Poema Regius (ou o Manuscrito de Halliwell)

regius poem

O Manuscrito de Halliwell, também conhecido como o Poema Regius, é o primeiro dos Old Charges. Ele consiste em 64 páginas de papel velino escritas em dísticos rimados em Inglês médio. Nisso, difere da prosa de todos os outros charges. A poesia começa descrevendo como Euclides de Alexandria simulou a geometria e a chamou de Maçonaria, para o emprego de filhos da nobreza no Antigo Egipto. Então ele reconta a divulgação da arte da geometria em terras diversas.

O documento relata como o ofício da Maçonaria foi levado para a Inglaterra durante o reinado do Rei Etelstano (924 a 939). Conta como todos os maçons da terra vieram ao Rei por direccionamento a respeito de sua própria boa governança e como, junto com a nobreza e a aristocracia rural, forjaram os quinze artigos e quinze tópicos de suas regras. Seguem quinze artigos que diziam respeito tanto ao comportamento moral (não saquear os portos, não aceitar subornos, ir à igreja regularmente etc.) quanto ao trabalho em um canteiro de obras (não realizar seu trabalho de maçom à noite, ensinar os aprendizes de forma adequada, não aceitar trabalhos que você não possa realizar etc.).

Há quinze tópicos para artesãos que seguem um padrão semelhante. Avisos de punição para aqueles que quebrarem os decretos são seguidos por provisões de assembleias anuais. Então segue pela lenda dos Quatro Mártires Coroados, uma série de aforismos morais, finalizando com uma bênção.

As origens do Regius são obscuras. O manuscrito foi registrado em vários inventários pessoais conforme passava de mão em mão até que chegou à posse da Biblioteca Real, a qual o doou para o Museu Britânico em 1757 pelo Rei Jorge II para formar o núcleo da presente Biblioteca Britânica. Veio à atenção da Maçonaria muito tempo depois, devido ao bibliotecário David Casley, que descreveu o documento como um poema de deveres morais quando ele o catalogou em 1734.

Foi na sessão 1838-39 da Royal Society que James Halliwell, que não era Maçom, emitiu um artigo sobre The Early History of Freemasonry in England (A História Inicial da Maçonaria na Inglaterra), baseado no Regius, que foi publicado em 1840. O manuscrito datava de 1390, e amparada por tais autoridades como Woodford e Hughan, a datação de Edward Bond (o curador de manuscritos do Museu Britânico) em cinquenta anos mais tarde foi amplamente afastada. Hughan também mencionou que foi, provavelmente, escrito por um padre.

Análises modernas confirmaram a datação de Bond para o segundo quarto do século XV, e apontou sua composição como tendo sido feita na região de Shropshire. Essa data leva à hipótese que a composição do documento, e especialmente sua narrativa de uma autoridade real para assembleias anuais, visava contrariar o estatuto de 1425 que bania tais assembleias.

Começam aqui as constituições da arte da geometria segundo Euclides

Quem no alfabeto encontre um amigo
Lerá escrito assim num livro antigo
Relatos de senhoras e senhores
Que tinham muitos filhos e temores
Pois nada herdaram e a nada como renda
Faziam jus no bosque ou na fazenda.
Realizaram encontros em concílios
Elaborando o porvir desses filhos
De como bem cuidar de suas vidas
Sem inquietudes, males nem corridas
E a prole desses filhos bem pudesse
Ganhar a vida como uma benesse.
Mandaram vir notáveis instrutores
Para ensinar-lhes quantos bons labores;

‘Vamos pedir-lhes pelo amor de Deus
Que a nossos filhos ensinem como seus
A assim virem a ganhar a vida:
Recta, segura e condizente lida.’
Naquele tempo a boa geometria
Foi aplicada à honesta alvenaria
E imitados foram os professores;
Devido à prece humilde dos senhores
Os mestres demonstraram geometria
E deram o nome de alvenaria
Ao ofício mais honesto e meritório.
Do alunato o esforço era notório
Por aprender a nova geometria
Do mais zeloso mestre que havia;

Dos genitores recebeu o encargo
E ensinou os filhos sem embargo.
Era o melhor, o sábio mais versado,
Honesto e, mais que os outros, desvelado;
E conquistadas estas credenciais
Cabia ter veneração a mais.
Euclides era o nome desse lente
De justa fama, ampla e bendizente.
Mandou o mestre: aquele mais sagaz
Que ensinasse o que ficasse atrás
Por eloquência ou meio mais propício
Aprimorassem juntos este ofício.
Cada um que ao outro desse instrução
E se gostassem como irmã e irmão.
Com o valor da posição de ancestre
Criou para si o epíteto de Mestre;
E quem passasse a ser mais venerado
Fosse também assim denominado:
Mas que evitassem usar o apelativo
Dentro da ordem, pouco equitativo,
De servo ou súbdito, querido irmão,
Embora vário em grau de perfeição;
Usai, em vez, ‘colega’, em geral,
Pois que a origem é fidalga igual.
E alicerçada pela geometria
Nasceu um belo ofício: a alvenaria;
Brotada assim de Euclides, o erudito,
A geometria no país do Egipto.

