Três olhares sobre Deus, fé, ciência e razão
“Nos seus estudos o Maçom deve ser guiado pela RAZÃO, AMOR e FÉ”
Albert Pike
Um dos equívocos mais arraigados, no senso comum moderno, é ver a religião como algo fundado em factores exclusivamente subjectivos, sem nenhuma relevância intelectual. Assim, ela seria reduzida a crenças sem fundamentos ou a um mero sentimento interior, confinando-se, portanto, ao domínio do irracional. Na religião, não haveria o que se pensar, aprender ou saber.
É preciso que se diga, no entanto, que tal concepção equivocada tem as suas causas históricas e sociais, e que também é própria não apenas dos seus inimigos, mas também de pessoas que se consideram sinceramente religiosas, no entanto, acreditam que a religiosidade é isso mesmo: uma fuga da realidade para um mundo de fantasia, uma exaltação do sentimentalismo em detrimento da racionalidade.
Uma religião é mais do que apenas um código divinamente inspirado na moral. A religião além de ensinamentos de moral, traz-nos revelações sobre um plano além do material.
Diferentes religiões possuem diferentes abordagens ao que há nesse e em outros planos, explanar sobre todas essas interpretações resultaria em material suficiente para um livro, o que não é nosso propósito.
Uma pessoa religiosa é uma pessoa inspirada a viver de forma mais nobre de acordo com este código de moral, tendo este como a sua fonte de iluminação.
O Concílio do Vaticano I (1870), definiu a fé nos seguintes termos:
“A fé… é uma virtude sobrenatural pela qual, prevenidos e auxiliados pela graça de Deus, cremos como verdadeiro o conteúdo da Revelação, não em virtude da verdade intrínseca (evidência) das proposições reveladas, vistas a luz natural da razão, mas por causa da autoridade de Deus, que não se pode enganar nem pode enganar a nós”.
O Concílio do Vaticano II, em 1965, também se pronunciou:
“Ao Deus que revela, deve-se a obediência da fé, pela qual o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando ao Deus revelador um obséquio pleno do intelecto e da vontade e dando voluntário assentimento à revelação feita por Ele”. (Constituição Dei Verbum nº 5)
A fé e a razão, fides et ratio (em latim) “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer ao Criador, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”. (JOÃO PAULO II, 1998)
O homem sempre buscou compreender a origem e o destino de si e das realidades que o circunda. Esta inquietude pela busca da verdade motivou os primeiros filósofos pré-socráticos a buscarem a arché [1], o princípio originário e substancial de todas as coisas, identificando-o com elementos da natureza e existentes em todas as coisas (CARVALHO, 2006).
Quanto mais o homem conhece a realidade, o mundo, a si mesmo, maior se tornam os seus questionamentos com relação ao sentido das coisas e da sua própria existência.
Portanto a razão, por si só, não satisfaz o espírito curioso, instigador, contemplativo e activo do homem. É, pois, necessário ir além do empírico, das aparências, e mergulhar na essência da pessoa humana, na sua dimensão espiritual e material.
A busca da verdade deixa de ser uma busca por algo fora de si, e passa a ser uma experiência de autoconhecimento e de desbaste da pedra bruta.
[…] a fé faz-nos crer em coisas que nem sempre entendemos pela razão: creio tudo o que entendo, mas nem tudo que creio também entendo. Tudo o que compreendo conheço, mas nem tudo que creio conheço. (SANTO AGOSTINHO, De Magistro, p.319, CARVALHO, 2006)
Ambas, fé e razão buscam apresentar a verdade, mas o que é a verdade?
Em grego, a verdade (aletheia) significa aquilo que não está oculto, o não escondido, manifestando-se aos olhos e ao espírito, tal como é, ficando evidente à razão.
Em latim, a verdade (veritas) é aquilo que pode ser demonstrado com precisão, referindo-se ao rigor e a exactidão. Assim, a verdade depende da veracidade, da memória dos detalhes.
Em hebraico, a verdade (emunah) significa confiança. É a esperança de que aquilo que é será revelado ou irá aparecer por intervenção divina. Em outras palavras, a verdade é convencionada pelo grupo que possui crenças em comum.
“No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus” (João 1,1). Assim consta no original grego do Evangelho segundo São João. “Logos” se traduz por verbo, mas também por razão.
Tem-se, portanto, uma importante relação entre a razão e o acto de crer, pois como o homem acreditaria na revelação divina se não fosse possível conhecê-la de forma intelectiva, abstracta e conceitual?
