São João Evangelista

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S. João Evangelista
S. João Evangelista

João era filho de Zebedeu e Salomé e irmão de Tiago. Nos Evangelhos os dois irmãos são muitas vezes chamados de “filhos de Zebedeu” tendo recebido de Cristo o título de “Boanerges” – “Filhos do Trovão” – (Marcos, III, 17). Originalmente, ambos eram pescadores e pescaram com o seu pai no lago da Galileia. De acordo com explicação habitual, inteiramente provável, os dois irmãos foram discípulos de João Batista e Jesus chamou-os do círculo de seguidores de João, juntamente com Pedro e André, para se tornarem Seus discípulos (João, i, 35-42). Os primeiros discípulos retornaram com seu novo mestre da Jordânia na Galileia e, aparentemente, João e os demais permaneceram durante algum tempo com Jesus (cf. João II, 12, 22, iv, 2, 8, 27 sqq.). No entanto, depois de um segundo retorno da Judeia, João e seus companheiros voltaram para seu trabalho de pescadores, até que foram chamados por Cristo a determinado grupo de discípulos (Mt, iv 18-22; Marcos, i 16-20). Na lista dos apóstolos João tem o segundo lugar (Atos, I, 13), o terceiro (Marcos, III, 17) e quarta (Mateus, X, 3, Lucas, vi, 14), mesmo depois de Santiago, com a excepção de uma passagem (Lucas, VIII, 51, ix, 28 no texto grego, Atos, I, 13).

Assim, e pelo facto de que Santiago é colocado em primeiro lugar, se pode concluir que João era o mais novo dos dois irmãos. Em qualquer caso, João teve uma posição de destaque entre os apóstolos. Pedro, Tiago e ele foram as únicas testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Marcos, V, 37), da Transfiguração (Mateus, XVII, 1), e da Agonia no Getsémani (Mateus, XXVI, 37). Só ele e Pedro foram enviados à cidade ultimar os preparativos para a Última Ceia (Lucas, XXII, 8). Sentou-se à mesa ao lado de Cristo no peito de quem ele se inclinou (João, XIII, 23, 25). De acordo com a interpretação geral João era também o “outro discípulo” que Pedro seguiu com Cristo após a sua prisão e condução para o palácio do sumo sacerdote (João, XVIII, 15). João, sozinho, permaneceu junto do seu amado Mestre, ao pé da cruz no Calvário com a Mãe de Jesus e as mulheres piedosas e, desolado cuidou da Mãe como o último legado de Cristo (João, XIX, 25 – 27). Depois da Ressurreição, João estava com Pedro, o primeiro dos discípulos, para chegar à sepultura e foi o primeiro a acreditar que Cristo tinha verdadeiramente ressuscitado (João, XX, 2-10). Quando, mais tarde Cristo apareceu no lago da Galileia, João foi também o primeiro dos sete discípulos que reconheceu o Mestre de pé junto à costa (João, XXI, 7). O Quarto Evangelista mostrou-nos quão perto a sua relação sempre foi com o seu Senhor e Mestre pelo título que usa para se chamar a si mesmo, sem mencionar seu nome: “O discípulo a quem Jesus amava”. Depois da Ascensão de Cristo e a descida do Espírito Santo, João, juntamente com Pedro, teve um papel importante na fundação e liderança da Igreja. Podemos ainda vê-lo acompanhando Pedro na cura do homem paralítico no templo (Atos, III, 1 ss). E está também com Pedro quando este é preso (Atos, IV, 3). E está também com o Príncipe dos Apóstolos quando aquele visita os recém-convertidos na Samaria (Atos, VIII, 14).

Através das três Epístolas de João e do Apocalipse pode dar-se como provada a unidade do autor destas três escritos proferidos sob o nome de João e sua identidade com o Evangelista. Ambas as Epístolas e o Apocalipse, no entanto, pressupõem que o seu autor, João, fazia parte das testemunhas pessoais da vida e da obra de Cristo (cf. especialmente I João, I, 1-5, IV, 14), e que por muito tempo viveu na Ásia Menor e tinha uma posição de autoridade reconhecida por todas as comunidades cristãs como líder da Igreja. Além disso, o Apocalipse diz-nos que o seu autor estava na ilha de Patmos “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus”, quando foi distinguido com a revelação divina contida no Apocalipse. (Apocalipse, i,9).