No Egipto, Euclides leccionou a arte
E mais por terras mil, por toda a parte,
Durante anos, antes que aportasse
Em solo inglês, o ofício desta classe.
Naquele tempo era soberano,
O magnânimo rei Atelstano;
Ele erigiu salões de admirar
E templos de prestígio singular
Usava o grande espaço noite e dia
E honrava a Deus com toda a energia
Tanto ele amou a arte ardentemente
Que ambicionou torná-la perficiente.
Por descobrir defeitos ordinários
Pelo país despachou emissários

Pedreiros viessem estabelecer
Regras, expondo o seu parecer,
Ansiando assim a melhorar de fato.
Apresentasse-se a ele de imediato
Quem construísse muros ou muralhas
Objectivando corrigir as falhas.
A uma assembleia fez comparecer
Quem desfrutasse de algum poder.
Lá acorreram jovens e decanos
E cavaleiros, condes, suseranos,
Duques, barões, fidalgos da cidade,
Estavam todos lá com dignidade.
Usando tino, senso e intelecto,
Puseram ordem e lei nesse prospecto.

Ao fim ficaram quinze artigos prontos
E redigiram ainda quinze pontos.

Aqui começa o artigo primeiro

Reza o primeiro artigo que o sapiente
Mestre pedreiro deve certamente
Ser confiável, leal e verdadeiro.
Deveis pagar a cada companheiro
O preço justo – evitai pesares –
Dos mantimentos ditos regulares.
Por vossa fé pagai-lhes bem, de facto
O que merecem, segundo o contrato.
E contratai apenas o pessoal
Que bem julgardes ser essencial.
Ficai ao largo do suborno brando
Do amor ou mesmo do pavor infando
Do companheiro ou vindo do senhor,
De outra fonte, seja lá quem for.
E como um juiz ficai de fronte erecta.
A rectidão que seja a vossa meta.
Por toda a parte havereis respeito
E abundante aplauso e proveito.

Artigo segundo

Reza o segundo artigo tão-somente
Como está dito aqui nomeadamente
Que todo Mestre que é pedreiro sério,
Se o aviso não lhe ficou um mistério,
Vai estar presente, é efeito natural,
Onde será a congregação geral.
Deve chegar à reunião augusta
A menos que haja uma desculpa justa.
Estar ausente é incivilidade
Ou obrigar-se a usar de falsidade
Ou então é doença tão irresistível
Que estar com eles não é mais possível.
Essa é desculpa apta e boa, em suma,
Para a assembleia, sem falácia alguma.

Artigo terceiro

Com exactidão o terceiro artigo diz
Que o Mestre evite ter um aprendiz
A menos que haja boa segurança
De sete anos de perseverança
Para absorver de modo eficaz.
Em menos tempo não será capaz
Para proveito seu ou de ninguém.
Este preceito é conhecido bem.

Artigo quarto

O quarto artigo tem por mandamento:
O Mestre deve estar bastante atento
Que um aprendiz não seja alguém cativo,
Levá-lo à loja pode ser lesivo
Pois seu senhor por precisão qualquer
Irá buscá-lo esteja onde estiver.
Se um escravo fosse à loja como aluno
Seria estranho, até inoportuno
E pode ser, sentindo-se vexados,
Que alguns ou todos se mostrem agastados.
Porque os pedreiros, estando ali presentes,
Continuarão unidos descontentes.
Se contrariada for esta prudência
É de prever-se alguma inconveniência.
A fim de ser mais natural e honrado
Como aprendiz tomai um mais graduado.
Está escrito em tempo há muito extinto
Que o aprendiz já deva ser distinto.
E assim, por vezes, a alta fidalguia
Houve por bem chegar à geometria.

