O lado feminino da Maçonaria

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sagrado feminino

Existem muitos, muitos maçons que diriam que não há nada na Maçonaria que seja feminino. É uma fraternidade masculina aos olhos deles, onde os homens se unem para fazer “homens bons melhores”, e o próprio termo “fraternidade” indica, para eles, uma organização inteiramente masculina [1]. Embora isto possa ser verdade para algumas Ordens Maçónicas, certamente não é verdade para todas.

Como já discutimos, os maçons são homens e mulheres, de todas as raças, credos e origens religiosas. Como também observámos num artigo anterior sobre Género e Maçonaria, género tem muito mais a ver com a essência das “coisas” do que com os aspectos sexuais da humanidade. Vamos considerar a ideia da Maçonaria como sendo puramente masculina e examinar o mundo dos princípios e género, herméticos. Onde é que o Feminino se encontra na Maçonaria?

Estamos a falar aqui para além dos títulos. Os títulos Maçónicos na maioria das línguas têm género. Há “Irmão” e “Irmã”, ambos com uma conotação de género. No entanto, eles são títulos e, embora possa haver uma divisão aberta entre o género físico em algumas ordens Maçónicas, em pelo menos uma ordem, todos os membros são designados por “Irmão”. Porquê? Em primeiro lugar, devemos lembrar que um título nada mais é do que uma designação honorífica – neste caso, designa um membro de uma ordem Maçónica. Não é uma designação de género mais do que “Doutor” é uma designação de género. Todos nós temos assumpções em torno de títulos que têm associações de género; há um motivo pelo qual a maioria das pessoas nunca mais se refere a hospedeiras nos voos. Os actores são actores, não actores e actrizes, pois os criados são criados, não criados e criadas. Começamos a derrubar as divisões de género e a trabalhar em prol da ideia de unidade. Nós designamo-nos uns aos outros com a melhor palavra que podemos para os Maçons – Irmão.

No entanto, como observei, esta descoberta vai para além do título. Se virmos a Sala da Loja, o Templo, como um lugar receptivo, é um recipiente e um vaso para a criação. Portanto, o Templo é feminino. É receber a humanidade, os Irmãos (energia masculina), para construir algo. Masculino é extrovertido e activo. Requer um equilíbrio para manter a sua natureza para se formar. Requer um templo que possa lidar com essa energia e transformá-la. Há alguma dúvida sobre porque o Templo Maçónico e o seu equipamento não deveriam estar na sua melhor condição e manutenção? Queremos que uma mãe saudável possa dar à luz um filho saudável. Isto não é o mesmo?

Tal como a Loja é feminina, acredito que também o seja o ritual. A forma ritual, escrita e memorizada, requer acção para lhe dar vida. Requer um princípio activo e externo para lhe dar vida. Aqui também, os Irmãos da Loja são o princípio masculino, assumindo formas de pensamento e palavras e criando acções pretendidas no espaço tridimensional. O ritual requer uma expressão forte e adequada (masculina) da imaginação (feminina); ambos são necessários para encenar toda uma cerimónia.

Muitas vezes, durante diferentes rituais, um Oficial muda a polaridade de masculino para feminino. Há uma mudança no fluxo do ritual Maçónico que incentiva os seus adeptos a explorar as energias dos princípios activos e passivos. Há também uma neutralidade na Loja que é conduzida por oficiais importantes; o equilíbrio é necessário para garantir que um género não domine. Há sempre, como as Sefirot da Cabala, um caminho do meio, um estado neutro na Maçonaria que orienta os pólos e o balanço do pêndulo espiritual, mental, emocional e físico. Ou seja, para cada par de oficiais de Loja, existe um corpo neutro para talvez trazer equilíbrio à natureza errática do ser humano que incorpora o cargo. Deixem-me explicar.

O oficial que recebe um candidato, um guia se quisermos, está sempre no aspecto masculino do seu cargo. Eles precisam cuidar e ter consideração pelos seus cuidados. Eles são a voz do neófito quando não pode falar. O candidato é feminino – ele está a receber o presente do ritual e incorporando-o na sua pessoa. Ele devem usar a imaginação para se ligar ao que lhe é oferecido. Aqui, novamente, não importa qual seja o género físico de uma pessoa; todos nós devemos aprender a entrar em contacto com a nossa natureza receptiva para ser um recipiente para a criação, de qualquer tipo. Após o candidato ter completado o seu ritual, o oficial em questão voltará ao seu lugar pretendido na estrutura da Loja. Esse pode ser um princípio receptivo, feminino, ao papel directivo masculino da sua contraparte. A lua com os seus raios de luz solar reflectida orienta a noite, mas por fim, o sol, o princípio assertivo primário, volta para assumir o seu lugar directivo nos céus.

É importante notar aqui que o Sol nem sempre assumiu o manto de masculino e a Lua nem sempre foi feminina. De facto, em linguagem baseada no pré-sânscrito, a denominação foi invertida; encontramos isso na mitologia babilónica, egípcia e anterior, onde o Sol era representado por avatares femininos. Este assunto é denso demais para se mergulhar aqui; basta dizer que, nos tempos mais recentes, o género desses corpos celestes mudou e vale a pena notar que os atributos do feminino se encontram no Sol, enquanto os atributos do masculino podem ser encontrados na Lua.

Voltando aos Oficiais, encontramos o masculino, o feminino e o neutro manifestados nos três oficiais principais de uma Loja. O 2º Vigilante é indicativo do meio-dia, quando o sol está mais alto. Isto fala sobre a natureza dominante e assertiva desse cargo; enquanto o 1º Vigilante. é o sol que se esconde na escuridão, É o frescor da lua, da noite, dos sonhos e da recepção. Pode-se descartar o seu atributo, vontade ou força, como sendo um traço puramente masculino, mas este não é o caso. O feminino aqui é sobre transparência e sobre ver o Outro; o 1º Vigilante vê toda a Loja e é responsável pela sua voz. Há uma calma confiança nas suas apresentações à Loja – aqui está o que foi feito e é de nós.

É claro que não se pode falar dos aspectos de género em vazio. Devemos fazer referência a um ou outro para ilustrar as diferenças e fornecer oportunidades para pensar sobre princípios que não são facilmente familiares para nós na nossa vida comum. Num próximo artigo, discutiremos os aspectos masculinos da Maçonaria em mais detalhes, em equilíbrio com as linhas neutras que marcam o lugar de equilíbrio, o ponto central onde talvez uma maior visão de unidade possa ser alcançada.

Kristine Wilson-Slack

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

Notas

[1] No entanto, essa crença comumente aceita, ou seja, de que as fraternidades são organizações totalmente masculinas é um erro. Embora muitas pessoas usem o termo “fraternidade” para se referir exclusivamente a grupos de homens, muitos grupos de mulheres se autodenominam oficialmente fraternidades. Por exemplo, as primeiras organizações fraternas femininas colegiadas licenciadas: 1. Kappa Alpha Theta 2. Kappa Kappa Gamma [Ambas as Fraternidades foram fundadas em 1870], 3. Alpha Phi Fraternity [1872], 4. Delta Gamma [1873], 5. Gamma Phi Beta e 6. Sigma Kappa [ambos fundados em 1874], etc., bem como outras Fraternidades mistas, que admitem homens e mulheres em faculdades como Wesleyan e UMASS. Gamma Phi Beta foi a primeira organização universitária de mulheres a ser chamada de “fraternidade”, um termo cunhado pelo professor de latim Dr. Frank Smalley da Syracuse University. Os termos “irmandade” e “fraternidade” das mulheres têm sido usados de forma intercambiável.

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