Escritores cristãos dos séculos II e III atestam a tradição, que ninguém questiona de que o Apóstolo e Evangelista João viveu na Ásia Menor durante as últimas décadas do primeiro século e de Éfeso dirigiu as Igrejas daquela província. No seu “Diálogo con Tryphon” (Capítulo 81), S. Justino Mártir refere-se a “João, um dos apóstolos de Cristo” como uma testemunha que viveu “connosco” ou seja em Éfeso. Santo Irineu refere em muitas passagens o Apóstolo João e sua estadia na Ásia, declarando expressamente que ele escreveu seu Evangelho em Éfeso (Adv. Haer., III, I, 1), e lá viveu até ao reinado de Trajano (loc. cit., II, XXII, 5). Eusébio (Hist. Eccl., III, XIII, 1) e outros, referem que o Apóstolo foi desterrado para Patmos durante o reinado do Imperador Domiciano (81-96). Antes disso e de acordo com o testemunho de Tertuliano (De Praescript., XXXVI), João foi atirado para dentro de um caldeirão de óleo fervente em frente da Porta Latina em Roma, sem sofrer quaisquer ferimentos. Após a morte de Domiciano o apóstolo retornou a Éfeso durante o reinado de Trajano, e morreu cerca de 100 DC, senhor de uma idade avançada. A tradição relata muitos traços delicados acerca dos últimos anos de sua vida – recusou-se a permanecer sob o mesmo tecto com os Coríntios (Irineu “Ad. Haer.”, III, iii, 4), a sua ansiedade acerca de um jovem que se havia tornado um ladrão (Clemente Alex., “Quis dives salvetur“, xiii), as exortações continuamente repetidos no final de sua vida, “Filhos, amai-vos uns aos outros” (Jerónimo, “Comm. in ep. ad. Gal.”, vi, 9).

São João na arte cristã

A arte cristã primitiva geralmente representa São João com uma águia, simbolizando as alturas a que sobe no primeiro capítulo do seu Evangelho. O cálice como símbolo de São João, de acordo com a representação de várias autoridades não foi adoptada até o século XIII, às vezes é interpretado em referência à Última Ceia, e também em conexão com a lenda de que foi oferecido a São João um copo de vinho envenenado a partir da qual, após a bênção, o veneno foi libertado sob a forma de uma cobra. Talvez a explicação mais natural seja encontrada nas palavras de Cristo a João e Tiago “O meu cálice na verdade o bebereis” (Mateus 20:23).

Festas de São João

São João é comemorado em 27 de Dezembro, dia inicialmente compartilhado com Santiago Maior. Em Roma e numa data próxima a festa foi reservada a São João, embora ambos os nomes apareçam no Calendário cartaginês, o Martirológio de Jerónimo e livros litúrgicos gálicos. A “morte” tida como a “assunção” do Apóstolo é referida no “Menologio de Constantinopla” e no Calendário de Nápoles como sendo no dia 26 de Setembro, naquele que se supõe ser recordado como o dia da sua morte.

Na data em que se comemora o solstício de Verão, 24 de Junho, comemora-se o dia de São João Batista. Recordemos as festas joaninas (São João). No dia 25 de Dezembro, comemoramos o solstício de Inverno e é também a data do nascimento de Avatares como: Krishna, Mitra, Hórus, Buda e Jesus Cristo, todos considerados grandes Sóis (Deuses).

A Terra faz um movimento de translação ao redor do Sol numa órbita plana, quase redonda, com período definido de um ano. Enquanto isso, ela gira em torno de si mesma, originando os dias. O equinócio (Do latim: aequinoctiu = noite igual; aequale = igual + nocte = noite) é o ponto da órbita da Terra onde a duração do dia e da noite são iguais. É o dia a partir do qual, os dias ou as noites começam a crescer (respectivamente Primavera e Outono), até que se chegue ao solstício (Do latim: solstitiu = Sol Parado), que é o ponto da órbita da Terra onde existe a maior disparidade entre a duração do dia e da noite. Os solstícios são, então, o dia e a noite mais longos do ano (no Verão e Inverno, respectivamente).

Iniciando então no solstício de Inverno (noite mais longa do ano), é a partir dessa data que os dias começam a crescer, até que se alcance uma igualdade entre o dia e a noite (equinócio de Primavera), e continua até o ápice do dia no solstício de Verão (dia mais longo do ano), data a partir da qual os dias diminuirão até que, mais uma vez, a igualdade se faça presente entre dia e noite (equinócio de Outono), seguindo, novamente, para o solstício de Inverno, num ciclo perpétuo.

Durante o intervalo de um ano temos dois solstícios e dois equinócios. Desse modo é possível dividir o intervalo de um ano em quatro períodos, a saber: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Esses períodos são chamados “estações do ano”. As estações do ano são consequência das variações da inclinação do eixo da Terra, girando em sua órbita elíptica em torno do Sol. Não tem a ver com a distância da Terra ao Sol.