Artigo quinto

O quinto artigo é muito bom e justo.
Se no aprendiz circula sangue augusto
Não deve o Mestre, a buscar proveito,
Como aprendiz tomar um imperfeito,
Como se sabe – e pode-se explicar –
Que tenha os membros todos no lugar.
Seria assim para a Arte um desdouro
Tomasse um aleijão como calouro.
Pois é a sina de homem tão inválido
De ter seu préstimo à Arte, pálido.
Assim sabei que a Arte evita a mossa
E condiciona a entrada ao que possa.
O aleijado traz fraqueza ao escol
Sabereis antes deste pôr do sol

Artigo sexto

O sexto artigo manda que evite
Mestre de exceder, transpor limite
De pagamento ao aprendiz obreiro
Pagando tanto quanto ao companheiro.
Este é perfeito na Arte totalmente
E aquele não, é logo evidente.
Também seria um tanto insensato
A companheiro nivelar novato.
O mesmo artigo reza, neste caso,
Que o soldo seja, do aprendiz, mais raso
Que o do perfeito companheiro, é claro.
Algumas vezes o aprendiz ignaro
Pode saber pelo seu Mestre atento
Que o pagamento pode ter aumento
E mesmo antes do final da fase
Pode mudar o seu salário-base.

Artigo sétimo

Agora o sétimo artigo vem dispor
Que nenhum Mestre por medo ou favor
Nem quando julgue o acto oportuno,
Deve vestir e nem nutrir gatuno
Nem quem furtou aqui ou mais além
Nem o que haja assassinado alguém
E nem quem tenha a fama maculada
Se não será a Arte envergonhada.

Artigo oitavo

O oitavo artigo expõe quase um dilema
Que ao Mestre cabe resolver. Problema
Do veterano obreiro experiente
Que ainda assim se mostra incompetente.
Ao Mestre cabe excluir com rapidez
Substituindo por melhor jaez.
O nome bom da Arte é questionável
Se um negligente é tornado estável.

Artigo nono

O nono artigo direcciona ao Norte
Que o Mestre deve ser bem sábio e forte
Devendo apenas empreitar serviço
Que possa mesmo terminar com viço
Bem como dar proveito ao seu patrão
Lucrando a Arte assim por extensão.
E que o alicerce seja bem assente
Que não se mexa nem depois fragmente.

Artigo décimo

É divulgado pelo décimo artigo
Aos que praticam este ofício antigo
Que sejam unidos como irmão e irmã.
Não rivalizem em disputa vã,
Todos na Arte e o que com galhardia
Aspira ser mestre pedreiro um dia
Nem substituir um outro irmão que breve
Iniciaria o seu trabalho deve.
Castigo disto é forte o artigo ordena
Dez libras pelo menos pesa a pena
A menos que haja culpa em julgamento
De quem da obra fez delineamento
Pois que ninguém membro da alvenaria
Tome o lugar de outro com ousadia.
Excepto se malfeita a empreitada
Esteja em vias de tornar-se nada
Pode um pedreiro da obra então dispor
Intencionando o lucro ao senhor.
Afora um caso assim esteja a meio,
Nenhum pedreiro bulirá o alheio.
Pois facto é que quem começa o chão
Se for pedreiro bom, pedreiro são,
Tem bem plantada a ideia em sua mente
De esse mister findar completamente.

Artigo décimo primeiro

O artigo onze pois vos anuncia
Que é tanto justo como livre guia
Porque ensina pelo seu poder
Não se trabalhe após o anoitecer
Excepto se, silente e mais atento,
Adquira e guarde mais conhecimento.

Artigo décimo segundo

O artigo doze é grande em seu valor
Todo pedreiro seja lá quem for
A obra do colega não amaina
Se quer fazer valer a própria faina.
Honestamente aplaude o seu empenho
Trabalhos vêm por Divinal desenho.
Mas sugestões podeis lhe dar depois
Sem que disputa surja entre os dois

Artigo décimo terceiro

O artigo treze reza, ó Deus amigo,
Se um mestre tem um aprendiz consigo
Deve ensinar-lhe simplesmente tudo.
Dos pontos mensuráveis dar-lhe estudo
A fim de ser capaz e apto na arte
Por onde quer que vá, por toda a parte.

Artigo décimo quarto

Por bom motivo o artigo décimo quarto
Aponta ao mestre com um firme aceno
Que um aprendiz não deve ser tomado
Sem estar seguro o mestre e com cuidado
Que este aprendiz no seu tempo devido
Seja nos vários pontos instruído.

Artigo décimo quinto

O artigo quinze vem por derradeiro
E nele o mestre tem bom companheiro
Que ensina: nunca, agora ou nalgum dia
Deve apoiar alguém com hipocrisia
Nem de colega compactuar malfeito
Mesmo que possa obter qualquer proveito
Nem jura falsa permitir jamais
Por respeitar as almas imortais
Se não, estará a arte envergonhada
E a consciência dele maculada.

