As origens da Instituição Maçónica – Parte III

history 3876tyredfg

As primeiras corporações

Esta digressão sobre um dos pontos fundamentais da Maçonaria, tem-nos parecido necessária para mostrar o carácter iniciático, ecléctico e universal da Ordem nos seus próprios conceitos e símbolos em aparência mais vulgares, mas que encerram em si um propósito e uma profunda doutrina.

Voltando ao nosso tema, sobre as origens maçónicas, resta-nos traçar sumariamente a história das corporações construtoras desde as primeiras civilizações até aos nossos dias.

As pegadas das antigas corporações construtoras encontram-se em todos os povos que nos deixaram alguma notícia da sua experiência. Entre os mais antigos e importantes monumentos que restam de antigas civilizações, devemos ressaltar as pirâmides do Egipto. A princípio, foram consideradas tumbas magníficas dos reis, mas um estudo mais atento tem revelado que se trata de monumentos simbólicos, nos quais e próximo aos quais, com toda probabilidade, desenvolveram-se ritos e cerimónias iniciáticas.

Isto parece particularmente certo com respeito à Grande Pirâmide, cujas medidas e proporções calculadas escrupulosamente tem sido reveladas nos seus arquitectónicos conhecimentos geográficos, astronómicos e matemáticos, não menos exactos que os que se consideram exclusiva conquista dos nossos tempos. É suficiente dizer que a unidade de medida testa pirâmide, o côvado sagrado (que pode ser identificado com a régua maçónica de 24 polegadas) é exactamente a décima milionésima parte do raio polar terrestre, uma medida mais justa e mais exactamente determinada que o metro, base dos nossos sistemas. O seu perímetro revela um conhecimento perfeito da duração do ano; a sua altura, a exacta distância da Terra ao Sol, e o paralelo e o meridiano que se cruzam na sua base constituem o paralelo e o meridiano ideais, uma vez que atravessam a maior parte das terras. Por outro lado, a precisão com a qual estão cortados e dispostos os enormes blocos de pedra de que se compõem, daria muito o que pensar a um engenheiro moderno que quisesse imitar estas obras.

Apesar do Egipto ter sempre sido considerado como a terra clássica da escravidão, já que realmente em épocas posteriores os obreiros dirigidos pelos sacerdotes não tinham nenhuma liberdade ou iniciativa, muito difícil admitir que uma obra como a Grande Pirâmide – obra caracteristicamente maçónica – tenha sido outra coisa que a Obra Mestra da mais sábia e celebrada corporação construtora de todos os tempos. Além disto, é possível que a nossa Era Maçónica (que começa no ano 4000 a.C. e que vem de antigas tradições) date precisamente da construção da Grande Pirâmide, que alguns, entretanto, consideram mais recente em quanto outros, por sua vez, julgam mais antiga.

Outra importante construção da antiguidade, além dos templos cujos traços se encontram esparsos pela Terra, parece ter sido a Torre de Babel, de bíblica memória, diferenciando-se esta construção da precedente pelo emprego de tijolos em lugar de pedras cortadas, e de outro material em vez de cal. O mito da confusão das línguas antes da conclusão da obra, e da consequente dispersão das corporações de construtores que se reuniram para executá-la, dá muito o que pensar ao estudante das tradições antigas.

Os construtores fenícios

Em épocas mais recentes (cerca de 1000 anos a.C.), encontramos as corporações e a obra de Construtores Fenícios em todos os países do Mediterrâneo nos quais este povo estabeleceu as suas colónias e a influência da sua civilização.

Estas corporações viajavam, evidentemente, de um país a outro conforme delas se necessitava e solicitado era o seu concurso, erguendo com igual habilidade e facilidade templos e santuários para os diferentes cultos e mistérios, ainda que sempre erigidos conforme o mesmo tipo fundamental, que revela, nas obras das idênticas corporações ou de corporações afins, uma mesma identidade de conceitos.

Podemos considerar como um exemplo típico (e como obra simbolicamente mestra dos construtores fenícios) o Templo de Jerusalém, erigido na época indicada no livro das Crónicas (cerca de 1000 anos a.C.) pelos obreiros que Hiram, rei de Tiro, enviou a Salomão para este efeito, construção sobre a qual é baseada a nossa actual tradição maçónica.

Construtores gregos e romanos

Na Grécia, as corporações formaram-se, sem dúvida, à influência e semelhança das fenícias, e dedicaram-se especialmente à construção de templos, tomando o nome de dionisíacas, relacionando-se evidentemente com os Mistérios homónimos em honra a Iaco ou Zéus Nisio.

