As origens da Instituição Maçónica – Parte II

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A escola gnóstica

Directamente relacionada com a escola ecléctica alexandrina, a tradição ou escola gnóstica do Cristianismo, tem sido considerada e foi posteriormente perseguida como heresia pela Igreja de Roma.

O gnosticismo tentou conciliar e fundir até o limite possível, o cristianismo então nascente, com as religiões e tradições iniciáticas mais antigas, substituindo o dogma (doutrina ortodoxa, da qual se pede uma aceitação incondicional como “acto de fé”) pela gnosis (conhecimento ou compreensão por meio da qual se alcança a Doutrina Interior). De acordo com esta escola, o Evangelho, à semelhança de todas as escrituras e ensinos religiosos, deve ser interpretado no seu sentido esotérico, isto é, como expressão simbólica e apresentação dramática de Verdades espirituais.

O Cristo, mais que uma atribuição pessoal de Jesus, seria o conhecimento ou percepção espiritual da Verdade que deve nascer e realmente nasce em todo o iniciado, que assim, se torna o seu verdadeiro cristoforo ou cristão. O próprio Jesus seria também o nome simbólico deste princípio salvador do homem, que o conduz “do erro à Verdade e da Morte à Ressurreição”.

A própria Fé (pistis), considera-se como meio para chegar à Gnosis, preferivelmente à aceitação passiva e incondicional de qualquer afirmação dogmática, apresentada como uma Verdade revelada.

Apesar das posteridades interpolações, é certo que o Evangelho, as Epístolas e o Apocalipse de São João, revelam claramente um fundamento gnóstico (a mesma doutrina ou tradição gnóstica dizia-se instituída pelos discípulos ou seguidores de São João), e esta tradição gnóstica ou joanita representa no Cristianismo o ponto de contacto mais directo com a Maçonaria.

A cabala Hebraica

As antigas tradições orientais e herméticas encontram na Cabala e na Alquimia duas novas encarnações ocidentais que não foram estranhas às origens da moderna Maçonaria.

A Cabala (do Hebraico kabbalah, “tradição”) representa a Tradição Sagrada conhecida pelos Hebreus, e por sua vez deriva de antigas tradições caldeias, egípcias e orientais em geral. Trata especialmente do valor místico e mágico dos números e das letras do alfabeto relacionadas com princípios numéricos e geométricos, que encerram em si outros tantos significados metafísicos ou espirituais, dos quais aparece a íntima concordância e a unidade fundamental das religiões.

A antiguidade do movimento cabalista e a sua proximidade aos hebreus tem sido negada por alguns críticos modernos, mas, geralmente, admite-se a sua existência após o cativeiro da Babilónia, tornando-se assim manifesta a sua afirmação doutrinária dos magos caldeus. Especial importância possuem na cabala as palavras sagradas e os Nomes Divinos, atribuindo-se aos mesmos um poder que se faz operativo por meio da sua correcta pronúncia – doutrina comum a todas as antigas tradições, que também tem sido desenvolvida de forma racional na Filosofia da Índia, onde o som ou o Verbo é considerado como um espírito da Divindade (Shabdabralman).

Alquimia e hermetismo

Como do Oriente asiático tem chegado as doutrinas cabalísticas, do Egipto e da tradição hermética (de Hermes Trismegisto ou Thoth, o fundador, tradicional dos mistérios egípcios) faz-se originar a Alquimia (palavra árabe que parece significar “a Substância”), daqueles que se auto denominavam verdadeiros filósofos.

O significado comum e familiar do adjectivo hermético pode dar-nos uma ideia do sigilo por meio do qual os alquimistas costumavam ocultar a verdadeira natureza das suas misteriosas pesquisas. Não devemos portanto estranhar se a maioria das pessoas segue acreditando, ainda hoje, que os principais objectivos dos alquimistas foram os de enriquecer-se por meio da pedra filosofal, que deveria converter o chumbo em ouro puro, e alongar notavelmente a duração da sua existência, livrando-se, ao mesmo tempo, das enfermidades por intermédio de um elixir e de uma milagrosa panaceia.

