William de Hurley, Mestre Carpinteiro.

E é precisamente deste tipo de inter-relação que se reflecte nas Constituições da Primeira Grande Loja dos Maçons Livre e Aceitos ou maçons especulativos, de Londres e Westminster, em 1722-1723, compiladas pelo célebre Dr. James Anderson.

Ali primeiramente expressa:

“… os maçons sobre todos os outros artistas, eram os favoritos do Eminente e se fizeram imprescindíveis pelos seus grandes conhecimentos de todos os tipos de materiais, não só de pedra, tijolo, madeira, cal, mas também em tecidos e sedas usadas para as tendas e para vários tipos de arquitectura”.

“Não nos esqueçamos, também, dos pintores e escultores que eram reconhecidos como bons maçons, tais como cortadores de pedra, fabricantes de tijolos, carpinteiros, montadores, construtores de tendas e um grande número de artesãos que não podemos nomear, e que trabalhavam de acordo com a Geometria e Regras de Construção; mas nenhum desde Hiram Abiff foi reconhecido por dominar todas as partes da Maçonaria.

Neste caso podemos chegar à conclusão de que não eram apenas os trabalhadores “da pedra” que seriam considerados “maçons”.

Se podemos garantir que para a nova classe de maçons especulativos, pelo menos os carpinteiros eram vistos como pertencentes ao círculo da Maçonaria geométrica, não é de estranhar que, na história lendária dos maçons, aparecem histórias relacionadas com outros ofícios.

Nas Constituições de 1723 há o seguinte texto:

“Noé o nono desde Seth, recebeu a ordem de Deus para construir uma grande arca, de madeira, certamente fabricada com geometria e de acordo com as regras da Maçonaria.

Noé e seus três filhos, Jafé, Sem e Cam, todos verdadeiros maçons, trouxeram com eles depois do dilúvio, as tradições e artes dos antediluvianos (sic)…”

A história de Noé e sua família construindo a Arca foi especialmente conectada com o ofício dos carpinteiros medievais, e sublinhado por duas coisas:

A primeira foi revelada no livro de Jasper Ridley, History of the Carpenters Company of London (1995), que reproduz quatro pinturas murais do Século XVI (1545), que foram descobertos no Carpenter Hall durante a metade do Século XIX, por ocasião da sua restauração.

A primeira destas pinturas mostra o patriarca Noé, orando diante do Altíssimo, enquanto os seus três filhos trabalham no navio (e nota-se também uma escadaria que levaria para a glória do Senhor, que lembra o painel do primeiro grau).

Noé e a construção da arca. Em 1845, os trabalhadores no Hall descobriram a pintura mural.

Este, encontra-se nas paredes do local de encontro oficial dos Carpinteiros de Londres, confirma a associação dos ofícios.

O segundo facto refere-se à escolha de papéis, nos ciclos de mistérios que foram celebrados em muitas cidades na Inglaterra desde o Século XIV a XVI.

Sabe-se que, em Chester, Newcastle e em York, a representação de Noé era reivindicada pelos construtores navais pois eles estavam envolvidos na construção de um casco de madeira, anunciando as suas habilidades.

Os Carpinteiros de York e de Chester encenavam a ressurreição. Nesta representação, Cristo elevava-se de um caixão de madeira, do qual era suposto ter sido depositado na sepultura.

O vínculo entre este incidente e a história bem-conhecida por nós como a lenda do terceiro grau, não requer qualquer comentário especial se você considerar alguns painéis ou tapetes de grau, muito antigos.

Mas isto não é toda a evidência que temos. Há pelo menos três assuntos adicionais que merecem a nossa atenção.

O próximo factor em comum entre os dois ofícios é a escolha de um patrono em comum. Era a Virgem Maria, mãe de Jesus. Para os maçons, a escolha torna-se evidente.

Pintura de Maria no Carpenters Hall
Pintura de Maria no Carpenters Hall

Jesus era a pedra angular do Templo e a chave para o seu arco. Maria era simbolicamente conhecida como “templo” do qual a glória do Senhor emergiu e, portanto, como a mãe de Jesus, era natural que fosse escolhida por aqueles que fizeram surgir formas das pedras.