A arquitectura grega, caracterizada pelo uso da arquitrave (em vez do arco empregado posteriormente pelos romanos), tem, pela sua singeleza hierática, muita analogia com a egípcia, da qual se diferencia pela graça e a esbelteza que substituem à poderosa majestade daquela. Os seus três estilos, dórico, jónico e coríntio, que se distinguem pela forma dos capitéis e das decorações que os acompanham, são caracteristicamente emblemáticos dos três graus maçónicos. E a Maçonaria Simbólica pode muito bem comparar-se, alegoricamente, à Arquitectura Grega, correspondendo perfeitamente as suas três câmaras às três ordens fundamentais desta.

Á semelhança de ditas corporações de obreiros dionisíacos, Numa Pompílio, o rei iniciado de Roma, instituiu, segundo a tradição, os collegia fabrorum que, como nos precedentes, tinham os seus próprios mistérios e guardavam e transmitiam com os segredos da Artes, certos segredos e tradições de natureza religiosa. Como as Lojas Maçónicas, estavam dirigidos por um triângulo (como é testemunhado pela clássica expressão três faciunt collegium, formados por um Magister e dois Decuriões, compreendendo três graus análogos aos actuais, usando uma especial interpretação emblemática dos seus instrumentos.

Estes colégios estenderam-se depois por todo o império, percorrendo como forças construtoras o caminho das legiões e levantando, onde quer que fossem, aqueles monumentos e edifícios dos quais ainda restam múltiplos vestígios.

Já no século primeiro antes de Cristo, várias destas corporações passaram a estabelecer-se na Gália, Alemanha e Inglaterra, onde construíram especialmente campos atrincheirados que depois se converteram em cidades (o termo inglês chester, dos nomes de muitas localidades revela de forma clara a sua origem latina, de castrum, “acampamento”).

As corporações medievais

Com o triunfo do Cristianismo, que se converteu em religião oficial durante o último período do Império Romano, enquanto os Mistérios tiveram de desaparecer, os collegia fabrorum resolveram adaptar as suas tradições pagãs à nova fé, e isto foi feito muito habilmente, substituindo-se pela lenda da construção do Templo de Salomão outra transmitida anteriormente, e pelos nomes de santos e personagens cristãos os antigos deuses pagãos. Nasceu assim um São Dionísio, em lugar do homónimo deus grego (o Baco dos latinos), e São João foi honrado como protector da Ordem, em lugar do antigo deus bifronte Janus.

Assim renovada, a tradição dos antigos colégios romanos seguiu no Oriente a sorte do Império Bizantino, adaptando-se depois, com igual facilidade, à fé islâmica, enquanto no ocidente, com a queda do Império e a invasão dos vândalos e dos godos, encontrou um asilo seguro numa pequena ilha, perto da cidade italiana de Como, na Lombardia (país assim denominado em consequência da invasão longobardos, “os de longa barbas”, de onde tomaram o seu nome os magistri comacini, que deram origem àquele estilo proveniente do romano, chamado românico, que fez a sua primeira aparição por volta do ano 600 e continuou dominando por vários séculos depois o estilo na Itália e nos países contínuos, até que o estilo gótico, produzido pelas corporações nórdicas, obteve depois o predomínio.

Nas obras destes artistas encontramos vários símbolos maçónicos, e a expressão de uma singular independência do pensamento que é revelada pelas curiosas e mordazes sátiras contra o Igreja, gravadas com uma audácia surpreendente nas próprias esculturas das catedrais. Apesar do hermético segredo com que guardavam as suas tradições e crenças, parece que estas corporações (que existiam em várias cidades da Itália, entre outras em Siena, desde o século XI) não era estranho o conhecimento de um G. A. D. U., nem a lenda de Hiram.

No fervor religioso que caracterizou este período, algumas ordens monásticas da Igreja também se dedicaram, especialmente na França e na Alemanha, à Arte de Construir, levantando templos com a ajuda dos obreiros nomadas que encontravam, contribuindo assim, indirectamente, para a organização destes em corporações que depois tornaram-se independentes.

Por obra e esforço das corporações independentes que se formavam em diversos países, nasceu então, e rapidamente se afirmou, o chamado estilo gótico, que converte o simples arco romano e românico em ogival, magnífico símbolo do fervor religioso e das mais ardentes aspirações humanas que se levantam, como cântico majestoso, da terra ao céu. Nos dois estilos orientais, árabe e russo, encontramos um desenvolvimento ulterior desta ideia que fez evoluir o arco gótico do romano, com a curvatura especial que caracteriza estes estilos.