Nesta mística lápis philosophorum, entretanto, nós os maçons não podemos deixar de reconhecer uma particular encarnação, um estado de pureza, refinamento e perfeição da mesma pedra em cujo trabalho principalmente consiste o nosso labor. Quando reflectimos sobre o segredo simbólico, no qual, à nossa semelhança, envolviam os seus trabalhos para os ocultar aos profanos da Arte, não podemos ter a menor dúvida de que, além dessas finalidades materiais, que justificavam para os curiosos as suas ocupações, os reais esforços de todos os verdadeiros alquimistas foram dirigidos para objectivos essencialmente espirituais.

A pedra filosofal não pode ser pois, nada senão o conhecimento da Verdade, que sempre exerce uma influência transmutadora e enobrecedora sobre a mente que a contempla e se reforma à sua imagem e semelhança. Unicamente por meio desse conhecimento, que é realização espiritual, podem converter-se as imperfeições, as paixões e as qualidades mais baixas e vis dos homens naquela perfeição ideal da qual o ouro é símbolo mais adequado.

Com esta chave é relativamente fácil para nós entendermos a misteriosa linguagem que os alquimistas utilizam nas suas obras, e como a própria personalidade do homem é o athanor, mantido ao calor constante de um ardor duradouro, onde devem desenvolver-se todas as operações.

O parentesco entre o simbolismo alquímico e o maçónico aparece com bastante clareza no desenho que reproduzimos na página 23, extraído de uma ilustração da obra de Basílio Valentin sobre o modo de fazer o ouro oculto dos filósofos, igualmente adoptado por outros autores.

A Grande Obra dos alquimistas, e aquela que procuramos nos nossos simbólicos trabalhos, apresentam, efectivamente, uma idêntica finalidade comum a todas as escolas iniciáticas, seja no significado místico da realização individual, como numa iluminada e bem dirigida acção social, que tem por objectivo o aprimoramento do meio e a elevação, o bem e o progresso efectivo da humanidade.

Templários e Rosa-Cruzes

As tradições herméticas orientais encontram no Ocidente, durante a Idade Média e o princípio da Idade Moderna, outros tantos canais para a sua expressão nas muitas sociedades e ordens místicas e secretas, que se manifestaram aqui e acolá, ainda que aparentemente com diversa finalidade exterior, mas todas intimamente relacionadas com a Tradição Iniciática e ligadas interiormente pela afinidade dos seus meios de manifestação e de uma identidade fundamental de orientação…

Entre estes movimentos, os dois mais conhecidos e que mais influenciaram a Maçonaria, são a Ordem do Templo, que teve o seu apogeu e o seu período de esplendor no século XIII, e a Fraternidade Rosa-Cruz que a influenciou especialmente no século XVII.

A Ordem dos Cavaleiros do Templo nasceu das Cruzadas e do contacto estabelecido por ocasião destas, entre os cavaleiros vindos do Ocidente e as místicas comunidades orientais depositárias de tradições esotéricas. Como Ordem, foi fundada em 1118 por dois cavaleiros franceses, Hugues de Payens e Godefroid de St. Omer, com o fim de proteger os peregrinos que iam a Jerusalém depois da Primeira Cruzada.

Os cavaleiros faziam os três votos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, como as demais ordens religiosas, e a Ordem compreendia em si um corpo eclesiástico próprio, dependente directa e unicamente do Grão Mestre da Ordem e do Papa. Assim, os místicos segredos dos quais a Ordem se fez depositária, podiam ser guardados com toda a segurança.

O segredo dentro do qual eram desenvolvidos as cerimónias de recepção e se comunicavam os mistérios aos que se reputavam dignos e maduros para possuí-los, foi o pretexto das acusações de imoralidade e heresia que se fizeram à Ordem, sendo em realidade motivadas pela ignorância, o ciúme e a cobiça da sua imensa riqueza. Esta última foi principalmente a razão que levou a Felipe o Belo, rei da França no ano de 1307, a prender sem prévio aviso a todos os Templários, que foram torturados e julgados sumariamente pelo Tribunal da Inquisição, como preciso objectivo de acabar com a Ordem, cujo fim foi tragicamente selado em 1314 com a bárbara morte infligida ao seu Grão Mestre Jacques de Molay, que foi queimado vivo diante da catedral de Notre Dame de Paris (quatro meses depois da abolição da Ordem ter sido decretada por obra do pontífice.