Mais Constituições

Foram ordenados ainda mais vectores
Pontos por grandes mestres e senhores.
Que quem a arte conhecer deseja
Deve amar sempre a Deus e à Santa Igreja
E ainda ame ao seu constante mestre
Estando em chão aberto ou silvestre
E amai aos companheiros ademais
É assim que a Arte almeja que façais.

Segundo ponto

Diz o segundo ponto em cabeçalho
Que o bom pedreiro se afinque ao trabalho
Com aptidão, de facto e com cuidado
Podendo assim folgar remunerado.
Se ao seu trabalho assim se empenhar
Irá granjear repouso regular.

Terceiro ponto

São do terceiro ponto as directrizes
Que devem bem saber os aprendizes:
Ao mestre ouvir com toda discrição
E ao companheiro de boa intenção;
Não trair quem de zelos se despoja
Nem divulgar o que acontece em loja.
O que virdes ou ouvirdes em privado
A homem nenhum contai, ficai calado;
Da sala ou pérgula os planos mesmo
Por vossa honra não faleis a esmo
Que a culpa se falhardes não se abrande
E a Arte sofra uma vergonha grande.

Quarto ponto

Do quarto ponto o ensinamento parte
Que a falsidade não permeie a arte;
Que homem algum nunca mantenha erro
Que prejudique a arte e com aferro
Não irá com os mestres ser discricionário
Nem com os companheiros arbitrário;
E mesmo os aprendizes assustados
Estão também à regra obrigados.

Quinto ponto

O quinto ponto é muito verdadeiro.
Diz que o salário pago ao pedreiro
Por determinação do mestre, com cuidado
E modo manso deve ser pegado;
E o mestre vai lhe premiar o mister,
Segundo a lei, antes de outro qualquer
Se achar que não mais logra serventia
E despedi-lo do emprego um dia;
Que esta ordem seja bem cumprida
Se o mestre almeja progredir na vida.

Sexto ponto

O sexto ponto deve ter acato
Do graduado até o mais novato.
Um caso assim pode perfeitamente
Dar-se com pouca ou com muita gente.
Inveja ou ódio acontecedeiros
Produzem desavenças nos pedreiros.
Então o pedreiro deve, se possível,
Adiar a luta a um prazo definível;
Mas não se meter numa justa bruta
Sem terminar jornada de labuta;
Em dia de folga existe, pela agenda,
Tempo de sobra para ajustar contenda,
Se não, atrasa o dia de labores
Devido à altercação de contendores;
Sustados devem ser com tal rotina
Que fiquem bem perante a lei divina.

Sétimo ponto

O sétimo ponto bem nos apregoa:
Deus nos concede vida longa e boa
Pois claramente diz que não devais
Deitar com a esposa do mestre jamais,
Nem com a do companheiro, é infactível,
Se não, a arte vos vê desprezível;
Nem com a manceba dele, vede o mal
Se ele fizesse ele com a vossa igual.
A pena deve, assim, ser garantida
Ser sete anos aprendiz na vida.
Se for burlado um ano deste fado
Merecerá então ser castigado;
Pode iniciar problema abissal
Um feito tal, pecado assim mortal.

Oitavo ponto

O oitavo ponto pode estar seguro,
Se ao vosso mestre fostes fiel e puro
Por vosso empenho então por este ponto
Jamais tereis futuro desaponto.
Devei ser verdadeiro mediador
Para os colegas livres e o mentor;
Fazei de tudo para os dois, de facto,
É o modo bom de agir, correcto e exacto.

Nono ponto

O nono ponto vai chamar-se agora
De prestimoso pelo templo afora.
Se fordes juntos ao salão é certo
Que um serve ao outro com sorriso aberto.
Somente vai quem é gentil, galante,
Ser prestimoso em posição constante,
Integralmente, com alma soberana,
Manter-se assim semana após semana,
Servindo ao outro com terna atenção
Como se fosse sua irmã ou irmão.
Ninguém irá cobrar por fainas tais,
Não deve haver proveito ou custo a mais,
Cada um terá uma liberdade afim
E o custo em pauta deve ser assim.
Tende certeza de outorgar provento
A quem vos vendeu qualquer alimento
Para evitar que sejais denunciado
Ou companheiro vosso, delatado.
Pagai a todos, homem ou mulher,
Bastante e o justo, é assim que a Arte quer.
E a quitação pegai escrita e pronta,
Do companheiro a quem pagais a conta
Se não, irá desonra ao companheiro
E a vós enorme culpa por dinheiro.
Pois deve contabilizar direito
As boas coisas que ele tem aceite.
Dos bens do companheiro prestativo
De como e onde e para que objectivo
Deveis dar conta de cada detalhe
Quando quiserem, sem qualquer encalhe.

