O que queremos dizer exactamente com o simbolismo maçónico e o caminho iniciático?

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maçonaria, simbolismo

Inspirei-me para escrever este artigo quando li recentemente artigos no nosso jornal sobre a actual “dessimbolização” da Maçonaria e a sua confusão com disciplinas como a terapia, a filosofia e palestras sobre questões sociais actuais. O meu objectivo é lançar alguma luz sobre o significado mais profundo do simbolismo maçónico e o caminho iniciático que a Maçonaria oferece.

As origens e influências da Maçonaria

Para alguns Irmãos e Irmãs, a Maçonaria pode parecer uma forma de escapar ao clero ou ao peso da religião. Sejamos claros: os primeiros passos da Maçonaria inglesa, no século XVIII, foram marcados pela influência de membros anglicanos que, consciente ou inconscientemente, prolongavam uma acção religiosa. Embora a Maçonaria nascente nunca se tenha tornado uma religião, permaneceu profundamente imbuída de uma influência simbólica de origem espiritual. Este facto explica, sem dúvida, a confusão observada entre muitos membros das Lojas, bem como o impacto de certos ritos, como o Rito Escocês Rectificado (RER), que conserva uma forte dimensão cristã.

Não entraremos aqui num debate sobre os ritos, nem numa querela entre as diferentes denominações, porque o assunto é outro:

Em que é que o simbolismo maçónico do século XXI se distingue de outras vias iniciáticas?

A busca da essência humana e o caminho maçónico

De um modo geral, o ser humano procura encontrar o seu centro, encher-se de si mesmo para revelar a sua essência e dar sentido à sua passagem efémera pelo mundo material. Como dizia o nosso irmão Oscar Wilde: “Torna-te tu mesmo, os outros já estão ocupados”, ideia que Nietzsche completa com a sua célebre injunção: “Torna-te o que és”. Esta procura remete directamente para a noção de verdade tal como os gregos a entendiam. O termo aletheia, que significa “levantar o véu sobre o que foi esquecido”, sugere que os seres humanos não precisam de um contributo externo para se realizarem. Apenas precisa de revelar o que já possui em estado latente, uma verdade interior enterrada sob as camadas do esquecimento e do condicionamento.

A Maçonaria, como sistema de iniciação, sintetizou o conhecimento e os métodos de artes multimilenares para criar um sincretismo simbólico único. Este sistema resulta num método de iniciação altamente eficaz, desde que não seja utilizado em excesso e reduzido a um círculo filosófico ou à antecâmara de um salão social, como os da Paris do século XVIII. Mas como é que este método é realmente eficaz? Desde o início dos tempos, o ser humano vagueia entre o céu e a terra, procurando desesperadamente compreender a razão da sua existência. Adiam constantemente a morte, acreditando, através do materialismo, que podem libertar-se do seu destino inelutável. Como é que a Maçonaria se insere nesta procura?

Obstáculos ao caminho de iniciação maçónica

Digamo-lo sem rodeios: há duas categorias de maçons para os quais a Maçonaria não tem qualquer efeito perceptível.

  1. Aqueles que combinam Maçonaria e religião

Substituir o clero por uma Obediência e Deus pelo Grande Arquitecto do Universo (GADU) não altera a abordagem fundamental. Não há diferença significativa entre um cristão tradicional e um Maçom “crístico” que transpõe as suas crenças religiosas para a Loja. Ambos seguem um caminho semelhante, com o mesmo objectivo: a esperança de transcendência. No entanto, a verdadeira abordagem maçónica baseia-se na investigação fundada na dúvida e no questionamento, enquanto a religião se baseia na fé. Como conciliar estas duas abordagens opostas numa mesma semana? Para ser iniciática, a Maçonaria exige um desprendimento do dogma e uma liberdade de pensamento incompatíveis com uma posição religiosa dogmática.

  1. Aqueles que utilizam a Maçonaria para debates filosóficos ou sociais

Transformar a Loja num fórum de discussão de temas filosóficos ou de actualidade não conduz à iluminação espiritual. Estas trocas de ideias, embora interessantes e muitas vezes úteis para a sociedade, assemelham-se mais a um círculo de ideias ou a um debate público, como se pode encontrar em todo o mundo, sem que seja necessário fazer disso um mistério. Dez leigos com aventais maçónicos não vão mudar a face do mundo simplesmente falando. O caminho iniciático não é um lugar de conversa intelectual, mas um caminho de transformação interior.

O simbolismo maçónico e a sua acção iniciática

Vejamos agora o coração da prática maçónica: o trabalho concreto sobre o simbolismo e o seu significado iniciático.

Tudo o que compõe uma Loja Maçónica está carregado de um profundo significado cosmológico. Vejamos alguns exemplos:

  • O fio de prumo evoca a lei da gravidade, lembrando a ancoragem necessária para qualquer elevação espiritual.
  • O Sol e a Lua simbolizam as forças de atração e repulsão, as polaridades que regem o universo e o equilíbrio interior do pedreiro.
  • O mosaico do chão, com os seus quadrados pretos e brancos, representa a alternância dos opostos, um convite a transcender a dualidade.
  • O Mestre de Cerimónias, com o seu bastão que “puxa”, e o Experto, com a sua espada que “empurra”, encarnam o princípio da unidade, uma dinâmica de orientação e de protecção na viagem iniciática.