Também o movimento filosófico conhecido com o nome de Fraternitas Rosae-Crucis teve a sua origem no contacto do Ocidente com o Oriente, e com as secretas tradições que aqui puderam conservar-se mais livre e fielmente. Cristhian RosenKreutz, o seu místico fundador, nasceu segundo a tradição da qual se fala na Fama Fraternitatis, em 1378, e ainda muito jovem viajou para Chipre, Arábia e Egipto, aonde lhe foram revelados muitos importantes segredos que levou consigo para a Alemanha, aonde fundou a Fraternidade, destinada a reformar a Europa. Depois da sua morte foi sepultado secretamente numa tumba preparada expressamente para ele, que devia permanecer desconhecida para os membros da mesma Fraternidade, até que foi casualmente descoberta, lendo-se mesma a inscrição: Post CXX anos patebo.

Esta estória, assim como os segredos e maravilhas que se encontram na tumba, é evidentemente um simbolismo da Tradição Iniciática da Sabedoria, personificada pelo mesmo Cristian Rosenkreutz, que vem do Oriente para o Ocidente, e é conservada zelosamente na sua tumba hermética, onde a buscam e encontram os seus adeptos, os fiéis buscadores da Verdade.

Quanto à influência destes dois movimentos sobre a Maçonaria, que é a que neste momento mais nos interessa, é certo que não somente muitas tradições templárias e Rosa-Cruzes encontram o seu caminho na nossa Ordem, senão que também esta se fez a intérprete e natural herdeira dos seus objectivos ideais e da Grande Obra que constitui o objecto de todas as diferentes tendências. Hermetistas, templários, Rosa-Cruzes e filósofos, sempre se confraternizaram com os maçons, e desta comunhão espiritual nasceu a Maçonaria conforme hoje a conhecemos.

Espírito, alma e corpo

Podemos considerar estas fraternidades e movimentos, como a alma multiforme do Espírito Uno da Tradição Universal, que veio directamente e sem interrupção até nós provindo dos antigos Mistérios. Assim, no que diz respeito ao seu espírito iniciático como à tradição que a anima (e da qual é herdeira e continuadora), as origens da nossa Instituição não podem ser mais gloriosas, sendo nós, como Maçons, os herdeiros dos antigos Reis-Sacerdotes (simbolizados por Melchisedeck e Salomão) e dos Grandes Iniciados de todos os Tempos.

E no que se refere ao corpo no qual esta Alma tradicional encarnou – isto é, a forma que domina exteriormente a nossa Instituição, que foi tomada particularmente da Arte de Construir -, as nossas origens não são menos gloriosas, já que se relacionam directamente com a fonte de toda civilização, como a causa se relaciona com o seu efeito natural.

Conhecemos, pelo estudo que temos feito nas páginas precedentes, algo da sua alma, que é tradição e Finalidade, comuns às diferentes ordens, escolas, movimentos, sociedades e comunidades que acabamos de examinar – uma Alma formada pelas mais elevadas aspirações humanas e expressada constantemente em termos de compreensão, tolerância e amor fraternal. Vejamos agora como também o corpo exterior da Instituição tem as suas origens nos tempos da mais remota História e da pré-história humana, tendo deixado os seus vestígios em todas as grandes obras e monumentos que até nós chegaram das épocas passadas.

A “ars structoria”

Entre todas as artes, a Arquitectura tem sido venerada e praticada em todos os tempos como uma arte especialmente Divina. Não devemos maravilhar-nos da especial consideração em que sempre foi tida, por estar a construção material intimamente relacionada com a forma exterior de toda civilização, da qual se pode considerar ao mesmo tempo como causa, meio, condição necessária e expressão natural.

A casa representa o princípio da vida civil e não carece de razão sem dúvida, que a segunda letra do alfabeto hebraico (que constitui a inicial da palavra sagrada do Aprendiz) signifique exactamente “casa”, derivando a sua forma do hieróglifo simbólico da mesma. A Casa representa assim à primeira letra ou o princípio da civilização, enquanto a sua interpretação esotérica em relação às demais letras da Palavra dá outro significado mais próprio para o Aprendiz, que estudaremos mais adiante.