Décimo ponto

O décimo ponto mostra quem desfruta
Da boa vida sem cuidado ou luta;
Pois se o pedreiro vive erradamente
E no trabalho é falso, certamente
Por falsos actos tais e sem motivo
Difama o singular ou o colectivo;
Por repetido, o falso, a detracção,
Pode a Arte vir ter má reputação.
Se à Arte faz assim tal vilania
De vós não deve ter mais cortesia,
Nem ser mantido em seu viver perverso
Mas à cautela e ao vigor converso.
Não o retardeis, contudo, em seu estilo
Excepto a fim de sempre constrangi-lho
A aparecer, dizei em qualquer lado,
Aonde queirais, falando ou bem calado;
Na reunião seguinte dos pedreiros
Deve postar-se ante os companheiros
E a menos que ele surja por sua parte
Ante eles, deve abjurar a Arte.
Da assembleia deve vir castigo
Segundo a lei fundada em tempo antigo
Depois, a pena deve ter tamanho
Determinado pelas leis de antanho

Décimo primeiro ponto

É o décimo primeiro ponto tino entre as leis
Por bom motivo, assim percebereis.
Pedreiro em quem a habilidade medra
E enxerga o companheiro a cortar pedra
E vai estragar a pedra certamente
Se pode, deve agir incontinenti
E ensiná-lo a corrigir o lapso
Para a lida toda não sofrer colapso.
Mas sede manso ao ensinar melhora

Deus deu a fala, usai a que adulçora
Por Seu amor, por Quem se assenta acima
Com fala branda ireis nutrir a estima.

Décimo segundo ponto

Décimo segundo ponto é o da soberania.
Na assembleia desta alvenaria
Vai haver mestres lá e monitores
E muitos outros bem grandes senhores.
Estará o xerife lá, com dignidade,
Assim também o prefeito da cidade,
Fidalgos e cavalheiros haverá
E outros vereadores, vereis lá.
As leis que fazem ali vão ser mantidas

Com vigilância, sempre reunidas
Contra quem for, quem que, fazendo parte
Equitativa e justa desta Arte
Tiver contra elas qualquer colisão
Será, a rigor, mantido em detenção.

Décimo terceiro ponto

O décimo terceiro ponto é muito minhão
Vós jurareis nunca sereis ladrão
Nem acudireis este labor abjecto,
Nem quem furtou qualquer bem ou objecto,
Sabendo vós do vício e da pilhagem,
Nem para o bem dele nem de sua linhagem.

Décimo quarto ponto

O décimo quarto ponto é um ponto exacto
A quem a lei deve temer de facto.
Deve jurar sincero entrementes
Ao mestre e companheiros lá presentes
Deve manter-se fiel ao juramento
E obedecer sempre ao regulamento
E ao superior, ao seu senhor, o rei
Acima de tudo fiel permanecei
E aos pontos todos com anterioridade
Deveis já ter jurado de verdade
Todo o pedreiro jura e é capaz
Se a lei odeia ou ama tanto faz
Por todos os pontos que até o momento
Foram ordenados por ensinamento
E cada um terá inquirição
Da melhor forma, em seu grupo então
Se nele há culpa alguma, observar,
De qualquer um dos pontos singular,
Seja quem for. Que seja inquirido
E à assembleia seja conduzido
Seja quem for. Que seja procurado
E à assembleia seja encaminhado

Décimo quinto ponto

O décimo quinto ponto muito bem ensina.
Aos que juraram todos lá com guina.
Foram aprovadas várias leis rupestres
Por mencionados senhores e mestres;
Para que os que forem desobedientes

Contra os artigos feitos e exigentes
Pelos senhores e pedreiros juntos.
Se, abertamente, a culpa for provada
Perante a assembleia agregada
E não houver sequer reparação
À Arte devem renunciar então.
E dar recusas incondicionais,
Devem jurar usá-la nunca mais
Se a culpa não emendarem por sua parte
Não poderão mais conviver com a Arte.
E se isto não fizerem assim, de facto
O xerife irá a eles de imediato

Levando à masmorra e à lamúria
Seus corpos, por fazerem tal injúria,
E irá tomar seus bens usando a lei
Passando tudo para as mãos do rei.
Que fique quieto cada um, sepulto,
Até que o rei senhor aponha o indulto.