A ela também se referiam os escritores medievais, como “uma torre”, símbolo que aparece no brasão de armas dos construtores, apoiando este vínculo.

Para os Carpinteiros, não menos importantes do que Maria (enquanto esposa de um carpinteiro e mãe de Jesus que tinha servido como um aprendiz e treinados na arte) era José, tornando a sua escolha como padroeiro dos trabalhadores de madeira, absolutamente óbvia.

Assim, outras pinturas Tudor no Carpenter Hall (Salão dos Carpinteiros), mostra Maria (sem auréola), Jesus como uma criança aprendiz (com auréola) praticando com pedaços de madeira e José como Mestre Carpinteiro com chapéu, vara, túnica e luvas vestidos como um Mestre dos maçons da pedra da época.

O Mestre e Vigilantes da Companhia dos Carpinteiros usavam tais chapéus, conforme revelado numa das fotografias de Jasper Ridley, mostrando uma cabeça real com algo desgastado do período Tudor.

Quando se teve uma dedicação patronal comum aos dois ofícios, que tinham o mesmo dia Santo (ou festivos, quando os aprendizes eram liberados do seu trabalho) e as mesmas tradições religiosas e lendárias, a conexão entre Pedreiros e Carpinteiros aparece com mais força ainda.

E mais uma: as guildas tinha patronos secundários que também eram santos e as suas apresentações teatrais, eram realizadas antes mesmo do dia de Corpus Christi.

Os Pedreiros tinham como patronos os dois São João, enquanto que os Carpinteiros honravam São Lourenço.

Jasper Ridley diz-nos que a escolha de um Mestre Carpinteiro era realizada no dia de São Lourenço, onde também se realizava uma peça representando o mistério deste santo.

Não é possível fazer aqui uma descrição completa da história desses personagens, mas um dos factos simbólicos intrigantes: que antes de ser morto, Lourenço foi amarrado a uma grade quadrada (da mesma forma do Palácio de Felipe II no Escorial em Madrid dedicada ao santo) e os gestos adoptados nestas representações, são baseados em esquadros.

Assim, quando o santo está diante dos seus acusadores, tinha os braços em jarro, ou seja, as mãos nos quadris e braços em ângulo recto aos ângulos do corpo, e para emitir parecer favorável a qualquer pergunta, estendia o braço direito da frente num ângulo recto em relação ao corpo.

Hoje em dia, os maçons actuais dão o seu de acordo a qualquer questão desta forma.

Este antigo uso dos carpinteiros, foi “absorvido” no sistema maçónico especulativo.

Portanto, parece que desde o início do desenvolvimento do nosso ritual e lenda, desde os dias da primeira Grande Loja em Londres em 1717, contava-se com uma dupla fonte de material, da qual se recorria.

Os irmãos que projectaram as cerimónias que se tornariam o padrão para a prática na Inglaterra do Século XVIII, foram capazes de usar ecos não só tradicionais que ligavam o novo ofício com o dos pedreiros, mas também com os trabalhadores de madeira, carpinteiros.

O que é mais natural, então, que na formação da nossa prática maçónica do Século XVIII, apareceria duas lendas sobre fundamentos da história bíblica.

A primeira é a história novamente relatada por Anderson nas suas Constituições, a preservação das Sete Artes e Ciências Liberais da humanidade para a criação e protecção dos dois grandes pilares que ligam Adão, através de Lameque, com Hermes e no período pós dilúvio.

É útil revermos algumas destas histórias como foram inicialmente contadas:

… Lameque teve duas esposas, uma chamada Ada e outra Zila; com Ada teve dois filhos, Jabal e Jubal; com Zilla um chamado Tubalcain e uma filha, Naamá.

Estes quatro filhos foram os iniciadores de todos os ofícios do mundo … Tubalcain fundou o ofício do ferro, ouro, prata, cobre e aço. E eles gravaram estas ciências, que tinham fundado, em dois pilares de pedra que poderiam ser redescobertos depois de Deus se vingar; Um deles era de mármore que não poderia ser queimado, e o outro de um material que não seria afectado ao ser submerso em água…

Imediatamente nota-se uma diferença perceptível nas substâncias que formam os pilares, pela introdução do termo “pedra”, obviamente na intenção de reivindicar aos pedreiros maior importância.