A fé encontra-se em dupla dimensão, divina e humana. Ela ao mesmo tempo é um dom de deus e também, uma faculdade humana. “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem”. (Hebreus 11:1.3)
Sendo assim percebemos que cada indivíduo tem a sua verdade de acordo com a sua fé, mas acima de tudo, existe A VERDADE, que só ao criador compete.
A fé na Maçonaria
Ao contrário do que muitos pensam, não há um deus maçónico, os maçons permanecem comprometidos ao deus da religião que professam.
Portanto, a Maçonaria não é indiferente às religiões, pois sem interferir na prática religiosa, ela espera que os seus membros sigam a sua própria fé, seja ela qual for, por isso a obrigação do candidato deve ser sempre tomada sobre o livro ou livros sagrados da sua religião, qual seja que considere mais solene e obrigatório.
O objectivo da Maçonaria como ciência especulativa é a investigação das verdades divinas. Desde o momento da sua iniciação como aprendiz, até o tempo em que recebe a frutificação completa da luz maçónica, o Maçom é um investigador cuja recompensa é a verdade, e todas as cerimónias e tradições da ordem tendem para esse objectivo final.
O nosso 19° Landmark diz “A crença no Grande Arquitecto do Universo é um dos mais importantes Landmarks da ordem. A negação dessa crença é impedimento absoluto e insuperável para a iniciação. ”
No 20° Landmark temos: “Subsidiariamente à crença no Grande Arquitecto do Universo, é exigida a crença em vida futura. ”
Vemos então que a crença num princípio criador, seja qual for o nome e a sua origem, assim como a crença na imortalidade da alma, são obrigações do Maçom, pois apenas através da dissolução do ego e consequentemente, do invólucro tridimensional que chamamos de corpo, que seremos capazes ascender a planos superiores.
O Landmark seguinte, o 21° consta: “É indispensável a existência, no altar, de um livro da lei, o livro que, conforme a crença, se supõe conter a verdade revelada pelo Grande Arquitecto do Universo. Não cuidando a Maçonaria de intervir nas peculiaridades da fé religiosa dos seus membros, esse livro pode variar de acordo com os credos. Exige, por isso, este Landmark que um “livro da lei” seja parte indispensável dos utensílios de uma loja.”
“O livro da lei é para o Maçom especulativo a sua armação mestra; sem ele não pode trabalhar; aquilo que acredita ser a vontade relevada do Grande Arquitecto do Universo constitui a sua armação espiritual; e deve estar sempre diante dos seus olhos nas horas do seu trabalho especulativo, para ser a regra e directriz da sua conduta. ”
A Maçonaria, mesmo não sendo uma religião, é essencialmente religiosa. A maioria das suas lendas e alegorias são de natureza sagrada, muitas entrelaçadas na estrutura do cristianismo, principalmente no nosso rito, o Rito Escocês Antigo e Aceito.
Parte essencial da espiritualidade na cerimónia maçónica é a oração. Negar a eficácia da oração é negar a eficácia da fé, pois ao orar, seja qual for a forma de oração, dirigimos a nossa intenção, vontade, pensamento e força à uma inteligência absoluta e infinita. São pensamentos dirigidos ao desconhecido, sendo este, um oceano no qual a consciência é a bússola em busca de magnetismo espiritual que conecta a alma com a divindade.
Percebe-se então que a fé no criador está acima de qualquer religião. Motivo pelo qual utilizamos o termo Grande Arquitecto do Universo, referindo-nos ao criador de forma imparcial e não sob a óptica de religiões, que resultam em diferentes nomes como Deus, Buda, Alá… dentre outros.
Conclusão
Tendo a ciência, como uma forma de busca da razão, Manly Hall diz que
“ciência e religião são duas pontas de uma única verdade, mas o mundo não se beneficiará de forma plena dos seus estudos até que ambas, ciência e religião, tenham feito as pazes e trabalhem junto para a realização da grande obra, a liberação do espírito e inteligência da prisão tridimensional de ignorância, superstição e medo.”
Este trecho traz-nos à mente a Quarta Lei Hermética, a Lei da Polaridade, que diz: “Tudo é duplo, tudo tem dois polos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados”
Ainda de acordo com o Caibalion, “a tese e a antítese são idênticas em natureza, mas diferentes em grau, os opostos são os dois extremos da mesma coisa, diferindo somente em grau…os extremos se tocam”.
Não que a filosofia ou ciência estejam em oposição a religião. Porque a filosofia nada mais é do que o conhecimento de deus e da alma, a de uma analogia sábia. É o guia intelectual que o sentimento religioso necessita. Filosofia é aquele progresso intelectual e moral que o sentimento religioso inspira e enobrece.