Outro regulamento da arte da geometria

Foi decidido o encontro concional
Onde quisessem e fosse anual,
Para corrigir as falhas incivis
Por toda a Arte havida no país.
Anual ou trienal seria interesse,

Em qualquer sítio que apetecesse;
Teriam lugar e hora promulgados,
A qual lugar seriam convocados.
Estariam lá todos na Arte estáveis
Bem como alguns senhores respeitáveis,
Para emendar erro lá referido
Se algum tivesse sido cometido.
Deveriam lá fazer o juramento,
Os que pertencem à Arte e ao ensinamento
Para manter de modo draconiano
As leis dispostas pelo rei Atelstano:
‘Os estatutos que eu aqui fundei
Quero cumpridos por respeito ao rei,
Por todo o reino, ao extenso e ao largo,
Pelo respeito ao meu alto cargo.’
A cada encontro ordinário ou extremo
Que venham ter ao vosso rei supremo
Rogando à sua graça e altivez
Que vos confirme cada ponto e vez
Dos estatutos seja o baluarte
Que por boa causa o rei dispôs à Arte.

Ars quatour coronatorum (A arte dos quatro coroados)

Que estes artigos guardemos transuntos
E esses pontos também todos juntos
Tal qual os quatro mártires sagrados,
Que foram na Arte muito bem honrados;
Sobre pedreiros levavam vantagens.
Também gravavam e fabricavam imagens.
Porque ser cada um melhor trabalhador
Apreciava-os muito o imperador;
Quis que fizessem imagem em altar,
Que ele mandasse o povo adorar;
Pois fomentava então a idolatria
Atrair fiéis de Cristo assim queria.
Porém a lei de Cristo estava assente,
Também a Arte, indubitavelmente;
A Deus amaram e à Sua lição, com viço
E estiveram sempre a Seu serviço.

Homens de facto, eles foram alguém
E assim na Lei de Deus viveram bem;
Esculpir ídolos, um desprazer
Por pagamento algum a receber
Substituir Deus por idolatria;
Não o fariam, e ele* se enfurecia
Da fé, nenhum seria um desertor

Por crer na falsa lei do imperador.
O imperador com alma furibunda
Mandou prendê-los em prisão profunda;
E quanto mais tortura havia atrás da aldrava,
Estando em  Cristo, mais prazer lhes dava.
E quando viu que a fé lhes era forte,
Ele ordenou que fossem para a morte.
Quem quer saber do feito insubmisso,
No livro vai poder descobrir isso,
Na lenda dos santos estão referidos,
Dos quatro mártires os nomes sofridos.

Aqui haverá reunião alegre e cantos,
No oitavo dia após Todos os Santos.
Pode-se ouvir, e li em encontro fortuito
Que, após decénios questionando muito
O fim do Dilúvio, com uma cerimónia
Foi começada a torre babilónia
Numa planície, cal e pedra mista,
Podendo ser de qualquer lado vista.
Foi começada qual largo farol.
Por sete milhas sombreava o sol.
Rei Nabucodonosor a fez
Em honra ao homem, então, com solidez,

Embora estando o mundo à enchente atreito
Não deveria submergir tal feito;
Por tal jactância e orgulho atrevido
Todo o labor ficou então perdido;
Um anjo fez das línguas anarquia
E um não captava o que o outro dizia.
Muito depois, Euclides, o ambulante,
A geometria propagou distante.
Também instruiu temas adicionais
E várias artes outras, muitas mais.
Pela alta graça e por ser cristão,
Com as sete ciências começou então:

Gramática é a primeira, certamente,
Dialéctica, a segunda, fatalmente,
Retórica, eu vos digo, é a terceira
A quarta é a música, sem brincadeira,
A quinta, eu garanto, é astronomia,
Sexta, aritmética, com maestria,
Geometria, a sétima é afinal,
Pois sempre será dócil e cordial.
É a gramática a raiz de facto
Para quem no livro seja um novato;
Porém a arte em grau é mais feliz
Tal como a fruta o é com sua raiz;
Retórica adorna amiúde a alocução

E a música é uma doce canção;
A astronomia conta, meu bom mano,
A aritmética corrige o engano.
Na geometria, a sétima ciência,
Genuíno e falso mostram a dissidência.
Estas são as sete ciências, já aviso
A quem usá-las bem, o paraíso.
Agora, crianças, com vossa certeza,
Deixem de orgulho e da vil avareza,
E obedecei à boa discrição,
E onde fordes, à boa educação.
Agora eu peço atenção a mais,

Pois grandemente disto necessitais.
Mas muito mais noção vos exigi
Do que encontrais narrado e escrito aqui
Se está escasso o vosso conhecer,
Orai a Deus para vo-lo remeter;
Porque o próprio Cristo ensina aos seus
Que a igreja é a casa sagrada de Deus,
Que é feita para mais nenhuma cena
Além de orar, assim o livro ordena.
Lá dentro formam-se aglomerados
A fim de orar e lamentar pecados.
Cuidai de não vos atrasar à igreja
Que ocorre a quem ao caminhar, doideja.