A lenda passou por muitas variações, mas foi finalmente consagrada da maneira que normalmente é afirmada, onde se lê:

“Estes pilares eram ocos, para servir como arquivos da Maçonaria e onde os rolos das constituições foram depositados. Eles eram de bronze.

Também se deve notar que temos a palavra “Tubalcain” criando uma ligação com as tradições antigas e enfatizando o lugar de outros ofícios, dentro da Maçonaria.

A segunda lenda refere-se à anterior, uma vez que é baseado em Noé e os seus descendentes na preservação dos “verdadeiros segredos” do ofício.

Após a passagem citada anteriormente sobre Noé, nas Constituições de 1723, lemos: “Noé e os seus filhos comunicaram (Artes e Ciências) aos seus descendentes. Por cerca de 101 anos depois do dilúvio, encontramos um grande número de descendentes da raça de Noé, no vale de Sinar … que mais tarde foram conhecidos como Caldeus e Magos, que preservaram a boa ciência, a Geometria, que grandes Reis e grandes homens aplicaram à Arte Real. Mas não podemos falar mais a respeito, excepto numa loja constituída ….”

Esta afirmação em negrito, indica que não estamos na presença de uma forma simples de um registro histórico, mas uma parte do que se chama “ritual” na forma das palavras usadas em cerimónias da loja.

E precisamente por esta razão que somos cativos de actividade maçónica, o ritual, que identifica e distingue a Maçonaria de outras formas de associações sociais ou de intercâmbio, e precisamos reexaminar um documento ritual familiar que não só lança luz sobre a história de Noé e os seus filhos, mas os liga as práticas semelhantes que têm sido desde o Século XVIII, a principal característica do que chamamos de “Maçonaria livre e aceita”.

O documento é o Manuscrito Graham com data ambiguamente registrada como sendo 1726 ou 1672.

Não há uma conclusão firme sobre a datação correcta, mas num exame pericial do documento original, pode-se afirmar que vem do Século XVII e que 1726 seria a data em que teria sido copiado.

O Irmão Herbert Pool, que foi o primeiro a chamar a atenção do mundo maçónico para o manuscrito Graham, apresentou a sua opinião de que a história de Noé já era conhecida do ofício na sua ampla forma, pelo menos 21 anos antes da formação da (primeira) Grande Loja”. Isto torná-lo-ia contemporâneo do período em que algumas das nossas práticas especulativas maçónicas se estavam a formar.

O que é relevante é o facto de que termos aqui a história de Noé, o guardião dos segredos dos sete Artes e Ciências Liberais, declarando que a descoberta de tais segredos só pode acontecer quando há três presentes (uma voz tripla), mas ele morreu antes de revelá-los…

Os seus filhos tentaram levantá-lo por cinco pontos, de tal forma a descobrir os segredos da sua sepultura, mas sem sucesso e a busca do objectivo desejado deverá ser feito por outros meios.

A proximidade desta história ao posterior “ritual” do terceiro grau, não pode ser ignorado e uma vez que não tem qualquer outro material existente que explique de onde surgiu a lenda de Hiram, sendo assim, convém investigar possíveis ligações entre o manuscrito Graham e a sua contraparte.

Observamos, que em 1738, outra edição das Constituições da Grande Loja tem uma referência directa aos maçons como Noaquitas ou “filhos de Noé”, assim, devemos reconhecer que esta forma de nomear a nova forma de ofício especulativo era normal e aceitável.

A utilização do termo “Noaquita” naquela época, significa que pelo menos até então havia algum tipo de associação entre “maçons” no sentido amplo e a história ou lenda de Noé.

O Manuscrito Graham dá forma e realidade para essa associação.

Em um texto da AQC (1967), podemos considerar e fazer três comentários sobre o conteúdo principal que tem alguma relevância para este trabalho.

Parece ser um documento para uso numa loja, em vez de uma produção literária para o estudo privado. Ele tem ligações óbvias com as chamadas Old Charges, e fizeram observações em 1967 (AQC 80. p100).