Cada elemento da Loja é interactivo e interligado, formando uma rede de símbolos que se entrelaçam para criar uma linguagem universal. Esta linguagem não está gravada na pedra: actua sobre o Maçom através da prática ritualizada, desde a iniciação até à repetição dos rituais, todos eles enquadramentos estruturantes.

O papel dos enquadramentos na prática maçónica

A prática maçónica pode ser vista como uma sucessão de quadros, dentro e fora dos quais o Maçom trabalha sobre si próprio. Para ilustrar este conceito, tomemos dois instrumentos fundamentais, o esquadro e o compasso, herdados de tradições milenares. Na China, há 2500 anos, as figuras míticas Fuxi e a sua irmã Nüwa foram representadas com estas ferramentas: o esquadro simbolizando a Terra (o quadrado, a estabilidade, o material) e o compasso o Céu (o círculo, o infinito, o espiritual). Estes instrumentos servem para desenhar molduras – quadrado para um, redondo para outro – a nível material, mas o seu significado é muito mais profundo no contexto maçónico.

Qual é o objectivo destas molduras que rodeiam e acompanham o Maçom? A resposta é simultaneamente simples e complexa, porque não é inequívoca.

  1. Encontrar o seu centro

Antes de mais, como todos os pais sabem, é essencial dar à criança um enquadramento que a ajude a encontrar a sua estrutura. Porquê? Porque um enquadramento permite a um ser em desenvolvimento encontrar o seu centro. Uma criança sem enquadramento torna-se muitas vezes um adulto sem limites, que procura desesperadamente reprimi-los através de comportamentos extremos: desportos de risco, actividades perigosas, consumo de substâncias ou desafio à autoridade. Da mesma forma, um Maçom que domina as estruturas da sua instrução maçónica – através dos rituais, símbolos e graus – pode alcançar o centro do seu círculo íntimo. Torna-se então o ponto da bússola, sempre no centro do seu universo, onde quer que se encontre. Este centro simboliza a harmonia interior, um estado de equilíbrio e de realização.

  1. A moldura como um meio e não como um fim

Uma segunda razão, igualmente crucial, é que se a moldura não for domada, torna-se um problema, até mesmo uma fixação. Mas um quadro nunca é um fim em si mesmo, mas um meio para atingir um fim. O ser humano libertado aprende a jogar com as molduras, a utilizá-las para passar de uma para outra, mantendo-se centrado. Imaginemos um surfista: desliza de onda em onda, mantendo o seu centro de gravidade para não cair. Da mesma forma, um Maçom que domina as estruturas da sua prática pode navegar pela vida sem perder o seu centro de gravidade. Inversamente, um Maçom que, após trinta anos de prática, rigidifica o seu espírito na intolerância ou na “cratofilia” – a obsessão por títulos, condecorações e graus – afasta-se radicalmente do caminho iniciático. Torna-se não só um contra-exemplo, mas também um modelo nocivo para as suas Irmãs e Irmãos, porque tomou o caminho oposto ao da iniciação.

A Maçonaria como uma Arte Real

O que é preciso compreender sobre a prática maçónica é que ela não é simplesmente uma técnica, mas uma Arte – e mais precisamente uma Arte Real. A diferença é essencial: uma técnica consiste em reproduzir repetidamente o mesmo gesto para melhorar, enquanto uma arte exige reinventar cada gesto como se fosse o primeiro. Na Maçonaria, cada ritual, cada meditação sobre um símbolo, deve ser vivido com uma nova frescura. Para os mestres maçons, recordo que a palingenesia – a arte de morrer para renascer – não é um convite a agarrar-se a uma vida sem vida, prolongada por dias desprovidos de riqueza interior e de fraternidade. Pelo contrário, é um apelo a transformar-se, a despir-se do velho para acolher o novo, em cada momento.

A última etapa: afastar-se e não fazer nada

Depois de o Maçom ter compreendido e dominado as leis do simbolismo – que reflectem as leis da alternância e da harmonia do universo – espera-o uma última prova: encarnar o “pas de côté” em todas as suas acções. Todos os maçons do segundo grau já ouviram esta expressão, mas quantos a põem efectivamente em prática? Dar o passo lateral é ser simultaneamente o actor e o observador da sua própria vida. Os taoistas chineses falam de Wu Wei, a não-acção:

Observar sem se apegar às recompensas, sem rejeitar as provações, observar a vida como um fluxo, observar-se a si próprio a morrer e a renascer a cada momento.

Significa compreender que o universo que percebemos é nosso e faz parte de um todo, onde tudo é um.

Um caminho entre muitos, mas um único cume

Se o cume da montanha que todos escalamos é um único ponto – o do despertar, da auto-realização – há muitas maneiras de o alcançar. A Maçonaria oferece um caminho iniciático rico e profundo, desde que se mantenha fiel à sua essência simbólica e não se desvie para objectivos profanos, quer se trate de debates intelectuais ou de procura de poder. Não discutiremos o caminho que cada um de nós escolhe, desde que conduza ao cume e não a uma auto-estrada que conduz à praia. A cada um o seu caminho… Boa viagem a todos!

Pierre d’Allergida

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1 thought on “O que queremos dizer exactamente com o simbolismo maçónico e o caminho iniciático?”

  1. FRANCISCO CEZAR DE LUCA PUCCI

    Uma bela discussão filosófica para dizer que discussão filosófica não é necessária na Maçonaria.

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