O solstício deve ser comemorado com “ágapes solsticiais”. Isso não significa reunir-se para comer ou beber, mas sim para compartilhar, agradecer e unir energias ao serviço do “Mais Elevado” e da ajuda à humanidade. E, por esse motivo, compartilhar uma comida simples.

O historiador José Castellani, explica: “Por herança recebida dos membros das organizações de ofício, que, tradicionalmente, costumavam comemorar os solstícios, essa prática chegou à Maçonaria moderna, mas já temperada pela influência da Igreja sobre as corporações operativas. Como as datas dos solstícios são 21 de Junho e 21 de Dezembro, muito próximas das datas comemorativas de São João Batista, 24 de Junho, e de São João Evangelista, 27 de Dezembro, elas acabaram por se confundir com estas, entre os operativos, chegando à actualidade“.

E não se pode esquecer que a primeira Obediência Maçónica do mundo foi fundada em 1717, no dia de São João Baptista.

Graças a isso, muitas corporações, embora houvesse um santo protector para cada um desses grupos profissionais, acabaram adoptando os dois “São João” como padroeiros, fazendo chegar esse hábito à moderna Maçonaria, onde existem, segundo a maioria dos ritos, as Lojas de São João, que abrem os seus trabalhos (à glória do Grande Arquitecto do Universo Deus e em honra a S. João, nosso padroeiro), englobando, aí, os dois santos.

No templo maçónico, essas datas solsticiais estão representadas num símbolo, que é o Círculo entre Paralelas Verticais e Tangenciais. Este significa que o Sol não transpõe os trópicos, o que sugere, ao maçom, que a consciência religiosa do Homem é inviolável; as paralelas representam os trópicos de Câncer e de Capricórnio e os dois “São João”.

Tradicionalmente, por meio da noção de porta estreita, como dificuldade de ingresso, o maçom evoca as portas solsticiais, estreitos meios de acesso ao conhecimento, simbolizados no círculo cósmico, no círculo da vida, no zodíaco, pelo eixo Capricórnio Câncer, já que Capricórnio corresponde ao solstício de Inverno e Câncer ao de Verão (no Hemisfério Norte, com inversão para o Sul). A porta corresponde ao início, ou ao ponto ideal de partida, na elíptica do nosso planeta, nos calendários gregorianos e também em alguns pré- colombianos, dentro do itinerário sideral.

O homem primitivo distinguia a diferença entre duas épocas, uma de frio e uma de calor, conceito que, inicialmente, lhe serviu de base para organizar o trabalho agrícola. Graças a isso é que surgiram os cultos solares, com o Sol sendo proclamado – como fonte de calor e de luz – o rei dos céus e o soberano do mundo, com influência marcante sobre todas as religiões e crenças posteriores da humanidade. E, desde a época das antigas civilizações, o homem imaginou os solstícios como aberturas opostas do céu, como portas, por onde o Sol entrava e saía, ao terminar o seu curso, em cada círculo tropical.

A personificação de tal conceito, no panteão romano, foi o deus “Janus”, representado como divindade bifásica, graças à sua marcha pendular entre os trópicos; o seu próprio nome mostra essa implicação, já que deriva de janua, palavra latina que significa porta. Por isso, ele era, também, conhecido como Janitur, ou seja, porteiro, sendo representado com um molho de chaves na mão, como guardião das portas do céu. Posteriormente, essa alegoria passaria, através da tradição popular cristã, para São Pedro, mas sem qualquer relação com o solstício.

Janus era um deus bicéfalo, com duas faces simetricamente opostas, cujo significado simbolizava a tradição de olhar, uma das faces, constantemente, para o passado, e a outra, para o futuro. Os Césares da Roma imperial, nas suas celebrações e para dar entrada ao Sol nos dois hemisférios celestes, antepunham o deus Janus, para presidir à iniciação, atribuindo-lhe a guarda das chaves.

Tradicionalmente, tanto para o mundo oriental, quanto para o ocidental o solstício de Câncer, ou da Esperança, alusivo a São João Batista (Verão no Hemisfério Norte e Inverno no Hemisfério Sul), é a porta cruzada pelas almas mortais e, por isso, chamada “Porta dos Homens”. Enquanto que o solstício de Capricórnio ou do Reconhecimento, alusivo a São João Evangelista (Inverno no Hemisfério Norte e Verão no Hemisfério Sul), é a porta cruzada pelas almas imortais e, por isso, denominada “Porta dos Deuses”. Para os antigos egípcios, o solstício de Câncer (Porta dos Homens) era consagrado ao deus Anúbis; os antigos gregos consagravam-no ao deus Hermes. Anúbis e Hermes eram, na mitologia desses povos, os encarregados de conduzir as almas ao mundo extraterreno.