A recomendação “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”, esculpida no Templo de Apolo em Delfos, deve ser assumida como uma regra para todo o homem que deseje distinguir-se, no meio da criação inteira, pela sua qualificação de homem, ou seja, enquanto conhecedor de si mesmo.
A conhecida sigla V.I.T.R.I.O.L. do latim “Visita Interiorem Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem”, (Visita o Centro da Terra, Rectificando-te, encontrarás a Pedra Oculta) convida-nos não apenas à mesma reflexão, mas também à prática incessante de auto lapidação e evolução.
A relação entre fé e razão é íntima, pois, para crer o homem precisa pensar e para pensar precisa crer. “Não há motivo para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem seu espaço próprio de realização” (JOÃO PAULO II, 1998).
“O verdadeiro Maçom não se limita a um único credo. Ele percebe com a divina iluminação da sua loja, que como Maçom, a sua religião deve ser universal: Cristo, Buda, Maomé, o nome pouco importa, pois, o Maçom reconhece a luz, não o portador.
Ele adora todos os santuários e se curva diante de cada altar, seja templo, mesquita ou catedral, percebendo com a sua verdadeira compreensão a unidade de toda a verdade espiritual” (MANLY HALL).
Ao longo da história, inúmeros são os casos de extremismo perpetrados por fanáticos de ambos os lados, cegando o homem para a verdade pois quem procura a separação, nunca encontrará harmonia. Mas quem procura a união, a encontrará.
Seguindo este pensamento, o mestre Maçom deve trabalhar sempre para unir a fé e a razão de modo que possa iluminar este mundo cada vez mais polarizado.
Nascidos no pecado da ignorância, devemos fazer uso da razão e da fé como ferramentas para que a carne feita através do Verbo, reflicta a glória do nosso Criador, nesse e nos futuros planos.
Maurilo Antonio Corrêa Humberto, M∴M∴
Rafael Loureiro, M∴M∴
Darcy Bittencourt das Chagas Filho, M∴M∴
A∴R∴L∴S∴ Marrey Jr nº 43 – GOP – COMAB
Notas
[1] Arché é um (ou vários) elemento primordial que serviria de ponto de partida para todo o processo de criação dos seres naturais. Além de estar presente em todas coisas, a arché seria uma actividade, uma força dinâmica que, em conformidade com a sua forma de acção, originaria a variedade dos fenómenos naturais.
Referências bibliográficas
LIVROS
- THE LOST KEYS OF FREEMASONRY – Manly P. Hall – Editora TarcherPerigee
- ANTIGA MAÇONARIA MÍSTICA ORIENTAL – DR. R. Swinburne Clymer – Editora Pensamento
- MORAL E DOGMA – Albert Pike – Editora YOD
- O CAIBALION – Três Iniciados – Editora Pensamento
- Compêndio litúrgico DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO – Grande Oriente Paulista
- Ritual de Aprendiz Maçom – REAA – Grande Oriente Paulista
- Fundamentos da filosofia maçónica – vol. 1 e 2 – Luiz Vitório Cichoski – Ed. Trolha 2019
ARTIGOS
- FÉ E RAZÃO: DIMENSÕES ESSENCIAIS DA PESSOA HUMANA – José Ricardo Carvalho – Revista Scientia Vol. 03 Nº06 (2016)
SITES
- Carta Encíclica “FIDES ET RATIO” do Sumo Pontífice João Paulo II (1998) http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html
- Freemasonry and Religion – United Grand Lodge of England https://grandlodgeofiowa.org/docs/Freemasonry_Religion/FreemasonryAndReligion.pdf
- Arché, Filosofia Pré-socrática – Roberta Melo http://knoow.net/ciencsociaishuman/filosofia/arche-filosofia-pre-socratica/
- O que é a fé? https://formacao.cancaonova.com/igreja/doutrina/o-que-e-a-fe/
- RAZÃO E RELIGIÃO https://formacao.cancaonova.com/igreja/doutrina/razao-e-religiao/
- FÉ E RAZÃO – MIRIAM ILZA SANTANA https://www.infoescola.com/filosofia/fe-e-razao/

- A Maçonaria arquetípica e a Maçonaria institucional
- O cavaleiro Ramsay e a origem da Maçonaria
- Fé e razão: A liberdade de consciência na Maçonaria e a religiosidade (I)
- Terminologia – TELHAMENTO
- O Volume da Lei Sagrada