Quando os homens tiveram casas ou abrigos protectores, e quando os muros das cidades constituíram para estas a base da sua segurança, foi quando puderam desenvolver as artes, as ciências e as instituições sociais.

Então, elevando-se a atenção e as aspirações dos homens, do reino dos efeitos para o das causas, ou da aparência exterior à realidade interior que nela se esconde e a anima, foi quando nasceu a ideia e sentiu-se a necessidade de construir um Templo, de levantar um edifício ou símbolo exterior do reconhecimento interior da Causa Transcendente, dos efeitos visíveis.

Esta aspiração interior constitui o princípio de toda iniciação, ou ingresso, numa forma superior de pensar, de ver e de considerar as coisas. Portanto, podemos dizer que a Maçonaria teve tanto moral como materialmente origem no primeiro Templo que se levantou em reconhecimento à Divindade, e que o primeiro Maçom foi quem o levantou, apesar do rude e elementar que foi esse Templo primitivo, que bem pode ter consistido de uma única coluna, ou tronco de pedra ou de madeira, cuja tradição foi perdida em seguida nos obeliscos.

Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa

É evidente, pois, que o elemento espiritual (especulativo ou devocional) e o material (operativo ou construtivo) encontram-se intimamente unidos desde o momento em que o primeiro se concebeu e se realizou a ideia de um Templo, como símbolo exterior de um reconhecimento interior, e que a Maçonaria, surgiu espontaneamente desta ideia de levantar ou estabelecer um símbolo à Glória do Princípio ou Realidade interiormente reconhecidos, pois se os Maçons no sentido material foram “construtores” em geral, sempre tem sido mais particularmente os que tem elevação Templos para o espírito.

Tendo presentes estas considerações, não há nada de surpreendente na transformação da Maçonaria operativa em especulativa, isto é, de como uma Instituição Moral e Filosófica tenha podido desenvolver-se sobre uma arte material, tomando o lugar das corporações medievais e continuando-as.

Ambos os elementos – operativo e especulativo – estiveram juntos desde o princípio, e isto evidencia-se no desenvolvimento cíclico que faz prevalecer, conforme os momentos históricos e as necessidades de uma época, uma ou outra tendência, um ou outro destes dois aspectos da nossa Instituição, tão inseparáveis como as duas colunas que dão acesso aos nossos Templos.

Além de que constitui o selo da sua origem, a construção em geral e a de um templo em particular – prestou-se sempre e actualmente ainda se presta admiravelmente como símbolo interpretativo da actividade da Natureza, podendo-se considerar o Universo como uma Grande Obra, como um Templo e ao mesmo tempo uma Oficina de Construção, dirigida, inspirada e actualizada por um Princípio Geométrico, cujas diferentes manifestações são as leis naturais que o governam e as forças que, segundo estas leis, produzem diferentes efeitos visíveis.

Esta obra de construção pode o homem observá-la em si mesmo, no seu próprio organismo físico (muitas vezes comparado a um templo), assim como na sua íntima organização espiritual, no mundo interior das suas ideias, pensamentos, emoções e desejos. Todo homem vem a ser assim, um microcosmos ou “pequeno universo” e um Templo (análogo ao Grande Templo do Universo que constitui o Macrocosmos), individualmente erguido “a Glória” do Princípio Divino ou Espiritual que o anima.

Com esta Obra Universal que se desenvolve igualmente dentro e fora de nós, na qual todo ser participa geralmente de forma inconsciente com a sua própria vida e actividade, o Maçom – ou seja o iniciado nos Mistérios da Construção – tem o privilégio e o dever de cooperar conscientemente, convertendo-se em obreiro inteligente e disciplinado do Grande Plano que constitui a evolução.

Assim, pois, a Ars Structoria é, para quem sabe interpretá-la e realizá-la, a verdadeira Ciência e Arte Real da Vida, o Divino privilégio dos iniciados que a praticam especulativa e operativamente; dois aspectos intimamente unidos e inseparáveis, ainda que possam manifestar-se de diferentes formas, conforme a evolução particular do indivíduo. E não há altura ou elevação do pensamento ou do plano da consciência individual que não possa ser interpretado, ou ao qual não possam utilmente aplicar-se as alegorias, os emblemas e os instrumentos simbólicos da Construção.