A importância dessa representação das portas solsticiais pode ser encontrada com o auxílio do simbolismo cristão, pois, para o maçom, as festas dos solstícios são, em última análise, as festas de São João Batista e de São João Evangelista. São dois “São João” e há, aí, uma evidente relação com o deus romano Janus e suas duas faces: o futuro e o passado, o futuro que deve ser construído à luz do passado.

Sob uma visão simbólica, os dois encontram-se num momento de transição, com o fim de um grande ano cósmico e o começo de um novo, que marca o nascimento de Jesus: um anuncia a sua vinda e o outro propaga a sua palavra.

Foi a semelhança entre as palavras Janus e Joannes (João, que, em hebraico é Ieho-hannam = graça de Deus) que facilitou a troca do Janus pagão pelo João cristão, com a finalidade de extirpar uma tradição “pagã”, que se chocava com o cristianismo. E foi desta maneira que os dois “São João” foram associados aos solstícios e presidem as festas solsticiais.

Continua, aí, a dualidade, princípio da vida: diante de Câncer, Capricórnio; diante dos dias mais longos, do Verão, os dias mais curtos, do Inverno; diante de São João (do Inverno), com as trevas, Capricórnio e a Porta de Deus, o São João (do Verão), com a luz, Câncer e a Porta dos Homens (vale recordar que, para os maçons, simbolicamente, as condições geográficas são, sempre, as do Hemisfério Norte).

Dentro dessa mesma visão simbólica, podemos considerar a configuração da constelação de Câncer. Suas duas estrelas principais tomam o nome de Aselos (do latim Asellus, i = diminutivo de Asinus, ou seja: jumento, burrico). Na tradição hebraica, as duas estrelas são chamadas de Haiot Ha-Kadosh, ou seja, animais de santidade, designados pelas duas primeiras letras do alfabeto hebraico, Aleph e Beth, correspondentes ao asno e ao boi. Diante delas, há um pequeno conglomerado de estrelas, denominado, em latim, Praesepe, que significa presépio, estrebaria, curral, manjedoura, e que, em francês, é “créche”, também com o significado de presépio, manjedoura, berço. Essa palavra “créche” já foi, inclusive, incorporada nos idiomas latinos, com o significado de local onde crianças novas são acolhidas, temporariamente.

Esse simbolismo dá sentido à observação material: Jesus nasceu a 25 de Dezembro, sob o signo de Capricórnio, durante o solstício de Inverno, sendo colocado em uma manjedoura, entre um burro (asno) e um boi. Essa data de nascimento, todavia, é puramente simbólica. Para os primeiros cristãos, Jesus nascera em Julho, sob o signo de Câncer, quando os dias são mais longos no Hemisfério Norte.

O sentido cristão, no plano simbólico, abordaria, então, apenas a Porta dos Homens e, assim, só haveria a compreensão de Jesus, como ser, como homem. Mas Jesus é o ungido, o messias, o Cristo – segundo a teologia cristã – e o outro polo, obrigatoriamente complementar, é a Porta de Deus, sob o signo de Capricórnio, tornando a dualidade compreensível.

Dois elementos, entretanto, um material e um religioso, viriam a influenciar a determinação da data de 25 de Dezembro como data do seu nascimento. O material refere-se aos hábitos dos antigos cristãos e o religioso, ao mitraísmo da antiga Pérsia, adoptado por Roma. É que,

Os primeiros cristãos do Império Romano, para escapar às perseguições, criaram o hábito de festejar o nascimento de Jesus durante as festas dedicadas ao deus Baco, quando os romanos, ocupados com os folguedos e orgias, os deixavam em paz.

Mas a origem mitraica é a que é mais plausível para explicar essa data totalmente fictícia: os adeptos do mitraísmo costumavam se reunir na noite de 24 para 25 de Dezembro, a mais longa e mais fria do ano, numa festividade chamada – no mitraísmo romano – de Natalis Invicti Solis (nascimento do Sol triunfante). Durante toda a fria noite, faziam ofertas e preces propiciatórias, pela volta da luz e do calor do Sol, assimilado ao deus Mitra. O cristianismo, ao fixar essa data para o nascimento de Jesus, identificou-o com a luz do mundo, a luz que surge depois das prolongadas trevas”.

G. N.

Fontes

  • Fonck, Leopold. “St. John the Evangelist.” The Catholic Encyclopedia. Vol. 8. New York: Robert Appleton Company, 1910. 3 Dec. 2012
  • Introdução ao Livro de Hiram – Madras Editora
  • Silva Pinto, Loja Virtual da Arte Real
  • José Castellani – maçonaria.net

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