Então ao ir à igreja tende em mente
O honrado intento, sempre e mais crescente
De venerar o Senhor noite e dia,
Com o pensamento e toda a energia.
Quando chegais da igreja à portada,
Tomai um pouco ali da água sagrada.
Pois cada gota tem o potencial
De extinguir pecado venial.
Porém arriai primeiro o capuz
Mostrando amor ao que morreu na cruz.
Quando adentrardes a igreja pensai nisto
Logo elevai o coração a Cristo.

Então olhai a cruz da redenção,
Com os dois joelhos prostrai-vos ao chão;
E orai que Ele a faina então proteja
Segundo a própria lei da Santa Igreja,
Mantendo com piedade os mandamentos
Que Deus brindou a todos, seus rebentos
Rogai a Ele em tons bem moderados
Para resguardar-vos dos sete pecados.
Assim podeis, na vida diminuta,
Manter-vos longe de cuidado e luta;
E que, além disso, vos conceda a graça
Do assento etéreo, ventura sem jaça.

Na igreja santa largai das palavras
Da fala ignara e vossas sujas lavras,
Abandonai também toda a ufania,
E bem rezai Pai Nosso e ave Maria;
Cuidai também de não fazer barulho,
Porém orai incessante, sem orgulho.
Não desejando orar ao Rei dos reis
De modo algum outro homem perturbeis.
Piedosamente, com veneração,

Não titubeeis, sentai, ajoelhai no chão.
Quando o evangelho então for proferido,
Ficai distante da parede, erguido,
E respeitosamente abençoai-vos,
Quando do gloria tibi houver laivos;
Podeis de novo vos ajoelhar
Por seu amor que faz admirar.
Quando chegar ao fim do evangelho
Possais dizer então ‘eu me ajoelho’.
Quando tilinta da sineta o canto,
Anunciando o sacramento santo,
Ajoelhai, o jovem e o senescente,
E elevai as mãos sinceramente,
E dizei então de modo parecido,

Com reverência suave, sem ruído:
‘Senhor Jesus, bem-vindo à ocasião
Em que vos vejo, em formato de pão!
Jesus, com o vosso nome consagrado,
Escudai-me do opróbrio e do pecado;
Dai-me o Perdão e a Santa Eucaristia.
Antes que eu saia desta liturgia,
E contrição para meus pecados reles
Assim, Senhor, que eu nunca morra neles;
Sejais, embora, da virgem nascido,
Que eu nunca sofra por estar perdido;
Mas quando me vier a acontecer o fim,

Ventura eterna concedei a mim;
Amém! Amém! Que assim seja, meu Pai!
Ó doce dama, por mim suplicai.’
Diríeis palavras tais ou um suplemento,
Quando ajoelhardes para um sacramento.
Nada poupeis se almejais o amor,
A fim de venerar ao Criador;
Porque feliz o homem ficaria
Quando pudesse vê-Lo a cada dia;
Disto não há dúvida que vale tanto,
Que homem nenhum pode dizer o quanto;
Mas faz tão bem essa visão divina

Santo Augustinho diz em sua rotina,
Que quando o corpo de Deus enxergardes,
Tereis o que se segue sem retardes: –
Útil bebida e comedoria,
Irá faltar-vos nada nesse dia;
De vã palavra e juramento vão
Deus Pai concede-vos também perdão;
A morte nesse dia assim, não mais,
Não ouse vos atormentar jamais;
Nem nesse dia, já vos dou o sinal
Ireis perder vosso órgão visual;
E cada pé com que avançais então

A fim de ver a santa e boa visão,
Imobiliza-se por tempos prolixos
Quando quiserdes que eles fiquem fixos.
O mensageiro, Gabriel arcanjo,
Manterá vossos pés com esse arranjo.
Agora ponho um fim a esta premissa,
Para dizer de mais prémios da missa;
Podendo, vinde para a liturgia,
E assisti à missa a cada dia;
Se não podeis chegar ao tabernáculo,
De onde o trabalho torna-se um obstáculo,·.
Quando ouvirdes que o carrilhão badala,