Harry Carr escreveu:

Parece provável que a colecção de lendas Graham era de uma tradição herdada e não uma invenção de quem as transcreveu…

Colectivamente (como nas Old Charges) parecem ter uma história separada das tradições, desconectadas das práticas rituais originais, mas estava disponível para ser adoptadas em algum ritual, quando surgisse a necessidade ou oportunidade.

Deve-se notar que nem Harry Carr, nem ninguém em 1967, poderia sugerir de onde vinham estas tradições. Mas estas lendas podem ter começado a ser usadas no ritual, confirmada na introdução ao manuscrito, que afirma que a pessoa que se beneficiaria do seu conteúdo era um Maçom livre e aceito, de boa fé.

Citando:

A saudação é a seguinte:

– De onde vindes?

– Venho de uma mui venerável loja de Mestre e Companheiros…. que são todos verdadeiros e perfeitos irmãos dos nossos segredos sagrados, que os darei se comprovar que é um deles…

– Como foste feito Maçom…?

Estas e subsequentes perguntas e respostas, tudo na forma de um catecismo primitivo, ressaltam a antiguidade da forma e do conteúdo deste manuscrito, mas sugere que estamos no início da nossa viagem através do Século XVIII.

Vejamos, algumas partes do manuscrito.

A primeira e mais marcante observação é que se mostram três estágios de conhecimento maçónico. Eles estão conectados com Noé, Moisés e Salomão. É realmente uma coincidência que todas estas fases incluem uma estreita ligação entre os trabalhadores de pedra e de madeira.

Noé, como se vê, herda os pilares de pedra com o conhecimento “secreto”, que como a Arca, vai sobreviver ao dilúvio, enquanto a sua descendência, os construtores babilónicos, constroem a sua torre.

Bezaliel, o artesão escolhido por Moisés, surge como o criador de outra arca de madeira que será o símbolo da salvação dos últimos descendentes de Noé, vagando no deserto e está alojado numa “tenda” de madeira e tecido, com dois grandes pilares na entrada.

Salomão aparece agora e erige a sua mansão do Senhor, com paredes permanentes de pedra e pilares com câmaras e painéis de cedro e um santuário de ouro da mesma madeira da Arca da Aliança.

A união dos dois grandes ofícios de carpintaria e pedra não podem ser apresentados de forma mais dramática.

O segundo ponto seria que estes estágios estão presentes na história tradicional de James Anderson e confirma que ele não estava fantasiando quando disse, em 1738, que “os maçons foram os primeiros Noaquitas”.

Pode muito bem ser o registro da sentença de morte da antiga lenda dos carpinteiros, como parte do progresso incessante da Maçonaria especulativa Inglesa, mas pelo menos estava apontando uma era de evolução da lenda, que forma parte da nossa herança.

O aspecto Noaquita da nossa cultura maçónica tem sido minimizada, tendo um paralelo notável com outras tendências artísticas.

Cito uma passagem de um romance de 1989 (Julian Barnes, História do Mundo em 10 capítulos e meio, p 137f) :

“Para os primeiros doze séculos cristãos ou mais, a Arca (geralmente representado como uma simples caixa ou sarcófago, para indicar que a salvação de Noé era uma pré demonstração da saída de Cristo da sua sepultura) aparece abundantemente nos manuscritos iluminados; esculturas e vitrais das catedrais. Noé era uma figura muito popular … mas onde estão as grandes pinturas, as imagens famosas que o inspiraram?

A Arca finalmente chegou ao seu horizonte e desapareceu. ”

Na pintura de óleo sobre tela de Nicolas Poussin, chamada de “O dilúvio” (primeira parte do Século XVIIII) o navio ainda podia ser visto. O velho Noé já tinha saída da história da arte.

A terceira observação apresenta uma pergunta:

Por que Noé, os seus filhos e descendentes, apareceram na lenda maçónica e no ritual?

Vamos ver o que o Irmão Harvey, autor de AQC (1967) tem a dizer:

… nos primeiros anos da Grande Loja, entre 1722 e 1725, Desaguliers e os seus amigos, consideraram conveniente reformar o que eles viam como marcante no ritual, aparentemente, as lendas Graham ou algo semelhante.

