Pinóquio – um conto Maçónico

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pinóquio

Atendendo ao pedido que me foi dirigido, por um antigo Venerável Mestre, – estávamos nos Ano de 6008 -, para que apresentasse um trabalho sobre a “Carbonária em Portugal, e suas implicações na Maçonaria em geral”, Considerei após uma busca de dados e elementos históricos, e mercê de um profundo trabalho de investigação, que todos os factos, por que, bastante discutidos e escalpelizados, não poderiam trazer à estampa dados de relevância, que já não fossem sobejamente conhecidos de todos os Irmãos, e se essa relevância existisse, ela de certeza recairia em ombros de Irmãos, mais conhecedores do tema, ou com maiores capacidades investigacionais, que de todo me estavam vedadas.

Quer isto dizer que não iria falar do tema, tal como me foi proposto pelo nosso Venerável?

Não… Nada disso…

Vou falar sim, mas de uma perspectiva totalmente diferente, sobre a relação não só da Carbonária, como da aproximação com a maçonaria florestal e a maçonaria Especulativa, naquilo que as une transversalmente, (um elemento novo se assim se pode chamar), – o dos contos infantis – que encerram elementos exotéricos e mensagens ocultas numa leitura superficial, mas fervilhantes de ensinamentos esotéricos e mensagens subliminares e morais de transformação, assim se conheçam com algum rigor, a vida e obra do seu autor, o meio político e social que rodearam a feitura do mesmo, as fontes que lhe modelaram o conhecimento e finalmente se aprofunde a composição em si.

E se algum desses contos melhor espelha o que atrás ficou dito, esse conto é.

“As aventuras de Pinóquio”

Este apólogo é daqueles que encerra uma preciosa quantidade de símbolos, que se adaptou a quase todas as culturas e é conhecido por milhões de pessoas, ainda que poucas saibam que se trata de uma criação Maçónica.

Ele aparece no fervilhar Carbonário da Florença de 1826, na nova Itália unificada com os ideais de grandes líderes como Garibaldi e Mazzini, este ultimo um Grão Mestre da Carbonária Italiana.

Quem lhe deu vida foi Carlo Lorenzini, mais conhecido por Carlo Collodi, que nasceu em Florença em 24 de Novembro de 1826.

A sua formação é trespassada pelos ideais políticos da doutrina liberal de Giuseppe Mazzini, o grande líder da Itália unificada.

É importante entendermos a época e os agentes modeladores das grandes transformações sociais, para além de concebermos as alterações espirituais que na altura se infiltravam em toda a estrutura humana independentemente da classe social.

Nesse sentido, ele agrega na sua obra, tal como sempre preconizava Mazzini, e de quem Collodi se declarava “Discípulo apaixonado”, uma componente filosófica que levasse os leitores a adquirirem uma consciência do bem, e simultaneamente fosse um veículo de educação e cultura.

O Papa tinha sido “enclausurado” no Vaticano, o pouco que restava dos enormes estados pontifícios, criando um profundo mal estar espiritual, levando alguns grandes pensadores a admitirem o ressurgimento de uma nova filosofia que unisse a Maçonaria com os elementos da cristandade, a Igreja com as sociedades secretas, em especial a Maçonaria Florestal, bem presente na vigência da Carbonária.

É neste conturbado contexto italiano, que aparecem “As Aventuras de Pinóquio”, publicadas pela primeira vez em 1881, num periódico o “Giornale per i bambini”, em pequenos capítulos, com o titulo inicial da “Storia di un burattino” (História de um boneco).

Numa análise rápida e objectiva do conto, deparasse-nos logo em primeira mão, uma apologia à educação do povo e uma denúncia quer ao vício quer à ociosidade. Todavia se olharmos com maior acuidade e debaixo de uma maior exegética, aquilo que destrinçamos é a própria alma humana e a sua viagem pelos processos da evolução espiritual.

Gepetto, carpinteiro de profissão”, curiosamente a mesma de José, tinha desejado durante toda a sua vida, um filho (desejo real).

Mestre Cereja, velho marceneiro, tinha detectado características humanas num pedaço de lenha, e sabendo dos desejos de Gepetto em ter um filho, dá esse pedaço de madeira ao seu velho amigo, que o transforma em marionete.

Certo dia ao ver brilhar uma estrela azul no céu, fica tão perturbado por aquela visão, que com um fervor quase doentio pede àquela mesma estrela que lhe conceda um filho (contacto com um elemento superior). Naquela noite enquanto Gepetto dormia, uma Fada Azul aparece na sua oficina, e dá vida à marionete do carpinteiro, chamando-lhe à atenção de que se devia portar bem, para poder um dia vir a ser um menino de verdade.

Para que ele sempre soubesse comportar-se nomeou o grilo Pepito como o elemento da consciência de Pinóquio (o nome do boneco).

Uma vez mais o simbolismo está presente, na sua vertente esotérica, já que o nascimento de Pinóquio deriva de duas entidades, uma masculina Gepetto e outra feminina, a Fada Azul. Estamos perante a dualidade. Por outro lado ao evidenciar o homem como uma coisa de madeira, remete-nos para algo que precisa ser esculpido. Estamos perante o Aprendiz.

O boneco de madeira tem agora vida, viu a luz, porém ainda se apresenta carente de moral, inculto para a consciência objectiva. Ainda que tenha a seu lado o grilo Pepito, o Companheiro, que tenta ser a voz da razão, a consciência externa, é normalmente agredido por Pinochio (Sempre a conduta do indivíduo tende para o mal, ainda que a consciência da verdade e da razão, consubstanciada na dignidade acompanhe o ser humano).