As corporações construtoras

Nenhuma actividade, arte ou obra importante pode ser o resultado dos esforços e da experiência de um indivíduo isolado. Por consequência, os primeiros construtores tiveram, necessariamente, que agrupar-se, fosse para a aprendizagem e o aperfeiçoamento, aonde a experiência dos demais pudesse ser aproveitada, fosse para o exercício e a prática regular da Arte, agregando-se cada um a outros membros como ajudantes ou aprendizes, que deveriam cooperar nas mais rudes tarefas sem entretanto conhecer os princípios e segredos, que se adquirem com o tempo, com o esforço e com a aplicação.

A divisão em Aprendizes, Companheiros e Mestres, teve de ser espontânea em qualquer grupo de obreiros com intenção construtiva, devendo-se distinguir os braçais e noviços, que não podiam dar mais que a sua força, a sua boa vontade e as suas faculdades ainda indisciplinadas, dos obreiros, que já conheciam os princípios da arte e cuja actividade podia ser utilizada mais proveitosamente. Estes obreiros diferenciavam-se, por sua vez, daqueles outros consumados ou perfeitos que já dominavam esses princípios e estavam capacitados a executar qualquer obra, assim como, a dirigir a ensinar aos demais.

Como a unidade de uma tarefa sempre uma correspondente unidade de conceito e de direcção, é óbvio também, que estas três categorias tiveram de se manter fielmente disciplinadas (no duplo sentido intelectual e moral da palavra disciplina, isto é, tanto na teoria como na prática) sob uma Autoridade reconhecida como tal, pela sua experiência e conhecimento superior, eleita ou proposta sobre eles, o Mago por excelência, ou Arquitecto, a cuja iniciativa e directa responsabilidade encomendava-se evidentemente a obra, um Mestre Venerável entre os Mestres da Arte, ao qual todos os demais deviam respeito e obediência.

Assim, toda a corporação construtora ou agrupamento de obreiros para um fim determinado deve ter-se constituído espontaneamente à semelhança das nossas Lojas, sendo ainda necessário além do Mestre Arquitecto, director da Obra, um ou dois Vigilantes que o Ajudaram e puderam substitui-lo em caso de necessidade, e outros membros que tiveram cargos e atribuições especiais, diferentes dos demais.

A primeira loja foi constituída, consequentemente, pelo primeiro grupo de construtores que uniram disciplinadamente os seus esforços para alguma obra importante, ou para a realização de um Ideal comum. E como as regras morais são necessárias para a ordem, a disciplina e a eficiência em toda actividade material, é evidente que estas devem ter sido inseparáveis das normas e regras próprias da Arte. O conjunto destas normas e regras, que constituíam uma necessária disciplina para os que eram admitidos a tomar parte na Obra, ou como membros da corporação, formou a característica da Ordem, pois, sem ela não poderia ter existido nenhuma ordem verdadeira e a aceitação desta disciplina deve ter naturalmente sido exigida como condição preliminar para admissão na Ordem.

A “religião” dos construtores

Nas especulações, cultos e tradições primitivas, tudo tende à unidade: poderes e atribuições que hoje se distinguem cuidadosamente como por exemplo o eclesiástico e o civil, o legislativo, e o judiciário, estavam ontem em mãos de uma mesma autoridade. Assim, o mundo antigo deu-nos o exemplo dos Reis-Sacerdotes que tomavam para si diferentes representações e poderes que hoje são consideradas inteiramente suprimidos.

Igualmente a Religião formava então parte da vida, e as instituições civis e religiosas entrelaçavam-se mutuamente, constituindo um conjunto quase inseparável. Por isso, nas primitivas corporações construtoras, o elemento religioso-moral deve ter sido considerado como formando uma unidade com o elemento artístico-operativo, desenvolvendo e transmitindo-se igualmente nestas corporações, os segredos da arte e certas especiais tradições religiosas.