Por razões práticas, conservaram os Pilares numa legenda dramática de fidelidade. Para ganhar consistência, toda a acção se mudou para Jerusalém. Hiram, o filho da viúva e Bezaliel, confundiram-se facilmente num só personagem.

O principal problema era a busca dos segredos substituídos e a transformação do falecido Noé, no Hiram vivo, mas esta invenção não parece ter causado muitas dificuldades a estes homens instruídos. (P.85-86).

Posso concordar com tudo isso, mas ainda resta uma pergunta, por que fariam algo que sairia, mas não deixaria o tema central de Noé?

Porque eles eram teólogos que conheciam a tradição de Noé, não eram os maçons de pedra, porque a tradição de Noé tinha uma ligação prolongada com um motivo da ressurreição de Cristo e que também tinham fortes laços com Nemrod e a Torre de Babel e associação “oculta” de Cam. Ao transferir a história para um filho médio de Israel, menos conhecido, resolveram muitos problemas num só golpe. Tudo isto mostra o quão valioso e útil para eles, foi a lenda do manuscrito Graham.

O Irmão Bathurst, no entanto, faz um outro comentário:

“O que é muito estranho é que Noé, Bezaliel e a abertura dos Vigilantes (todos elementos da história Graham) estavam no esquecimento, mas não ficaram lá.

Homens que mal tinham ouvido falar de Thomas Graham, o desenterraram anos mais tarde como base para cerimónias adicionais” (p.91, AQC 80). É aí que surge o grau de Royal Ark Mariner e porque estes primeiros protagonistas, no final do Século XVIII, afirmaram ele sendo como uma linhagem de um século antes, que foi julgado como excessivo e até mesmo absurdo, um julgamento que agora deveria ser reavaliado.

O que também é interessante é que nas formas mais primitivas do “grau da Arca” não é a história da Arca de Noé o foco do grau, mas sim a construção e destruição da torre de Babel.

A referência de James Anderson, para os maçons como “Noaquitas” não era simplesmente para voltar a uma antiga tradição.

Como uma “base da religião natural”, no qual todos os homens coincidem, ele está sugerindo que somos aqueles que aceitaram as Leis Noaquitas como o nosso padrão. (p.353).

E para reforçar a influência persistente da tradição de Noé no Ofício Inglês, foi que o pombo substituiu as figuras do Sol e da Lua – figuras de Hermes e emblemas rosacrucianos – nas hastes dos Diáconos, depois da União de 1813.

A lenda dos Carpinteiros ainda segue no trabalho dos maçons da pedra.”

Há ainda um aspecto desta tese para elucidar. Como os segredos prometidos no manuscrito Graham, permanecem ocultos, apesar de terem sido divulgados por Bezaliel aos Príncipes de St. Alban, então teve que haver uma nova maneira de recuperar e revelar completamente aos Mestres.

Isto exigia novas formas para as lendas antigas. Dr. Oliver mostrou que o símbolo do arco-íris era parte de uma antiga cerimónia do Real Arco e como mostrado na Torre de Babel, toda a comunicação tornou-se impossível entre os construtores, foi assim que a partir de Babel ou Babilónia é que deveria vir a restauração do edifício contendo segredos.

Bezaliel com a “Arca” Mosaica também aparece como tendo redescoberto a verdadeira “palavra” do Todo-poderoso sob o Templo.

Não é de se surpreender que outras pinturas Tudor que adornam o Carpenters Hall (Hall dos Carpinteiros), mostram o Rei Josias instruindo o seu povo a reconstruir o templo em Jerusalém.

O rei Josias dá instruções para reconstruir o Templo em Jerusalém.
O rei Josias dá instruções para reconstruir o Templo em Jerusalém.

Podemos sugerir que, assim como os Carpinteiros, outras pinturas e lendas influenciaram as histórias no nosso Ofício, a ponto de ter impacto sobre o desenvolvimento dos rituais.

Luciano R. Rodrigues

Bibliografia

Baseado no texto de Neville Barker Cryer, publicado pelo Cannonbury Masonic Research Center, em Fevereiro de 2000.

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