Com coração suave que a Deus fala,
Pedi possais à missa estar presente,
Que é celebrada na igreja somente.
Ainda mais, vos instruirei roteiros
Para ensinardes vossos companheiros,
Quando chegardes diante de um senhor,
No arvoredo, mesa ou corredor,
Tirai o barrete, ficai descoberto,
Ainda antes de chegar mais perto;
Duas, três vezes, sem vacilação,
A esse senhor deveis genuflexão;
Que seja feita com o joelho direito,

Assim salvai vossa honra e respeito.
E da cabeça conservai a nudez,
À permissão de cobri-la outra vez.
Durante o tempo em que com ele falardes,
De queixo erguido, não façais alardes;
Assim, segundo o livro apontável,
Que em sua presença sejais agradável.
Firmai mão e pé, parado e submisso,
Para não arranhar nem tropeçar, por isso;
Também cuspir e fungar evitai,
Privadamente os mucos liberai.
Assim tereis prudência e discrição.

Necessitais mandar na emoção.
Quando adentrardes salas respeitáveis
Entre os fidalgos urbanos e afáveis,
Não presumi que sejais sumidade,
Por vosso sangue ou sagacidade.
Nem para sentar, nem para vos apoiar,
É um limpo e bom conselho a observar.

Não vos permiti afrouxar postura,
A educação mantém a compostura.
Quaisquer que sejam o pai e a mãe de alguém,
Bem está o filho que prospera bem,
Na câmara, no salão, por onde assomem,

Bons modos tragam bom conceito ao homem.
Olhai para o grau seguinte sabiamente,
Para saudá-los individualmente;
Assim, saudei-os nunca em sucessivo,
A menos que saibais o vocativo.
Quando estiverdes com o alimento à frente,
Comei, pois, digna e correctamente;
Limpai as mãos conforme o bom costume;
E tende faca afiada e de bom gume;
E com a comida o pão será partido,
Como será certamente comido.
Se sentardes ao lado de um superior,

A vós e disso bem sois sabedor
Rogai que coma em primeiro acto
Antes que tragais a comida ao prato.
O melhor bocado buscareis jamais,
Do qual o gosto tanto apreciais;
As mãos correctas afastai sem falha
Para evitar as nódoas na toalha.
Não assoeis do nariz nela a impureza,
E os dentes não espaliteis à mesa.
Não afundeis demais na taça a vista,
Embora a ânsia de beber exista.
Se não, cada olho lacrimejaria –

E faltaria, então, a cortesia.
Cuidai que a boca esteja sem comida,
Quando iniciardes fala ou bebida.
Se algum dos homens estiver bebendo,
Que esteja atento então ao vosso adendo,
Se bebe vinho ou cerveja no acto,
Cessai vossa história de imediato.
Cuidai de não vos tornar um irrisor,
Não importa o quão grotesco que ele for;
Nem depreciar qualquer habilidade
Se desejardes manter a dignidade;
Pois expressões poderiam exalar

Que tristemente iriam vos culpar.
Fechai a mão com força, tomai tento,
E afastai-vos do arrependimento.
No quarto entre damas a rutilar,
Calai a boca e desperdiçai o olhar;
Não riais com brados fortes, nas alturas,
Nem inicieis obscenas travessuras.
Brincai apenas com vossos iguais,
Não relateis tudo o que escutais;
Não mencioneis vossa proeza extensa,
Nem por deleite e nem por recompensa;
Com fala amena podereis conseguir,
Com ela também podereis vos destruir.

Se encontrardes um homem de mais luz,
Acto contínuo removei o capuz;
Na igreja, no mercado, ou quarteirão,
Reverenciai conforme a posição.
Se andardes com um homem superior
Ao que sabeis que tendes de valor,

Dele devei andar na retaguarda
Pois essa é uma posição galharda.
Quando ele falar, calai no entremeio,
E ao final, dizei o vosso anseio;
Sede robusto no falar ad rem,
E o que disserdes pensai antes bem;
Mas não lhe surripieis a história andeja,
Bebendo vinho ou talvez cerveja.
E Cristo por sua graça e alto assento,
Que vos proveja de tempo e talento,
Para deste livro ter completo aviso,
Recompensado pelo paraíso!
Amém! Amém! Que assim seja verdade!
Vamos dizer com toda a caridade.

Tradução de Sérgio da Silva Costa

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