Note-se, a este respeito, que a própria palavra religião identifica-se, no seu significado original, com a tradição, indicando simplesmente “o que é legado ou se transmite”. Também nesse mesmo sentido, a Maçonaria é religião ainda que não uma religião: a religião operativa e especulativa, simbólica e iniciática, nascida espontaneamente nas primeiras corporações construtoras, à medida em que os seus adeptos se esforçavam em divinizar a sua Arte, convertendo-se em veículos e meios dos quais pode aproveitar-se a Hierarquia Oculta para os seus ensinamentos, encontrando nesse meio em terreno particularmente fértil para semear a mística semente da Sabedoria.

Também o carácter particular das corporações que se especializaram na construção de Templos fez com que estas se identificassem, nas diferentes épocas da história, com distintas tradições religiosas, e em alguns casos com os próprios Mistérios (aos quais alguns entre eles devem ter sido admitidos como participantes), e não há como maravilhar-se se assimilaram muitos ensinamentos esotéricos, transmitidos como património secreto entre os mestres da Arte.

Fora da dúvida está que, em qualquer período da História, as corporações construtoras aparecem como possuidoras de segredos e alegorias, alguns dos quais provêm de uma época remotíssima, e outros representam antiquíssimas tradições revestidas de nomes e formas simbólicas mais recentes. Enquanto que, por outro lado, bem sabemos que todas tiveram regras e modalidades particulares para a dupla transmissão do segredo material da arte e da sua interpretação especulativa, assim como para a admissão de candidatos como aprendizes, exigindo-se serem “livre e de bons costumes”, dando provas definidas de moralidade, diligência e capacidade para a obra.

Esta “religião dos construtores” teve de ser uma religião eminentemente moral, isto é, uma ética individual aplicada à vida, como é demonstrado pela Tradição Maçónica, que mais directamente lhe dá continuidade.

O Grande Arquitecto

O conceito de um Grande Arquitecto, ou Princípio Divino Inteligente que constitui o foco espiritual e a Base Imanente da Grande Obra da Construção particular e universal, tem representado sem dúvida, em todos os tempos, o fundamento da Religião dos Construtores.

Este mesmo conceito constitui o Princípio Cardinal da Maçonaria Moderna, pois não possuem valor maçónico os trabalhos que não forem feitos “a glória” deste Princípio, isto é, com o fim de que a espiritualidade latente em todo o ser e em toda a coisa, encontre por meio dos mesmos a sua expressão ou manifestação mais perfeita.

Trata-se, sem dúvida, de um conceito iminentemente iniciático, isto é, no qual ingressamos progressiva e gradualmente à medida em que os nossos olhos espirituais se abrem à luz maçónica. Assim pois, enquanto no princípio é dada a cada Maçom a liberdade de interpretar esta expressão de Grande Arquitecto conforme as suas particulares ideias filosóficas, opiniões e crenças (teístas e ateístas, considerando-se neste último caso o Grande Arquitecto como expressão abstracta da Lei Suprema do Universo), posteriormente, será conduzido gradualmente, por meio do seu próprio trabalho interior ou do esforço pessoal com o qual obtém todo progresso, a um reconhecimento mais perfeito, a uma realização mais íntima e profunda deste Princípio, ao mesmo tempo imanente e transcendente, que constitui a base e a essência íntima de tudo o que existe.

Ao redor desta ideia central (cujo carácter iniciático a diferença de todo conceito ou crença dogmática) tem-se agrupado, como em torno do seu centro natural, as diferentes tradições, símbolos e mistérios que constituem outras tantas aplicações e expressões do Princípio Fundamental à interpretação da vida e ao seu aperfeiçoamento.

Desta maneira, sem impor opinião ou crença alguma, mas deixando a cada um a liberdade de interpretar esta expressão simbólica segundo a sua particular educação e as suas convicções todos são naturalmente conduzidos para uma mesma Verdade, esforçando-se em penetrar cada um mais interiormente, chegando ao fundo da sua própria visão e crença, que (como todas) tem de ser tolerada, respeitada e interpretada como um dos infinitos caminhos que conduzem à Verdade.

Eduardo Freitas

(Continua na Parte III)

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