Estas corporações dedicadas especialmente à arte gótica, constituíram na Inglaterra os guilds de obreiros; na França o compagnonnage (dos quais existiam três seções diferentes que tomavam o nome, respectivamente, de filhos de Salomão, de Mestre Jacques e de Mestre Soubise) e na Alemanha as oficinas e uniões de canteiros (Steinmtzen), entre as quais tomou justo renome aquela que levantou a Catedral de Estrasburgo, erigida no século XV.

Os documentos que delas nos chegam, provam que os obreiros se achavam divididos em aprendizes, companheiros e mestres, que se reuniam em pequenas casas e empregavam de uma maneira emblemática os instrumentos da sua profissão, levando-se consigo como insígnias. Além disso, reconheciam-se por meio de palavras e sinais que chamavam saudações. Os neófitos eram recebidos com particulares cerimónias e juravam o mais profundo segredo sobre o que ia ser-lhes comunicado e ensinado.

A palavra Maçom (do latim medieval “macio”, equivalente de canteiro, de onde teve origem igualmente o termo alemão Metzen) parece que foi usada pela primeira vez no século XIII, sendo exportada da França para a Inglaterra. A expressão franco Maçom (Maçom franqueado ou livre de impostos) aparece por primeira vez em 1375.

A origem desta última palavra tem sido relacionada aos privilégios especiais e isenções concedidas pelos pontífices Nicolas III e Benito XII, em vista da reconhecida moralidade destas corporações e das obras piedosas a que elas se dedicavam como construtoras de igrejas. Mas o real significado originário deste atributo de francos ou livres (em inglês “freemasons”) é um assunto todavia discutido e discutível.

Os Maçons “Aceitos”

Debilitando-se depois, no século XVII, com o renascimento clássico e a corrupção da Igreja (que ocasionou a reforma e as novas teorias filosóficas), o fervor religioso dos séculos passados, a arte sagrada teve necessariamente que decair, e com ela as corporações de maçons operativos que desta actividade extraiam a sua razão de ser, a sua subsistência.

Mas aqui e ali, e especialmente na Inglaterra, algumas delas subsistiram, se bem que de forma muito reduzida, passando natural e gradualmente da actividade construtiva que ocasionou a sua formação, até se ocupar exclusivamente dos assuntos que antes eram para eles de secundária importância, como por exemplo o estudo e a beneficência.

Sem dúvida contribuiu notavelmente para esta nova orientação de actividade das lojas a admissão que foi feita desde então, sempre mais liberal e numerosa (conforme ia decrescendo o seu valor como associações profissionais) de maçons aceitos (accepted freemasons), isto é, membros honorários que nunca tinham exercido uma profissão relacionada com a arte de construir.

Os novos associados, muitas vezes homens de estudo e filósofos eminentes, influíram largamente nestes agrupamentos de antigos construtores, os quais chegaram facilmente a dirigir. Foi assim que as lojas maçónicas profissionais se transformaram naturalmente em lojas da Maçonaria especulativa, nascendo dessa maneira a Maçonaria como actualmente conhecemos. E assim também, muitas doutrinas e tradições iniciáticas e místicas, de diferente origem ou descendência, passaram a incorporar-se à nascente, ou melhor dizendo, renascente instituição. As tradições templárias e Rosa-Cruzes, em especial, tiveram parte importante nesta transformação. Enquanto as lojas Maçónicas encontravam naquelas doutrinas, a alma que lhes infundia uma vida nova, estas encontraram naquelas o corpo, o veículo ou o meio exterior mais conveniente à sua expressão, o que de outra forma poderia ocorrer de modo estéril e deficiente.

Com o século XVII termina assim o estudo das origens maçónicas; desde o XVIII começa a sua história como instituição moderna preparando-se o futuro, temas dos quais falaremos nos dois “Manuais” que se seguem, desta mesma série.

A “Loja de São João”

O problema das origens maçónicas acha-se delineado e resolvido sinteticamente em poucas palavras na pergunta ritual do Venerável Mestre a todo irmão visitante: De onde vens?, e na resposta deste: De uma Loja de S. J. justa e perfeita.

Esta pergunta é fundamental para o Aprendiz e, à semelhança de Édipo, deve esforçar-se em respondê-la satisfatoriamente, buscando em si mesmo a solução do problema das origens: a origem do seu ser e do universo que o rodeia.

Que representa, pois, para os maçons a expressão “Loja de S. João” ?

Já sabemos que a Tradição Maçónica guarda uma relação profundamente íntima com a Tradição Joanita ou mística do Cristianismo (como é claramente demonstrado pela superposição dos nossos instrumentos sobre a primeira página do Evangelho de S. J., que representa a Tradição Cristã mais pura, assim como as Tradições Gnósticas e iniciáticas anteriores).