Pinóquio tinha, uma certa forma de vida, porém carecia de livre arbítrio pois estava como que adormecido. Desconhecia que quer para o caminho da virtude, quer para o curso da libertação, não passava de um “zumbi” ou morto-vivo, nome dado por alguns esoteristas como Gurdjieff e Blavatsky, aos profanos que parecendo vivos na realidade estão adormecidos para aquilo que os rodeia curiosamente o que hoje acontece com a maioria dos seres humanos. Seguem os caminhos que se apresentam mais facilitados, não se apercebendo que com algum trabalho e proficuidade se iriam deparar com benefícios substancialmente diferentes e melhores.

Numa análise psicanalítica, percebe-se a focalização e a necessidade do homem se libertar do vestígio de “marionete”, saindo do seu egocentrismo, e tornando-se assim uma pessoa melhor.

Em sentido alegórico podemos aqui notar diferenças substantivas, entre a pedra bruta e a madeira, qualquer dos elementos podia ter servido como essência à semivida de Pinochio, todavia a madeira pertence a um Reino superior ao mineral, e essa é uma das diferenças entre a Maçonaria Florestal e a Maçonaria dos Pedreiros-livres.

Quando Pinóquio sai ao Mundo, para ir frequentar a escola (Processo de aprendizagem permanente que deve reger toda a vida do maçon), sai com o intuito de se tornar um menino de verdade, porém ao fazer uso da sua liberdade recém-descoberta, ele envereda por muitos erros e sucumbe perante a tentação do orgulho. (estamos perante o indivíduo despreocupado do certo ou errado, que age de acordo com aquilo que lhe dá vontade, preocupando-se exclusivamente com a sua satisfação imediata).

Ainda que Pepitto, – a sua consciência -, o advirta e proteste Pinóquio em vez de ir para a escola, segue João o Honrado, que o alicia a ir representar numa companhia de circo (vendo este uma boa oportunidade de fazer grandes lucros com o boneco e aquele de rapidamente se tornar rico). Após a sua representação no circo recebe aplausos o que o deixa muito contente, só que depois da sua actuação é encerrado numa jaula onde sofre  todas as humilhações.

(Quando nos deixamos levar pelo orgulho do “EU”, podemos sentir muito jubilo no imediato, mas com o tempo iremos sentir dor, porque escravizamos os nossos mais profundos sentimentos).

A Fada Azul, ao vê-lo fechado vem em seu socorro e pergunta-lhe a razão de estar fechado numa jaula, ao que ele tenta justificar com uma grande quantidade de mentiras, que por obra mágica lhe fazem crescer o nariz, e noutra ocasião orelhas de burro. (Na realidade a vida desregrada e a mentira constante, levam a um retrocesso evolutivo, percebendo-se aqui que o crescimento do apêndice nasal reflecte a ligação terrena à materialidade.)

Vezes sem conta Pinochio, trilha o princípio do prazer, afastando-se da condição humana e raiando constantemente a animalização.

Uma e outra vez ele recolhe aquilo que semeia. As suas acções levam-no a uma vida de desgraça e miséria, pagando com sofrimento o Karma gerado. (Os caminhos da discrição e da meditação que o profano deve percorrer, para chegar ao principio da realidade, num processo de desenvolvimento e amadurecimento).

Quando a vida já não podia ser mais dura e insuportável, ele é engolido por uma baleia.

O interior da baleia, nada mais é que a representação dada por Collodi à Câmara de Reflexão Maçónica, à descida ao centro da terra entronizado na simbologia do VITRIOL. Curiosa analogia, se recordarmos MATEUS 12:40: “Porque como esteve Jonas no ventre do grande peixe, três dias e três noites, assim estará o filho do homem no coração da terra três dias e três noites”. O filho do homem, que igual que Pinochio era filho de um Mestre carpinteiro. Estamos perante a Morte Mística.

À luz da vela, Pinochio medita sobre a sua sorte e decide definitivamente mudar, deixando para trás um passado de inconsciência. (A baleia representa aqui o animal marinho antigo símbolo da reconciliação do espirito e da matéria)

Finalmente a marionete é expulsa pela baleia e sai a mar aberto, actuando o mar como elemento purificador (Baptismo), limpando interna e externamente Pinóquio. (O mar de Bronze).

Pinóquio, não sobrevive à fúria do oceano e acaba por se afogar, tentando salvar seu pai Gepetto.

Este ao acordar na praia para onde foi atirado vê a seu lado o filho sem vida, e num acto de desespero leva-o para casa e deposita-o sobre a cama onde renasce para a vida como humano, mercê da sua modificação comportamental e ao seu acto no salvamento do pai.

Estamos aqui perante a morte mística, do profano ao Iniciado.

Esta história magistral de Carlo Collodi é em síntese a narrativa de Pinóquio, consubstanciada nas desventuras do “boneco” profano que não pode controlar o seu destino, pois é escravo das suas paixões e o seu renascimento como humano Iniciado. É também noutra vertente, o símbolo do nosso desenvolvimento espiritual.

Quando Pinóquio finalmente num acto desinteressado, dá a sua vida para salvar a vida de seu pai, é a representação da saída do egocentrismo para a entrada triunfal e início do princípio escatológico da realidade, é em suma o Fénix da exaltação.

Fénix, Loja Gnósis

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2 thoughts on “Pinóquio – um conto Maçónico”

  1. José Faustino

    MAI:. Fénix.
    Muito bem lembrada a história do Pinóquio, penso que estava nessa sessão.
    Infelizmente continuamos cheios de Pinóquios, porém daqueles que nunca atingem a capacidade de renascer,talvez porque não precisem,”Nos tempos que correm” Bem hajas.
    Gil Vicente

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