Igualmente sabemos que S. J. foi tomado como patrono pelas Corporações Construtoras da Idade Média, e conhecemos também, o uso – que remonta a uma época remotíssima – de festejar os dois solstícios, cujas datas coincidem respectivamente com as festas cristãs de S. J.

Estas mesmas festas celebravam-se também antes do cristianismo, sendo, em época próxima aos romanos, em honra a Janus, o deus de duas faces que muito bem simboliza a Tradição, estando uma das faces constantemente voltada ao passado e outra ao futuro. Este nome relaciona-se etimologicamente com o latim janua, “porta”, de onde vem igualmente o latim januarius, “Janeiro” [4]. É interessante notar a este respeito que “porta” é também o significado originário da letra grega delta (do semítico daleth), representa por um triângulo, e que a antiga porta das iniciações, era triangular.

Este deus presidia todos os inícios (em latim initium, de onde também initiare, “iniciar”) e, em particular, o do ingresso do Sol nos dois hemisférios celestes, e a própria iniciação cuja chave possuía e guardava. Agora, é evidente que o nome Janus tem também na sua forma latina, uma semelhança singular com João (Johannes) e não foi por acaso que este último foi colocado no exacto lugar do primeiro.

Por outro lado, o hebraico Jeho-hannam ou João significa “Graça ou favor de Deus”, isto é, homem iluminado ou iniciado. Assim é que a justo título pode este último ser chamado irmão ou discípulo de S. João. A importância iniciática desta escolha torna-se mais evidente por esta dupla ou bifronte etimologia: a primeira pagã ou voltada ao passado (tradição iniciática da qual constitui a porta ou passagem, e a outra, cristã ou voltada para o futuro (os eleitos ou favorecidos de Deus que continuam e darão prosseguimento à tradição por todos os séculos).

A expressão Loja de S. João vem a ser assim, um nome simbólico de toda união ou agrupamento de iniciados, de homens iluminados e favorecidos espiritualmente, aplicando-se, na sua acepção mais geral, a todos os que são admitidos nos Mistérios e mais particularmente aos verdadeiros II S. João, os Mestres da Sabedoria que constituem a Grande Loja Branca, a mais justa e perfeita “Loja de S. João”, na qual devemos buscar a inspiração e a origem profunda e verdadeira da nossa Ordem.

Eduardo Freitas

Notas

[1] Falando em linguagem geológica, aquelas que remontam ao princípio da era quaternária ou talvez ao próprio período terciário.

[2] Confronte-se com o que foi dito por Jesus: “as Minhas palavras são espírito e vida”.

[3] O documento chama-se “Leyland-Loche Ms.” e a sua data remonta a de 1436, estando escrito em inglês arcaico daquela época. Referindo-se à Maçonaria, responde à seguinte pergunta: De onde veio? Informando que começou “com os primeiros homens do Leste, que foram antes dos primeiros do Oeste”, sendo transmitida ao Ocidente pelos venezianos. Depois do que, segue literalmente:

“How comede ytt Engelonde? “Peter Gower, a Grecian journeyed for kunnynge yn Egypte and yn Syria, and yn everyche lande whereat the Venetians hadde plauntede Maconrye, and wynnynge entrance yn al Lodge of Maçonnes, he learned muche, and worked yn Grecia Magna wachsynge and becommynge a myghitye wysacre and gratelyche renowned, and here heaframed a grate lodge at Groton, and maked many Maconnes, some whereoffe dyd journeye yn France, and maked many Maconnes wherefromme, yn process of tyme, the arte passed yn Engelonde.

É evidente que Peter Gower, Venetians e Groton, são alterações fonéticas, de Pitágoras, Fenícios (em inglês Phoenicians) e Grotónios. Assim é que conforme esta tradição, a Maçonaria, estabelecida primitivamente pelos Fenícios em todas as suas colónias – e isto concorda perfeitamente com a origem fenícia do arquitecto Hiram do Templo de Salomão – chegou por intermédio da Grécia à Itália, onde, no tempo das conquistas romanas, franqueou o seu caminho nos demais países da Europa Ocidental.

[4] Embora, possivelmente, a origem mais provável da palavra Janus deva ser relacionada a um hipotético Dianus (masculino de “Diana”), análogo a divinus no sentido “celestial”, ou Divindade Celeste

Artigos relacionados

One thought on “As origens da Instituição Maçónica – Parte III

  • Avatar

    Parabenizo-os Caríssimo EDUARDO FREITAS, de excelência sua lavra, tanto no escorreito narrar escrito, quanto na pesquisa histórica.

    Com minha atenção,

    Dr JAIRO CORRÊA

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *